ENSAIO | "Manter o mundo seguro para a Poesia": arquivo em Anne Waldman 28/01/2026 - 17:31

Por Luna Madsen

 

Anne Waldman é uma poeta estadunidense cujo compromisso vai muito além de escrever poemas. Ela dedica sua vida à criação e preservação de comunidades poéticas, movida pelo voto de que "passaria a minha vida a desenvolver e a preservar a poesia e os seus poetas". Seu trabalho ativista e performático fundamenta-se numa crença simples, mas radical: a criação e a sustentação do exercício poético como essen­cial para garantir a continuidade da própria existência da poesia.

Essa prática, que se desenha no corpo e na escrita, ressoa com os conceitos de arquivo e repertório da te­órica mexicana Diana Taylor e se enquadra no paradigma contemporâneo do arquivo mapeado pela estu­diosa brasileira Diana Klinger. Waldman não apenas preserva, ela cria as condições para que a poesia continue viva.

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Exemplar de 1960 de The New American Poetry pela Grove Press
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Descendente direta da efervescência cultural dos Estados Unidos dos anos 1960, nasceu em 1944 em New Jersey. No início da vida adulta, foi marcada pela leitura da antologia The New American Poetry, de Donald Allen (1960), que reunia vozes insurgentes em total rejeição ao verso acadêmico. Em 1965, na Berkeley Conference Poetry, na Califórnia, Waldman teve a oportunidade de presenciar esses poetas ao vivo. A cena era eletrizante: o poeta Charles Olson mais se "enfureceu e chorou" do que leu, enquanto os braços do poeta Robert Duncan "balançavam e dançavam no ar" co­mo se gesticulassem no éter.

Era uma poética do corpo, um marco fundamental para que Waldman avançasse além de seus poemas iniciais, mais melancólicos e atrelados às regras formais da métrica e da prosódia. Ela se atentou à performance dos próprios textos. Consciente e conectada com as novas preocupações de sua época, passou a escrever com fluxos mais livres, atenta à sonoridade "quase encantatória" dos próprios versos.

Advinda do espírito da época, a performance (do francês parfornir) tem como uma possível definição (pois a regra da performance é não ter regras, segundo Diana Taylor)  "encenar um ritual ou habilidade na frente de um público". Para Waldman, a voz pode "trans­mitir, infletir, evocar vários estados psicológicos e emocio­nais", e as palavras carregam "pulsos de energia muito particulares". Dar vida aos poemas, fazendo-os "cantarem ou se enfurecerem" em seu corpo, torna-se um evento ritualizado no tempo, que funciona melhor "em um contexto de grupo".

Acontece que, embora fizesse parte desses espaços, Waldman foi mais reconhecida pela associação com esses escritores do que necessariamente por seu próprio trabalho (por exemplo, foi amiga de longa data de Allen Ginsberg, associando-se assim à geração beat). A autora praticamente não é traduzida no Brasil, a não ser por alguns poemas esparsos, uma lacuna tradutória que tento remediar tanto em minha dissertação, traduzindo seu livro-performance Fast Speaking Woman de 1974, quanto na produção de ensaios que celebrem e estudem sua trajetória.

Waldman teve a sorte de ser criada por pais progressistas, com uma mãe que incentivava sua dedicação mais à arte do que aos filhos. Isso a impulsionou para uma carreira fortemente feminista e ambientalista no coração de Nova York, em um período marcado por ameaças nucleares da Guerra Fria e pela desolação deixada pela Segunda Guerra Mundial.

 

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Primeira edição de Fast Speaking Woman, publicado pela City Lights Books, 1975

 

Seja como escritora, professora, editora ou performer, Waldman tem um percurso obstinado. Suas contribuições são notáveis: a cofundação da revista Angel Hair (1966-1978), que fomentou a circulação de poéticas marginais; a fundação e direção de The Poetry Project (1966), uma comunidade sediada na Igreja de Saint Mark em Nova York, cujo cerne são as leituras ao vivo; e, em 1974, a cofundação da Jack Kerouac School of Disembodied Poetics, na Universidade de Naropa, ao lado de Ginsberg. O pedido do monge budista Chogyam Trungpa, financiador do programa, era que ele durasse pelo menos cem anos, em uma era de contínua atrocidade ecológica e política (atualmente, tem 51 anos). Dessa necessidade de permanência surge a sua prática arquivística.

Waldman dedicou-se à transcrição de vídeos e gravações, à coleta e organização de extensos materiais literários de The Poetry Project e da Universidade de Na­ropa. Curou antologias sobre os beats, como The Beat Book: writings from the beat generation (2007), além de disponibilizar seu próprio acervo online, o Anne Waldman Papers. O propósito dessa tarefa exaustiva é preservar o legado da liberdade experimental. O trabalho de arquivo, ela reflete, é para "mostrar a alguns seres inteligentes do futuro que alguns de nós não estavam apenas matando uns aos outros". É uma missão, um "senso de propósito de manter o mundo mais seguro para a poesia".

