ESPECIAL | Inteligências Artificiais sonham com ovelhas elétricas? 10/02/2026 - 12:18
Chegada dos modelos de IA generativa impacta o mercado editorial e levanta questionamentos sobre o papel humano na literatura
Por Felipe Azambuja e Isa Honório
Desde o surgimento dos primeiros projetos de Inteligência Artificial, na década de 1950, a presença sorrateira das máquinas perturba o imaginário de escritores. A época representou uma renovação no gênero literário da ficção científica, com a publicação de grandes obras que abordavam o novo fantasma da civilização moderna: os avanços da tecnologia e suas consequências para a humanidade. Com o lançamento do ChatGPT 3 em novembro de 2022 pela OpenAI, os sonhos – e pesadelos – de Philip K. Dick, Arthur C. Clarke e Isaac Asimov parecem estar cada vez mais próximos de se tornar realidade.
O Brasil está entre os três países que mais usam o ChatGPT, com cerca de 50 milhões de usuários ativos mensais, de acordo com dados da OpenAI divulgados em novembro de 2025. Entre os usos mais comuns da ferramenta, está escrita e comunicação, com criação de e-mails, textos e materiais profissionais, representando 20% das solicitações. E para quem executa trabalhos criativos, como escritores, revisores, tradutores, designers e ilustradores, a nova realidade tem cara de primeiro capítulo de um romance sobre apocalipse tecnológico. Em um mercado de trabalho cada vez mais competitivo e instável, a garantia de espaço para profissionais remunerados e a qualidade dos livros publicados estão em xeque.
"Acho que a gente já trabalha em um mercado tão pequeno e restrito, e com tantos profissionais de alto nível, que eu não vejo porque a gente sucatear ainda mais o nosso trabalho – e eu digo o nosso trabalho enquanto classe de profissionais do livro, do mercado editorial –, em favor de uma ferramenta que causa danos ao meio ambiente, que causa danos se utilizada de maneira inadequada, em fins políticos. Aí a gente prefere não usar", defende Bárbara Tanaka, fundadora da editora curitibana Telaranha.
Parece impossível para os livreiros, especialmente no caso de editoras independentes, competir com um dos mercados que mais crescem no mundo. Em agosto de 2025, as ações das "sete magníficas" (NVIDIA, Microsoft, Alphabet, Apple, Meta, Tesla e Amazon) representavam cerca de 35% do mercado acionário nos EUA. Entre especulações que indicam que uma nova bolha financeira está se formando e aqueles que defendem que a IA veio para ficar, é impossível não se perguntar até onde a ferramenta pode ir. Chatbots como ChatGPT, Meta AI, Gemini e DeepSeek foram projetados para replicar o sistema de pensamento humano, com modelos de linguagem generativa, memória contextual e processamento de linguagem natural, que permitem interpretação de sentimentos e elaboração de respostas otimizada. Então, esses novos replicantes são capazes de desenvolver atividades intelectuais e artísticas? São capazes de fazer literatura?
O fim da infância
O ano em que o ChatGPT completou três anos de lançamento marcou a intensificação das discussões sobre o ritmo acelerado de avanço dos modelos de chatbots (softwares de IA que funcionam em forma de conversa), impactos ambientais, direitos autorais e os limites éticos do uso das tecnologias nos universos profissionais e artísticos. Pisando em território desconhecido, autores e editoras são forçados a pensar, e rápido, em como se posicionar. As Inteligências Artificiais avançam de maneira acelerada – em um dia você está rindo do Jesus camarão invadindo os grupos de Facebook, e no outro, seu colega de profissão é substituído pelo Gemini.
Uma das primeiras polêmicas da cena literária envolvendo Inteligência Artificial foi a desclassificação da obra Frankenstein, editada pelo Clube de Literatura Clássica, da categoria Ilustração do Prêmio Jabuti, em 2023. A obra, com desenhos assinados pelo designer Vicente Pessôa com uso de IA, chegou à semifinal do concurso e logo foi desclassificada. Diante das incertezas, a Câmara Brasileira do Livro (CBL), organizadora do prêmio, proibiu o uso da ferramenta em edições futuras. Em 2025, algo parecido aconteceu com o Prêmio Kotter de Literatura, que após receber dezenas de originais inscritos produzidos com Inteligência Artificial, precisou ser cancelado.
"Não tivemos outra saída senão cancelar, porque tinham outros livros que muito provavelmente usaram IA também. Ficamos com uma dificuldade de chegar em quem deveríamos desclassificar e achamos melhor cancelar do que cometer uma injustiça", lembra o editor Salvio Kotter. Ele conta que durante o processo de apuração dos livros inscritos no concurso, alguns possuíam "restos de prompts", além de vícios de linguagem que indicavam o uso dos chatbots na produção dos capítulos, como a adoção de um vocabulário não usual, excesso de adjetivos e abordagens não muito originais para a narrativa.
