Especial | Valêncio Xavier

Fragmentos de um artista hipermoderno

Considerado pioneiro na fusão entre imagem e texto na literatura brasileira, Valêncio Xavier e sua obra ganham cada vez mais ressonância nas universidades

Márcio Renato dos Santos



Ele dirigiu o filme Caro signore Fellini (1979), que teve a finalidade de convidar o cineasta Federico Fellini para conhecer Curitiba. Dizia que Ernesto Che Guevara visitou a capital do Paraná — assinou texto sobre o assunto, publicado na Folha de S.Paulo. Resenhou um álbum da banda Atari Teenage Riot na Gazeta do Povo. Usava o adjetivo genial para qualificar aquilo que gostava, inclusive a si mesmo, e bestial para rotular o que não tinha afinidade. Nascido em São Paulo no dia 21 de março de 1933, Valêncio Xavier Niculitcheff saiu de cena há cinco anos, no dia 5 de dezembro de 2008, mas sua obra conquista, a cada ano, mais atenção, sobretudo dentro das universidades brasileiras, onde são realizadas dissertações e teses sobre o legado do autor.

“Valêncio Xavier definitivamente nos tira da cadeira.” A afirmação de Lígia de Amorim Neves, mestre em Letras pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), define um dos efeitos da ficção do escritor paulistano que se radicou em Curitiba desde os anos 1950. De fato, é pouco provável que o leitor se mantenha passivo ou em estado de contemplação diante, por exemplo, de O mez da grippe (1981) — obra na qual o autor apresenta, além de tramas paralelas, uma narrativa sobre a gripe espanhola na capital paranaense no início do século XX a partir de fragmentos de dois jornais, cada qual com a sua visão de mundo, um diferente do outro. Em O minotauro (1985), o leitor se depara com um labirinto nos corredores de um hotel de alta rotatividade, cenário de um encontro que pode revelar um crime — que possivelmente dialoga com uma uma tragédia noticiada, na época, em jornais curitibanos.

“Ao trazer para a ficção elementos biográficos e acontecimentos documentados, reorganizados por um narrador não confiável, Valêncio põe em discussão as verdades e mentiras da representação e mesmo da própria realidade”, observa Lígia. A mestre em Letras da UEM ressalta que, no que diz respeito à obra de Valêncio, a concepção de literatura também passa a ser questionada, problematizando, assim, as fronteiras do texto ficcional. Entre os elementos presentes nos textos do autor, ela destaca a preocupação metalinguística, o narrador irônico e não confiável e a mistura de linguagens, por exemplo, artigos científicos, cartas, takes de filme, narrativas biográficas, jingles etc.

Maria Salete Borba fez mestrado e doutorado na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) sobre a produção literária de Valêncio e acredita que o mapeamento da obra dele depende muito do leitor, “dos contatos e relações que esse leitor conseguir realizar.” Para ela, os livros desse escritor incomum viabilizam o acesso a universos heterogêneos, onde — mais que jogos numéricos e de palavras — o leitor tende a se envolver como se fosse um arqueólogo para, então, decifrar sutilezas de um projeto artístico que dialoga com o popular e o erudito.

Entrevistando a bailarina Ana Botafogo: o lado curioso, e jornalista, de Valêncio em ação.

REVOLUCIONÁRIO PÓS-MODERNO

“Valêncio é responsável por uma instauração da pós-modernidade na literatura brasileira”, diz o artista plástico Sergio Niculitcheff, sobrinho do escritor. Ele salienta que seu tio usou, e idolatrou, a imagem, não apenas como ilustração do texto, mas como parte integrante e essencial da narrativa. Isso pode ser percebido, por exemplo, tanto em O mez da grippe, Minha mãe morrendo e O menino mentindo (2001), como em Maciste no inferno (1983), narrativa que dialoga com o cinema mudo, em que as imagens não podem ser suprimidas, da mesma maneira que o texto não funciona isoladamente. Niculitcheff tem uma convicção: “Por sua originalidade e sua obra ser única, não vejo como estabelecer paralelos [da produção do Valêncio] com a de outros autores.”

Autor da dissertação O mosaico de linguagens na narrativa hipertextual de Valêncio Xavier, defendida na Universidade Federal do Paraná (UFPR), Júlio Röcker Neto afirma — em sintonia com o discurso de Niculitcheff — que o legado do escritor inclui uma arquitetura textual inovadora, na qual texto e imagem se fundem de maneira única. “É uma textualidade que se pode chamar de hipertextual, que se evidencia numa escritura de construção não-linear que incorpora códigos que se entrelaçam para formar um mosaico literário pós- -moderno. Um legado também de experimentação com a linguagem e de expansão dos limites da escrita, por meio da qual se percebe claramente a necessidade de representar a realidade do ponto de vista da multiplicidade. É a escrita como reflexo de um homem do seu tempo”, comenta Röcker Neto.

