Especial | Fragmentação literária

Estratégia para recriar o mundo

De origem incerta e difícil de ser definida, a fragmentação literária existe desde a Antiguidade, divide a opinião de estudiosos e chega ao século XXI como uma marca desse período em que a literatura também é veiculada em plataformas digitais


Marcio Renato dos Santos

Há quem diga que a literatura do século XXI é, por excelência, fragmentada — basta conferir o legado do alemão Winfried Georg Sebald (1944-2001), a obra em progresso de Luiz Ruffato ou a produção literária de Valêncio Xavier, Manoel Carlos Karam, João Gilberto Noll, Raimundo Carrero, Nuno Ramos, Sérgio Medeiros, Veronica Stigger, Joca Terron e Laura Erber.

Outras vozes observam que quase tudo está fragmentado, sejam as várias atividades e obrigações diárias de uma pessoa em 2015 até as narrativas veiculadas nas redes sociais: o link de um texto de um portal de notícias, seguido de uma frase atribuída a Caio Fernando Abreu e uma crônica do Luis Fernando Verissimo ou do Carpinejar.

Tudo estaria mesmo fragmentado no século XXI? Qual a relação disso com a literatura?

Se é difícil definir a fragmentação, também não é fácil apontar exatamente quando ela surgiu no universo literário. A professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Dirce Waltrick do Amarante afirma que a poesia clássica antiga e os textos pré-socráticos já eram fragmentados. Aurora Bernardini, professora da Universidade de São Paulo (USP), diz que a fragmentação sempre existiu — desde os rabiscos primitivos de nossos ancestrais.

“O que muda é a luz lançada sobre a fragmentação. Ou seja, sua definição se modifica conforme a escola ou o movimento que a analisa. Em termos gerais, trata-se de uma escrita curta (aforística), em que a ideia pode vir concluída ou não. Os antigos oráculos, cujas predições, que tanto aparecem na literatura e que deviam ser interpretadas, eram exemplo de fragmentação rica em ambiguidade”, comenta Aurora.

Já a professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Karina de Castilhos Lucena acredita que a fragmentação é “cria” do século XX, uma espécie de resposta a um processo histórico também fragmentário que inclui duas guerras mundiais: “A narrativa fragmentária é aquela que não segue uma ordem cronológica. Não vamos encontrar um padrão de início, meio e fim, por exemplo, o nascimento da personagem no primeiro capítulo, seu casamento na metade do livro e sua morte no último. Se por acaso esses acontecimentos aparecerem nessa ordem, virão filtrados pela memória donarrador, que salta de um tema a outro sem uma lógica preestabelecida.”

A professora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) Rejane Rocha é cautelosa ao definir a fragmentação, pelo fato de o conceito ser entendido de maneiras diferentes na história da cultura: “Se pensarmos em As mil e uma noites, não seria possível identificar as narrativas que se encaixam sucessivamente, no relato de Sheherazade, como um procedimento que remete à fragmentação? Por outro lado, o que haveria em comum entre esse método e aquele utilizado por Baudelaire em Spleen de Paris, para comunicar as sensações do sujeito que, às portas da Modernidade, tenta compreender a cidade?”.

Ao invés de pensar, por exemplo, no marco-zero da fragmentação, a estudiosa da UFSCar prefere apontar para o momento em que o procedimento formal assumiu importância programática, no entendimento dela, na chamada alta modernidade literária — entre o final do século XIX e o início do século XX.

“Entendo o impulso programático como um esforço consciente dos artistas desse momento de organizar a linguagem e as estruturas narrativas de modo a se colocarem à altura dos desafios para expressar um mundo, um sujeito e umasensibilidade que não mais se mostravam íntegros, coesos e coerentes. Isso se evidencia, por exemplo, nas propostas cubistas em artes plásticas, e também na prosa e na poesia do mesmo período”, argumenta Rejane.

Artifício surpreendente

Apesar de o fragmento existir desde a Antiguidade, e ser um artifício fundamental para dialogar com a diluição do sujeito e, evidentemente, do mundo no século XX, a professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) Marília Cardoso afirma que a fragmentação foi retomada — com intensidade — ainda no século XVIII por alguns escritores românticos da Alemanha. O articulista da Folha de S.Paulo Marcelo Coelho também identifica nos intelectuais alemães citados pela professora da PUC-Rio um retorno do procedimento estético.

“Acho que o interesse pelo fragmento começa com os românticos alemães, Schlegel e Novalis. O interessante é que, provavelmente, os românticos passaram a valorizar esse tipo de coisa quando perceberam a beleza das ruínas arquitetônicas e, especialmente, a beleza misteriosa de textos gregos e romanos que nos chegaram incompletos”, diz Coelho, referindo-se à poesia de Safo [de aproximadamente 600 anos antes de Cristo], por vezes, “reduzida a algumas poucas palavras e versos isolados que ressurge no século XIX, e de finais do século XVIII, com uma veracidade, uma força, um poder de sugestão que as obras mais acabadas e lisas do classicismo não eram mais capazes de apresentar”.

De acordo com Marília Cardoso, da PUC-Rio, as possibilidades do fragmento, em especial a força da concisão, seriam apropriadas, posteriormente, por Friedrich Wilhelm Nietzsche e outros autores no mundo todo, incluindo Oswald de Andrade. Mas, no Brasil, quem utilizou a fragmentação com maestria foi Machado de Assis no romance Memórias póstumas de Brás Cubas [leia mais sobre o livro na página 25]. “Os textos dos primeiros viajantes e colonizadores são fragmentários, uma vez que reúnem observações díspares. Mas Machado de Assis talvez represente a maturidade estética do fragmento no Brasil”, observa Dirce Waltrick do Amarante, da UFSC.