É por isso que sua prática dialoga com as noções de arquivo e repertório oferecidas pela teórica mexicana Diana Taylor. Para Taylor, performance é uma forma corporal de transmissão de conhecimento, uma epistemologia que valoriza a memória social e contesta o papel legitimador que a cultura ocidental reservou à es­crita. Taylor não descarta o arquivo (tudo que sobre­vive ao efêmero: textos, registros, gravações), mas a­fir­ma que é preciso relativizar sua autoridade perante o repertório, a memória social transmitida através de práticas sociais, onde o corpo é um arquivo vivo.
A performance é inapreensível pelo arquivo, um vídeo não é a performance, por exemplo, mas ela perpetua saberes culturais e históricos através da memória incorporada. Arquivo e repertório não são, assim, antagonistas, mas complementares.

Se, por um lado, Waldman cuida das gravações e documentos, por outro, ela compartilha conhecimento na tradição corporificada da performance poética. Essa postura dissolve o binarismo, como ela mesma pontua: "queremos pensar além da dicotomia arquivo/repertório — além de todas as dicotomias, na verdade — para experimentar misturas, montagens e combinações de obras de arte e intervenção política". Para ela, a performance é parte intrínseca do trabalho poético desde a antiguidade, mas em nosso contexto existe tanto na página quanto fora dela.

Essa força dinâmica entre permanência e desaparecimento, ordem e desordem, é a marca do paradigma contemporâneo do arquivo. Como aponta a profes­sora Diana Klinger, o arquivo moderno era a voz totali­zante do discurso oficial, um valor de "verdade" opres­sora, priorizando o valor do documento. O arquivo con­temporâneo, ao contrário, se realiza no vestígio, no fragmento: é um vazio que marca uma presença irrecuperável, relativizando a "verdade" em um ato de resistência e abrindo espaço para narrativas plurais.

 

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Anne Waldman

 

A tentativa de Waldman é justamente fazer sobreviver as vozes de poetas que eram marginalizados na década de 1960. Ela chega a usar o termo outrider como símbolo dos seus esforços poéticos: a figura de um cavaleiro que corre por fora do território, dos limites do discurso poético oficial, aquele geralmente sancionado pela academia e pela crítica literária. "Não estávamos interessados em ser poetas 'acadêmicos'", ela diz, mas em "honrar a poesia em si", focando na prática, e não apenas na conservação do cânone.

Nesse sentido, o arquivo em Waldman é anticanônico. As centenas de horas de gravação de leituras ao vivo em The Poetry Project, incluindo tanto iniciantes quanto nomes célebres como Patti Smith e Yoko Ono, mostram que até o "trivial" é digno de arquivamento, fomentando uma comunidade aberta e colaborativa.

O arquivo, em seu aspecto contemporâneo, não é uma relíquia morta, mas devolve aos restos uma sobrevida, "ainda que espectral". Não se trata de relatar uma experiência, mas de nos fazer ver o seu desaparecimento. Em suma, o arquivo se torna performativo, uma vez que não é uma organização passiva ou uma verdade absoluta, mas se altera e se reconstrói conforme as circunstâncias de contato. Waldman age como uma curadora, uma leitora nômade ou uma "arconte expandida", guardiã de práticas que precisam do corpo e da escrita para perdurar.

A partir de Jacques Derrida, Klinger opõe ao "mal de arquivo" (a obsessão em preservar o que não pode ser preservado) a "paixão de arquivo": um arder de paixão, uma ânsia de buscar algo no acervo, um desejo irreprimível. Em Waldman, essa paixão se manifesta não como apego excessivo ao passado, mas como um compromisso ético de preservação de um legado vivo que consiga responder aos desafios futuros.

A poeta-performer cria zonas de fricção entre arquivo e performance, entre escrita e oralidade, dedicando a vida às possibilidades da poesia experimental. É um ato arquivístico enquanto promessa, no constante jogo de construção-destruição do arquivo. Com certa ironia nisso: se o mundo conseguir se tornar seguro para todos os seres vivos, se tornará também para os poetas.

 

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Luna Madsen Barbosa de Matos é mestranda em Estudos Literários pela UFPR, especialista em Tradução pela PUCPR e bacharel em Teatro pela mesma instituição, como prounista. Escritora, artista e pesquisadora, investiga as interseções entre arte da performance, poesia e autotradução. Desde 2022, integra o coletivo literário Membrana e desde 2025, o coletivo de tradução Kahani.

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