O então mestrando optou por estudar os textos que Valêncio publicou em jornais de Curitiba entre 1995 e 2003 e, a partir desse repertório, elaborou um trabalho acadêmico que, entre outras questões, mostra a literatura como reflexo de uma época (“e aí tratando da expansão dos limites da escrita e abordando um novo conceito de composição e um novo conceito de forma”); intertextualidade e estruturação hipertextual (“trazendo o conceito de hipertexto literário em uma nova textualidade sugerida por Valêncio”) e a fragmentação do texto e o processo de montagem (“pela experiência de Valêncio com cinema, é inevitável estabelecer essa aproximação nas suas narrativas literárias”).

Röcker Neto, que conheceu a produção literária de Valêncio em 1998 e apresentou a dissertação em 2008, analisa que, na obra dele, a conjunção de palavra, imagens e tipos gráficos montados sobre a página convidam o leitor (“esse ser humano contemporâneo”) a uma experiência renovada de leitura. “Ítalo Calvino considera essa escrita contemporânea como uma rede de conexões entre fatos, pessoas e coisas do mundo. Valêncio faz isso de maneira criativa e inovadora”, argumenta Röcker Neto. Lígia de Amorim Neves acrescenta que o autor de O mez da grippe rompe com uma tradição literária pautada na linearidade, não só no plano linguístico, mas espacial também. Na opinião dela, os códigos linguísticos de Valêncio, e não só a colagem e a montagem das imagens, devem ser lidos como uma imagem também: seria uma ‘literatura para se ver’. “Essa é a grande marca do seu experimentalismo que compõe um quadro de ousadia ao lado do narrador não confiável, da narrativa fragmentada e polifônica”, analisa Lígia.


Valêncio com Jean-Claude Bernardet no lançamento do roteiro do filme O drama da fazenda fortaleza, que seria dirigido por Berenice Mendes. O projeto nunca saiu do papel.

CAOTICAMENTE SISTEMÁTICO

Durante o mestrado, Röcker Neto visitou a casa de Valêncio, no bairro Ahú, em Curitiba, e teve a oportunidade de conversar com o autor sobre a metodologia de pesquisa e escrita. O escritor mostrou ao mestrando arquivos com vídeos, caixas de fotografias, anotações e reportagens — todo esse material reunido, de acordo com o então estudante, de maneira sutil, por temas e um tanto caótico. Röcker Neto também conferiu originais de textos publicados em livros e em jornais. “Então, o processo criativo dele ficou evidente para mim. Havia um lado de pesquisa, em que ele reunia, talvez durante meses, anos, material para criar. E havia um lado muito intuitivo em que, a partir de uma linha narrativa muito clara, Valêncio escolhia uma maneira diferente de contar a sua história, com ousadia, experimentalmente em alguns casos, não-linearmente”, comenta Röcker Neto, completando que identificou a influência do cineasta Valêncio no processo de montagem da ficção do escritor Valêncio.

A viúva do escritor, Luci, de 67 anos, conta — confirmando o relato de Röcker Neto — que Valêncio realizava as suas pesquisas permanentes, deixando o material em cima de uma mesa e, quando sentia necessidade, fazia a montagem da narrativa misturando texto com imagens. “Ele não tinha pretensão e só escrevia aquilo que gostava, do jeito dele”, diz Luci, que morava em Mandaguaçu, no interior do Estado, até os 18 anos, quando casou com Valêncio, que tinha 13 anos a mais do que ela. Em seguida, foram morar em São Paulo e, posteriormente, fixariam residência na capital do Paraná.

Ana Niculitcheff, de 40 anos, filha do Valêncio, acredita que a multiplicidade da obra de seu pai tem relação direta com as muitas atividades que ele exerceu. Foi um dos idealizadores da Cinemateca Guido Viaro, que passaria a se chamar Cinemateca de Curitiba, esteve à frente do Museu da Imagem e do Som do Paraná (MIS-PR), trabalhou em televisão, dirigiu filmes como O pão negro — Um episódio da Colônia Cecília (1993) e, de 1995 a 2003, atuou na Gazeta do Povo, no suplemento Caderno G. “Lembro que o meu pai me levava para diversos ambientes culturais, com as mais variadas pessoas. Galerias de arte, cinema, feiras. A vida e a obra do Valêncio foram múltiplas”, diz Ana — o outro filho do escritor se chama Carlos, tem 47 anos, é bancário e vive em São Paulo.