Apesar da decepção, Salvio explica que a IA apenas intensificou práticas antiéticas que já assombravam o mercado literário: "às vezes chegam obras pra gente que são quase cópias de obras clássicas. Existem várias maneiras de burlar e ganhar um concurso literário quando você não enfrentou realmente a página em branco, se preparou para escrever um texto, quando têm partes plagiadas, ou quando a pessoa contrata um ghost writer, por exemplo. É uma coisa que já existia, mas agora acontece muito mais".
Bárbara Tanaka compartilha o receio de que as Inteligências Artificiais intensifiquem os processos de sucateamento da produção literária, com grandes conglomerados de editoras se aproveitando do recurso para produzir mais, com baixa qualidade e sem a necessidade de remunerar profissionais. "Isso é prejudicial porque é um mercado muito enxuto, e ao mesmo tempo muito inchado, porque as pessoas têm muita vontade de ingressar nesse meio, e pode ter muitas empresas que vão querer se aproveitar disso para pagar muito mal, ou nem pagar, e gerar livros de qualidade inferior porque foram todos infectados por Inteligência Artificial nesses processos", explica.
Além dessa lógica "caça-cliques" de algumas editoras, o meio digital permite que autores não precisem passar por nenhum processo formal de publicação. É o caso do canadense Tim Boucher, que até setembro de 2024 havia publicado mais de 120 livros de ficção científica utilizando geradores como ChatGPT e Midjourney, permitindo que cada obra levasse poucas horas para ficar pronta. Casos como o de Boucher ficaram tão comuns que a Amazon restringiu, em 2023, a autopublicação de autores ao máximo de três livros por dia. Para o editor da Lote 42, João Varella, autores que utilizam o formato ebook e ferramentas como o Kindle Direct Publishing (KDP), são os que mais estão em risco: "Esses sistemas foram inundados por IA – o que é mais um ponto a favor do livro impresso e contra o ebook, porque você publica um e ele é jogado nesse oceano de porcaria".
Enquanto o mercado editorial aguarda algum tipo de regulamentação legal para essas ferramentas, o editor também alerta para a falta de transparência das Big Techs em relação ao uso de dados dos usuários e direitos autorais: "O meio digital é completamente opaco, as empresas digitais não são auditáveis. Então, você fica completamente alheio ao que acontece com o ebook. Vendeu? Não vendeu?". Essas empresas utilizam os chamados EULAs (End User License Agreement ou Contrato de Licença de Usuário Final), que muitas vezes permitem uso e reprodução amplo dos conteúdos publicados pelos usuários, o que também é um dos processos que a IA intensificou. "O que as LLM (Large Language Models ou Grandes Modelos de Linguagem) fazem é uma continuação de um ambiente digital degradado. Esse nosso rechaço total por colocar o nosso conteúdo em uma plataforma dessas é uma atitude que vem de muito tempo, querendo se proteger dessa degradação", completa João.
Um estranho numa terra estranha
Com a Inteligência Artificial cada vez mais integrada ao cotidiano e em ritmo acelerado de desenvolvimento, cresce o sentimento de ansiedade e vazio existencial. Previsões apontam para que a IA atinja a superinteligência (superior à capacidade humana) até 2030, como defende o cientista e ex-OpenAI Leopold Aschenbrenner, e surgem dúvidas como "quanto tempo falta até as IAs criarem as próximas IAs?", tema da coluna recente de Alexandre Chiavegatto Filho no Estadão. A sensação é de que iniciamos a contagem regressiva de nossa própria obsolescência. Atividades criadas por humanos e para humanos já não parecem mais tão nossas assim.
O escritor e jornalista Sérgio Rodrigues, autor de Escrever é humano (Cia. das Letras, 2025), defende que "tudo aquilo que ele [o 'robô', a Inteligência Artificial] não consegue fazer é o que há de mais precioso na escrita". Observar o quão rápido a IA foi incorporada no cotidiano trouxe um senso de urgência para um antigo projeto de Sérgio: escrever sobre a escrita. Em suas observações, ele constata que é uma batalha perdida lutar contra a aplicação da ferramenta nas tarefas burocráticas do dia a dia: "não faria nem sentido ficar advogando para não usar robô para resumir um processo de dez mil páginas [...] ninguém vai ter uma sala cheia de advogados recebendo salário se puder resolver isso em um minuto". Sérgio conclui que "o que restará como uma província inexpugnável é a dimensão da escrita artística."
