POESIA | solamento 28/01/2026 - 12:53

Por Julia Mateus

 

eu sempre tive um infinito amor pelas causas perdidas e te afirmo que isso só fica bonito nas músicas e nos poemas clichês.

mas aqui, na vida real, isso dói

e naquele show daquela banda eu percebi que você foi mais uma das batalhas que eu nunca nem tive chances de ganhar

você disse que gostava de planetas e eu fiz de tudo pra entrar no teu sistema solar eu fui Marte quando você disse que queria casar lá, fui Plutão quando não tive sua atenção e fui Terra quando você precisou de chão.

e quando a cantora gritou no meio do show que

nada disso vai fazer você me olhar e

nada disso vai fazer você se apaixonar,

eu entendi.

você me disse que sua história preferida era Icarus and the Sun

e eu devia ter percebido que nesse nosso sistema solar você era o Sol e, assim como Ícaro, eu ignorei todos os avisos de segurança porque o seu brilho não é algo que alguém como eu consegue evitar

e então eu cheguei perto o suficiente pra deixar você me ver queimar. mas, antes das chamas, eu posso jurar que vi tristeza nos seus adoráveis olhos castanhos quando, em um coro uníssono, a plateia gritou o refrão

não acho justo a vida me ensinar de um jeito tão cruel, como se fosse só assim pra entender que você não é pra mim.

e você me olhou como se quisesse que eu fosse capaz de vencer essa batalha, porque ninguém nunca foi e é solitário ser o Sol.

e eu te olhei com olhos de quem sente sua dor

dói em você conhecer e atingir cada pedacinho do universo com seu brilho e não conseguir se deixar ser atingida.

doeu em nós duas saber que o mesmo brilho que me atraiu me queimaria no fim e me doeu saber que, se pudesse, você queimaria por mim.

mas sabemos que isso nunca vai ser possível porque, meu bem,

você não quer deixar de ser o Sol

e, por mais brilhante que eu seja,

eu não quero começar a ser um.

os cosmos não teriam estruturas pra esse universo em que uma de nós não se queima nesse universo sou eu,

em um outro seria você

em um terceiro

a história seria Sun and the Sun

e sabemos que esse nome não é tão bonito pra um poema.

pro equilíbrio ser mantido

a história precisa que nós sejamos inimigos

precisa ser nós contra nós

porque a outra opção

é nós contra o mundo

e o mundo não está preparado pra adversárias tão brilhantes.

o que nos restou foi esse caos particular

onde, por amor às causas perdidas,

eu fiquei pra me queimar

e, por amor às coisas que brilham,

você pediu pra eu me afastar.

a gente se olhou e entendeu,

em qualquer uma das opções,

aquele show seria nosso adeus

e, em uma coincidência milimetricamente calculada por aqueles que precisam manter a ordem do planeta,

a cantora encerrou o show com o recado que o universo queria nos dizer que agora é aceitar e me silenciar

e entender

que eu não sou pra você.

 

 


Julia Mateus (1997) nasceu em Limeira (SP). É formada em Terapia Ocupacional pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Articula seus estudos sobre as ocupações humanas e as vivências cotidianas à escrita poética, entendida como forma de cartografar afetos, silêncios e deslocamentos. Publicou Cartografia do Não-lugar (2025) pela Andrômeda Editora, seu segundo trabalho autoral, que marca sua consolidação como poeta. 
 

GALERIA DE IMAGENS