No fim da década de 1990, autor e obra passaram a ter mais visibilidade. A Ciência do Acidente, extinta editora do escritor Joca Terron, publicou a novela Meu 7.º dia, mas Valêncio passou — de fato — a ser reconhecido, e lido em âmbito nacional, após a Companhia das Letras publicar O mez da grippe & outros livros (1998). Décio Pignatari, Flora Sussekind, Boris Schnaiderman e outros intelectuais endossaram o autor, que ganhou espaço na imprensa paulistana, sobretudo na Folha de S.Paulo. A editora de Luiz Schwarcz ainda publicaria Minha mãe morrendo e O menino mentido (2001) e Rremembranças da menina de rua morta nua (2006) — o último livro organizado pelo autor.

A família garante que não há mais inéditos do autor e que, portanto, daqui para a frente haverá apenas reedições de títulos já publicados — “ele esboçou alguns trabalhos no fim da vida, mas devido à doença (Alzheimer), consideramos que não vale a pena publicar mais nada”, garante a filha Ana. O sobrinho, Sergio Niculitcheff, observa que, “pela enorme riqueza e genialidade”, a obra do seu tio não se esgota facilmente, merece estudo mais profundo e, para ele, o legado de Valêncio ainda não tem o destaque que merece. Para 2014, está prevista uma exposição no Museu Oscar Niemeyer (MON) e outros projetos — que os idealizadores preferem ainda não divulgar — que podem jogar luzes sobre a obra do autor. “Ano que vem será bom para o meu pai. Espero que essas ações despertem o interesse para a obra dele por um público ainda mais amplo”, comenta Ana.

Depoimentos

Antes de qualquer outra coisa, a primeira motivação que tive para cursar jornalismo foi uma ideia um pouco torta de que isso me ajudaria a ser escritor. Imagine a minha empolgação quando ingressei na Gazeta do Povo, no ano 2000: dou de cara com o Valêncio berrando na redação. Ele era “O CARA” daquele ano na literatura brasileira. Acabara de receber o prêmio Jabuti e estava com o ego lá em cima, se isso não for um pleonasmo quando se trata de Valêncio. Eu trabalhava no caderno de Economia, ele no G, um tanto distante, mas perto o suficiente para passar boa parte de minha manhã prestando atenção nas maluquices e brincadeiras dele. Comentários sobre cineastas, escritores e todo tipo de artistas que, para mim eram intocáveis, ganhavam os mais diversos adjetivos e iam ajudando a mudar, de certa forma, minha visão interiorana de ver as coisas. Passaram-se meses e eu não havia trocado uma palavra com ele. Um dia resolvi mudar a situação. Me aproximei e disparei: “Li o seu livro O mez da grippe...” E se seguiram os elogios. O Valêncio gostava de elogios. Quando parei de falar, ele me olhava. Pensei ter acertado na mosca nesse começo de convívio mais “íntimo”. Fiquei na expectativa. E não demorou muito para romper o silêncio: “Eu sou foda mesmo! Sou o melhor escritor do mundo!” Disse e saiu, me deixando sem palavras. Ainda convivemos mais uns três anos antes de ele sair da Gazeta. Tivemos muitas outras conversas bem mais interessantes, mas quando lembro dele, é sempre aquela apresentação impactante que vem à cabeça.


Marcio Reinecken é empresário, jornalista e escritor, autor do livro de contos Você está aqui ou não está em lugar nenhum (2008).

 

Quando o Valêncio criou a Cinemateca, em 1975, eu e meu irmão éramos dois piazões. Íamos lá para ver filmes, mas também para namorar, fazer bagunça. Isso irritava extremamente o Valêncio, que considerava aquele lugar sagrado, um lugar de culto à imagem e de reflexão sobre a vida. Então esse foi nosso primeiro contato, com o Valêncio bravo comigo. Anos depois eu faria um documentário sobre a vida dele, As muitas vidas de Valêncio Xavier.


Beto Carminatti é cineasta. Dirigiu, com Pedro Megere, o longa Misteryos (2008), baseado em O mez da grippe e outros livros, de Valêncio Xavier.

 

Enchi muito o saco do Valêncio pra ele me arrumar uma vaga como estagiário na Cinemateca, quando eu cursava Jornalismo na Universidade Católica e não queria ser jornalista e sim diretor de cinema. E ele me arrumou. Tempos depois, em 1990, eu estava num laboratório no Rio finalizando meu primeiro curta (Vamos junto comer defunto?), na fase pré leis de incentivo, tendo torrado toda a grana que eu havia guardado pra comprar um apartamento e já sem mais nenhum puto no bolso, quando recebo um telefonema do Valêncio. Ele soubera da minha penúria pela boca do Fernando Severo e, dessa vez, sem que eu pedisse nada, do nada, ele se prontificou a me ajudar. E me ajudou conseguindo no Banestado os trocos que faltavam pra eu saldar minhas dívidas com o laboratório e o estúdio de som do Rio. Generosidade pura. Mais que isso, amor incondicional ao cinema e, por tabela, a quem tenta fazer cinema. De minha parte, eterna dívida de gratidão.


