Especial Capa: As marcas de Karam

Dono de uma prosa experimental, pautada pelo humor e situações absurdas, Manoel Carlos Karam também deixou marcas no teatro e na imprensa paranaense

Guilherme Sobota


Um dos traços marcantes da obra de Manoel Carlos Karam é o humor. Conforme escreve Marçal Aquino na orelha de um dos livros do autor, “um humor original, diferente, desses que a gente ri e logo depois para, pensa direito e fica preocupado”. E foi com esse humor pitoresco que Karam, uma figura fácil da dramaturgia curitibana, se despede dos palcos para entrar na literatura, no meio dos anos 1980, com a edição de Fontes murmurantes. “Manoel Carlos Karam nasceu (1947) em Rio do Sul, Vale do Itajaí (uma enchente por ano), Santa Catarina, mas hoje é curitibano (uma neve de vez em quando). Jornalista (um salário por mês). Escreveu e dirigiu duas dezenas de peças de teatro (com títulos do tipo O avião parte às 5, Doce primavera, Urubu, Esquina do 7 de Setembro com 31 de Março), mas cortou o palco para ter tempo de pensar num cavalo sentado, na flor de samambaia”, escreve o escritor na primeira edição de seu romance de estreia.

Em entrevista à Gazeta do Povo, em outubro de 2004, o autor explicava a veia humorística de sua obra. “O humor faz parte da minha fala, do idioma que escrevo e me escreve. Um personagem não tem necessariamente humor. A língua usada para falar dele, sim — essa pode estar carregada dessa qualidade.”

Depois da militância no teatro e as “duas dezenas de peças”, o autor decidiu se dedicar a outras paixões: o jornalismo e a literatura. Karam trabalhou muitos anos como jornalista, especialmente em TV. Em uma entrevista à Folha de Londrina, em agosto de 1985, o escritor explicava a mudança do teatro para a literatura. “Foi então que, depois de 12 anos resolvi parar com o teatro e me propus a escrever sério. No início foi difícil, porque, devido ao meu trabalho, sobrava pouco tempo, não dava para manter nem uma certa disciplina que eu acho muito necessária”.

Fontes murmurantes é o primeiro ato de um projeto literário que Karam anunciava desde o início da sua carreira como escritor: traçar painéis, divididos em quatro partes: o primeiro de um país, o segundo de uma cidade, o terceiro de uma casa e o quarto de uma pessoa. Dito e feito. Em 2001, com a publicação de Pescoço ladeado por parafusos, que saiu pela Ciência do Acidente, editora do escritor Joca Reiners Terron, a quem Karam se referia como seu “anjo da guarda em São Paulo”, O autor concluiu sua proposta inicial. Os outros dois livros que compõem o projeto são, respectivamente, O impostor no baile de máscaras (1992) e Cebola (1997). Este último foi vencedor do cultuado prêmio Cruz e Sousa de Literatura, em 1995, cedido pelo governo do Estado de Santa Catarina.

Karam também publicou a coletânea de contos Comendo bolacha Maria no dia de São Nunca (1999), os romances Encrenca (2002) e Sujeito oculto (2004). Ainda voltou ao texto teatral pouco antes de morrer, com Duas criaturas gritando no palco (2003). Dono de uma prosa experimental, Karam cultivou admiradores entre os jovens escritores da literatura brasileira contemporânea, entre eles o próprio Joca Terron, Marçal Aquino e Nelson de Oliveira, autores que assinam textos nas recentes edições dos livros de Karam, publicadas em 2010 pela Kafka Edições.

Manoel Carlos Karam faleceu no dia 1º de dezembro de 2007, aos 60 anos, em decorrência de um câncer de pulmão, na cidade em que escolheu viver e de onde tirou a matéria-prima fundamental de sua literatura.