De acordo com a professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Dirce Waltrick do Amarante, na Grécia Antiga já havia fragmentação literária. “A poesia clássica antiga é extremamente fragmentária. Aliás, o que são os textos pré-socráticos? Acredito, por isso, que o fragmento seja o princípio e o fim da literatura”, afirma Dirce. Foto: Reprodução.

Karina de Castilhos Lucena, da UFRGS, diz que, pelo fato de o narrador do livro estar morto durante a narração, Memórias póstumas de Brás Cubas é o exemplar perfeito da fragmentação — “já que não há ruptura mais profunda com a linearidade do que pôr um morto a narrar a história”. Rejane Rocha, da UFSCar, acrescenta que, em Memórias póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis mobiliza recursos identificados com a fragmentação, como o estilhaçamento dos capítulos até a inserção de digressões que rompem com a linearidade do enredo. “Além disso, no que diz respeito ao momento literário em que Machado esteve inserido, tais recursos não eram mobilizados com frequência — basta pensarmos nos escritores realistas paradigmáticos da literatura ocidental, de Flaubert a Eça de Queirós”, completa a especialista da UFSCar.

Ocaso da vanguarda

Rejane Rocha analisa que, como boa parte dos procedimentos programáticos da vanguarda, aqueles cuja função era abalar as estruturas estéticas a partir de proposições linguísticas e narrativas radicais, a fragmentação se popularizou e, nesse sentido, perdeu seu potencial dechoque e novidade. A estudiosa cita Octávio Paz que, em Os filhos do barro, reflete a respeito do fenômeno, localizando- o no interior do que ele denomina como “ocaso da vanguarda”.

O ensaísta e poeta mexicano afirma que é possível identificar o declínio da ideia de arte moderna na medida em que, hoje — o texto de Paz foi publicado pela primeira vez em 1974 — suas negações teriam se convertido em rituais, sua rebeldia em procedimento, sua crítica em retórica e o seu impulso transgressor em cerimônia.

“O leitor contemporâneo, educado na ‘tradição da ruptura’ — o termo também é de Paz, no mesmo livro — aprendeu a valorizar procedimentos como a fragmentação. Os escritores também. Talvez, justamente por isso, esse método e outros arregimentados pela alta modernidade para incomodar e mobilizar os leitores, para romper com a tradição constituída e o cânone estabelecido, hoje são arregimentados como forma de expressar o pertencimento ao que se identifica como arte. O que não significa dizer que, na contemporaneidade, a fragmentação não seja utilizada como estratégia que rende, ainda, interessantes resultados e que possui ainda potencial crítico e mobilizador”, afirma a professora da UFSCar.

Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, representa a maturidade estética do fragmento na literatura brasileira. “Se pensarmos na figura do defunto-autor, Memórias póstumas parece mesmo o exemplar perfeito da fragmentação, já que não há ruptura mais profunda com a linearidade do que pôr um morto a narrar a história”, diz Karina de Castilhos Lucena, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Foto: Reprodução.

Plataforma não é garantia

Autor do livro Crítica cultural: teoria e prática, Marcelo Coelho observa que, no presente, talvez, o que pareça mais fragmentado não seja exatamente o produto literário, a forma da narrativa por exemplo, mas sim o lapso de atenção do leitor.

“O jornal sempre foi fragmentado, por exemplo. Qualquer anúncio num quadradinho de classificados, qualquer slogan publicitário em verso, mesmo os feitos por Olavo Bilac, tendiam a esse efeito de ‘simultaneidade’, de ‘colagem’, que não por acaso foi uma das fontes de inspiração do modernismo”, afirma Coelho, acrescentando que a aceleração é maior hoje em dia, a partir da linguagem da TV, em primeiro lugar, e mais tarde a partir do sistema do controle remoto da própria televisão, que introduz o “zapping”: “A absorção e a rejeição das informações ocorre em frações de segundo. Não tanto porque a obra em si seja assim (o programa de televisão, a novela), mas porque o espectador tem mais controle sobre a velocidade da apresentação.”

Rejane Rocha, em sintonia com o discurso de Marcelo Coelho, diz que uma característica e uma potencialidade do meio não devem ser confundidos com um procedimento literário: “Um romance colaborativo no twitter pode ser absolutamente linear em termos de estruturação narrativa. Algo parecido não acontecia com os romances do século XIX, escritos no formato folhetim e publicados, de forma seriada, nos jornais?”.

“No que diz respeito aos meios e às poéticas digitais, o que se observa é que os textos literários produzidos especificamente para esses novos suportes, e não apenas transplantados do meio impresso para o meio digital, são mais interessantes esteticamente na medida em que reconfiguram o expediente da fragmentação aliando as possibilidades do meio às estratégias formais da literatura, que existem há tempos, reconfigurando- as”, comenta Rejane.

Dialogando com a especialista da UFSCar, Aurora Bernardini, da USP, afirma que a fragmentação, em si, não é literatura: “Esses textos [avulsos, veiculados e lidos aleatoriamente na internet, via Face, no link do twitter] se não incorporados em alguma obra com algum intuito artístico, não são literatura. A fragmentação só tem sentido literário se for convenientemente incorporada em alguma obra artística.”