Eloi Pires Ferreira é cineasta, autor, entre outros, do longa-metragem O sal da Terra.

 

 

Valêncio Xavier foi meu padrinho de casamento e a sua neta Laila é minha afilhada. Mas tão bom quanto conhecer e conviver com a família dele foi ter tido a sorte e glória de tê-lo feito (re) descobrir Ivo Nalce. Nos tempos em que trabalhamos frente a frente na redação da Gazeta do Povo, ríamos muito com as besteiras ditas por ambos. Logo, convencê-lo a reativar o anagrama de seu prenome para fazer matérias (de preferência entre o absurdo e o impensável) para o “Fun”, caderno jovem que criei para o jornal e editei durante os quatro primeiros anos, não foi nada difícil. Então, o nome de Ivo Nalce passou a assinar textos sobre quadrinhos, música, cinema e comportamento. Acho que o ápice foi a identificação imediata que Valêncio, que nunca foi lá muito chegado em ouvir rock e era quase quarenta anos mais velho que eu, teve com o líder da banda de hardcore eletrônico anarquista Atari Teenage Riot. Eles conversaram feito amigos de infância e Ivo Nalce, então, declarou-se um grande fã do barulhento trio alemão.


Abonico R. Smith é criador do website Mondo Bacana e editor-chefe do programa eCultura (TV eParaná).

 

Quando eu lançava álbum de quadrinhos, quem sempre me entrevistava para a Gazeta do Povo era o Valêncio Xavier. E eu vou dizer uma coisa, talvez possa soar como exagero, mas é a minha opinião: o Valêncio Xavier é o maior escritor brasileiro. De todos os tempos. Gosto de outros, de outras épocas, mas o Valêncio é o autor que me atingiu mais profundamente. Nunca tive coragem de dizer isso para ele, mas agora está dito.


Lourenço Mutarelli é artista gráfico e escritor, autor de O natimorto e Miguel e os demônios.

 

Em 1999, minha editora Ciência do Acidente lançou Meu 7º Dia, de Valêncio Xavier. Não sei com quais recursos, o autor convidou o grande citarista e poeta paulista Alberto Marsicano — falecido em 2013 — para acompanhá-lo em uma leitura na Livrarias Curitiba da Rua XV. O figuraça Marsicano chegou à cidade alguns dias antes da festa, hospedando-se na casa de Valêncio. Pretendiam ensaiar. Como eu tinha outros compromissos, viajei a Curitiba somente na manhã do lançamento. Ao chegar na casa da rua Tomazina, Marsicano delirava entre goles de cachaça, enquanto Valêncio parecia meio nervoso. Seria por causa da leitura que se aproximava? Mais tarde, ao dividirmos uma feijoada no centro, Marsicano prosseguiu seu discurso, desta vez temperado com farofa que perdigotava por todo o boteco. Foi nesse momento que, num rompante, Valêncio me pegou pelo braço e disse: “Joca, esse cara tá me deixando com os cornos da Lua. Já esvaziou toda a minha adega! Por favor, leva ele de volta pra São Paulo.” A leitura, claro, foi inesquecível.


Joca Reiners Terron é escritor, autor dos livros Curva de rio sujo e A tristeza extraordinária do Leopardo das Neves

 

Conheci o Valêncio Xavier pela TV, no final dos anos 1990, quando ainda estava terminando a faculdade. Ele participou de um debate sobre os perigos do fumo e, na posição de tagabista convicto, terminou o programa fazendo uma provocação. Enquanto os créditos finais subiam, enrolou uma folha de papel A4 e fingiu fumar um cigarro gigante, constrangendo o apresentador e os outros convidados. Simpatizei com a figura imediatamente. Meses depois, reencontrei o Valêncio na redação da Gazeta do Povo, onde fui seu colega na editoria de cultura durante alguns anos. Nunca fomos próximos, mas guardo boas lembranças daquele senhor meio imerso num mundo particular, sempre envolvido com livros e filmes “geniais” (palavra que mais usava, inclusive para se definir). Nas reuniões da equipe, sua diversão era desorganizar a pauta e provocar os colegas — especialmente os que não entendiam sua ironia. Nosso último encontro foi em 2004, durante um evento promovido pelo caderno de educação do jornal, que eu editava na época. Ele já não trabalhava na redação, mas foi convidado a comentar a obra de Dalton Trevisan para um grupo de vestibulandos. Como era de se esperar, ele só falou sobre o que quis. Seu foco, no caso, foi o esquema de prostituição no Passeio Público de Curitiba, dissecado diante de uma plateia, horrorizada, de alunas do Colégio Militar. Esse é o Valêncio que ficou na minha memória: um provocador nato, quase moleque e, sim, genial.


Omar Godoy é jornalista.