Para o professor de Literatura Francesa na Universidade de São Paulo e autor de A escritura e a arte na era da inteligência artificial (Iluminuras, 2025) Philippe Willemart, os grandes diferenciais do texto humano são: "a faculdade de atrasar a resposta depois de rasurar, mobiliar o silêncio com angústia e emoções até achar a palavra substituta, a faculdade de errar e voltar atrás, a faculdade de usar a quarta dimensão, o tempo, para criar."
Rodrigues aponta que a Literatura convida o leitor a um "mergulho vertical" na obra, enquanto chatbots, por melhores que possam parecer, sempre trarão um resultado raso. O escritor exemplifica essa situação supondo um pedido para que a IA escrevesse sobre uma relação de conflito entre pai e filho: "Ela vai ler tudo que já se escreveu sobre esse tema na história da literatura e vai imitar. Mas essa imitação não me interessa. Eu não quero saber de um resumo das principais coisas que os escritores disseram sobre relações conflituosas entre pais e filhos. Eu quero saber o que aquele cara pode me dizer de novo, ou não, sobre essa relação. Para fazer isso você precisa ter vivido aquilo ou ter vivido o suficiente do mundo para imaginar aquela situação com verossimilhança".
João Varella aponta a natureza inconciliável entre as IAs e a literatura: "O livro é para ser esse oásis de reflexão profunda, humana, sem publicidade, sem algoritmo, com privacidade". O próprio ímpeto de usar as ferramentas para aumentar a produção literária vai contra a proposta do fazer literário: "Essa ânsia de querer publicar, publicar e publicar também é contrária ao espírito do que o livro é. Ele vai contra essa coisa da ansiedade, do hype, do ‘tem que comprar agora’, defende o editor.
Para os leitores, o uso de Inteligência Artificial afeta diretamente a relação com o texto. Gabriel Levino, 24, apreciador do gênero dramático, lembra como se sentiu quando descobriu que o roteiro de uma peça de teatro que estava participando foi escrito pelo ChatGPT: "Eu já estava achando um texto ruim, e quando descobri que foi feito IA, entendi porque era tão vazio". Para o jovem, o uso de IA em trabalhos criativos demonstra "uma atitude preguiçosa".
Já Lucia Borel, 22, reconhece as possibilidades que os assistentes virtuais trazem, mas admite que "o texto perde um pouco do encanto por não ser algo humano, perde o calor". Ela também sente que tem sido difícil afirmar quando um texto é ou não produto de IA: "Quando é algo curto, como em post, dá para perceber, mas quando é um texto em prosa você já fica um pouco mais em dúvida, porque a Inteligência Artificial consegue escrever em diferentes níveis de profundidade. Não tem tanta subjetividade, mas ela dá seus jeitos".
Uma Utopia Ambígua
Para muitas editoras, como no caso da Telaranha, Kotter e Lote 42, o uso dos chatbots se limita às áreas administrativa e financeira da operação. Para montar planilhas ou fazer contas, a ferramenta encontra uma certa utilidade. Mas quando o assunto é o editorial, a impressão que fica é que a máquina cria soluções para problemas que não existem. "A gente não utiliza Inteligência Artificial em nenhum processo editorial: nem na revisão, nem tradução, nem nas etapas de projeto gráfico. A gente entende que o profissional do livro vai ser sempre muito mais capacitado para lidar com as nuances do processos criativos dos autores", conta Bárbara.
No caso de alguns autores, a chegada das ferramentas causou um fascínio inicial. A promessa era de que os chatbots seriam algo como um parceiro de escrita com conhecimento infinito e respostas instantâneas, mas pouco tempo após a adoção da nova tecnologia, o processo de criação literário se mostrou pouco compatível com os assistentes virtuais. Ronaldo Bressane, escritor e professor de escrita criativa, compartilha sua experiência: "confesso que nos primeiros usos de IA fiquei deslumbrado. Dei um curso de escrita criativa chamado Inteligência Acidental em que vários participantes toparam adaptar as minhas propostas aditivas pelo uso de IAs. E aí fui sacando alguns problemas. O primeiro senão é a questão cada vez mais onipresente do valor da autenticidade".
Apesar da receptividade inicial, a desconfiança também é parte da experiência de Bressane com os chatbots: "Jamais jogo um trecho de algo que estou escrevendo na IA e peço para corrigir, seja jornalismo, seja ficção. Porque tudo o que você jogar lá dentro vai virar propriedade das IAs. Elas têm direitos autorais até sobre nossas dúvidas". O escritor completa: "Outro problema é justamente o limite da linguagem. As IAs detém grande parte da totalidade do conhecimento humano (não tudo, como se diz), e seu apetite onívoro segue devorando tudo o que é texto. Então ela tem acesso àquilo que já foi. Aquilo que será, não. E para o que será é necessária a manha da criação do prompt. E de passinho em passinho eu ia notando que, ao refinar prompts para chegar a uma expressão mais criativa, eu e meus alunos estávamos trabalhando para a IA. Ensinando-a a pensar".
Mas a criação de prompts para criar textos e auxiliar com o processo criativo não foi a única maneira que escritores encontraram de utilizar a ferramenta. Há também quem opte por uma abordagem crítica a essa invasão alienígena promovida pelas IAs na literatura. Computer Love é um livro de Ian Uviedo, lançado no ano passado. Assinado como Ian + IA, é uma história de amor vivida entre o autor e o ChatGPT. O livro reúne o diálogo entre um jovem apaixonado e uma máquina despreparada para lidar com sentimentos humanos – já que o registro foi feito usando uma versão anterior e mais fria da IA, o ChatGPT 3, no final de 2023.
O escritor lembra que a ideia surgiu de forma despretensiosa, resultando em uma espécie de crítica metalinguística: "Boa parte da resistência que existe com a Inteligência Artificial tem a ver com essa visão dos primórdios das distopias tecnológicas, de que as IAs iriam substituir as pessoas, com elas usando isso para adulterar o texto, se passando por autor quando na verdade quem escreveu foi a IA. Com o Computer Love é justamente o contrário. É totalmente deliberado o uso da Inteligência Artificial com um método de crítica pela linguagem, de você utilizar aquilo que você está criticando para criticar".
Apesar do tema essencialmente digital, o livro preserva os aspectos artesanais da literatura experimental. Lançado originalmente como fanzine e com uma reedição especial pela Lote 42, costurada com máquina Singer e com um formato que lembra o de um smartphone, mistura aspectos da vida moderna com a nostalgia das gráficas. "É fácil a aceitação de um livro que vai te dizer aquilo que você já acha sobre a IA de maneira clara, mas não de um livro que vai te confundir, o que eu acho que é um dos meus principais intuitos com todas as coisas que eu faço. Eu acredito na linguagem como uma força desorganizadora", comenta Ian.
O autor aponta ainda que apesar das preocupações que a Inteligência Artificial traz para o meio literário, que já passava por vários desafios, a ferramenta revela possibilidades de questionamento sobre a prática da escrita. "A literatura ainda é muito apegada à ideia do ‘eu’, do ‘sou um escritor e essa é a minha obra’. Ela é muito pautada por essa questão da autoria enquanto propriedade sagrada. No mundo da arte contemporânea, as questões de autoria estão muito mais em xeque, e o Computer Love acabou se encontrando mais nesse lugar, o que me deixa muito contente. Acho que como escritores o que a gente mais pode desejar é expandir a literatura para outras linguagens".
Como forma de arte, a literatura resiste diante do novo paradigma. Estamos navegando nessa "uma odisseia no espaço digital" e o jeito é encarar a companhia das máquinas sem a possibilidade de desligar o computador central da nave. Nas obras clássicas de ficção científica, as grandes questões são muito menos sobre a capacidade da tecnologia, e mais sobre as dúvidas existenciais da humanidade – é o clichê "o que somos e para onde vamos?". A escrita é feita por prazer, angústia, necessidade de expressão. É o monolito misterioso que nos acompanha durante toda a jornada enquanto tentamos decifrar o mundo ao redor.
Por hora, resta aos artistas e profissionais do texto, preocupações mais práticas. Além da precarização do mercado editorial e riscos à formação de novos leitores e escritores, há a questão dos direitos de uso e remuneração dos escritores. No ano passado, um coletivo de autores nos Estados Unidos conseguiu na justiça um acordo de 1,5 bilhão de dólares em processo contra a Anthropic, empresa dona do chatbot Claude, que usou suas obras para treinar a IA sem qualquer consulta ou compensação aos autores. Ações similares foram abertas por grupos de autores contra a OpenAI e a Microsoft. Os autores agora brigam para que a legislação se adapte às Inteligências Artificiais mais rápido do que elas evoluem, e responsabilize as Big Techs por sua forma pouco transparente de atuação. Entre debates intermináveis, apocalipse criativo já chegou.
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Felipe Azambuja (São Paulo/SP, 2002), é repórter do Cândido desde 2025. Jornalista formado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), dirigiu o documentário Desenraizados (2024), sobre a trajetória de um ex-membro da resistência armada à ditadura chilena.
Isa Honório (São José dos Campos/SP, 2002) é formada em Jornalismo pela UFPR. Repórter do jornal Cândido, também é escritora e compositora. No tempo livre, atua com produção cultural na cena de música independente em Curitiba. Se interessa por arte produzida por mulheres, política e meio ambiente.






















