CRÔNICAS VERTIGENS | O suco da Laranja Mecânica é Água Viva 05/02/2026 - 15:36
Por Fausto Fawcett
Não adianta. Têm dias, muitos dias, quase todos os dias em que eu me sinto espremendo uma Laranja Mecânica. Sim, têm dias, muitos, todos os dias praticamente sou abduzido por essa expressão-imagem-ícone pop que abre três pistas de pensamento/sentimento que são míticas leis cravadas nas mentes contemporâneas: primeira lei da Laranja Mecânica advinda da gíria inglesa que quer dizer "tão bizarro e estranho quanto uma laranja mecânica" – humanos encarados como vetores obscenos de forças estranhas, grotescas, ridículas, mas suculentas. Segunda lei da Laranja Mecânica advinda do livro de Anthony Burgess de mesmo nome e que ganhou versão cinematográfica de Stanley Kubrick – a delinquência de todas as faixas etárias e profissões e cargos militares e políticos e tecnológicos, a delinquência e a violência turbinadas por estéticas potentes, miragens motivacionais presentes no entretenimento musical, no entretenimento religioso, no entretenimento financeiro, no entretenimento sexual, no entretenimento digital que engloba tudo na sua fúria estatística apelidada de inteligência artificial, no entretenimento de aplicativo encontro social, no entretenimento político, no entretenimento religioso, no entretenimento de engajamentos gerais em qualquer coisa contanto que detone um sentimento de seita, de perigo iminente, de conquista agressiva, de imperialismo sensacionalista dos egos à deriva por aí. Tudo isso sublinhado por gírias de linguagens específicas. Terceira lei da Laranja Mecânica advinda do sensacional estilo veloz de ocupação total do campo apresentado pela seleção de futebol holandesa de 1974 comandada por Johan Cruyff e pelo técnico Rinus Michels. A seleção holandesa veste a camisa laranja que é a cor da casa real Orange e em homenagem ao livro de Burgess ganhou o apelido de Laranja Mecânica pois parecia uma surpreendente máquina de jogar futebol. Terceira lei – a velocidade de toda informação, de todo social, de toda a política, de toda cibernética, de todo erotismo de consumo e de sintomas, erotismo de todos os diagnósticos comportamentais pilar do sensacionalismo existencialista no qual chafurdamos, velocidade histérica de todas as inovações e desequilíbrios, a velocidade de todas as curas desconcertantes (viva a cientista Tatiana Sampaio e sua equipe que estão conseguindo fazer tetraplégicos, paraplégicos andarem, recuperarem alguma autonomia, com uma substância fabricada na placenta, a laminina) e curras de crueldade impressionante (neste exato momento alguma mulher, alguma criança, algum homem, algum animal, algum refugiado, alguma desesperada, algum bebê, alguma praia, algum edifício, alguma favela, algum cérebro ou genitália está sendo esculachado, dolosamente encurralado, deletado, anestesiado por dor geral, destruição, perda total), a velocidade de todos os paradoxos, contradições, ambiguidades, ubiquidades e constantes revelações, desmentidos, descobertas, releituras, rearranjos das várias histórias dos países, da geologia, da antropologia, da técnica, dos assuntos políticos, da ciência, das artes, dos humanismos, do oriente, do ocidente, dos cinco continentes em todas as épocas, constantes desmentidos e revelações provocando o quê? Crônicas vertigens que sacodem todos nesse mundo à beira de algum alerta.
Não tem jeito quase todos os dias me sinto espremendo a Laranja Mecânica pra tirar o suco ácido desses tempos simplesmente porque sou viciado, adicto do slogan tudo ao mesmo tempo agora junto e misturado em todos os lugares inflamando todo o primitivo acelerado pela atualidade, acendendo a chama da inquietação mesmo numa atividade corriqueira tipo comprar um sabonete. Sentir tudo ocupando todos os espaços. Sempre que essa estranheza ganha contornos gigantescos na minha cabeça, na minha mente, no meu coração, fígado, intestino e sistema nervoso, circulatório eu não tento escapar pois o tesão por isso é imenso. O que eu faço é pegar certos livros, colocar réquiens alucinantes e batucadas violentas, réquiens violentos e batuques, macumbas alucinantes e me jogar nas páginas como se fossem grimoriums vibrantes evocando, invocando, chamando tudo que existe e que não existe mas vai acontecer ou já aconteceu e vive sorrateiro em todos os corpos e mentes e um desses livros é Água Viva de Clarice Lispector. 2026 começou a todo vapor na ferocidade, na ternura adiada, na pancadaria política, na crônica policial, nas fofocas científicas, nos delírios sociais e todos parecem estar espremendo a Laranja Mecânica para extrair o suco das suas leis inexoráveis. Nesse momento um grimorium é necessário e Água Viva é a boa. Porque a escrita de Clarice vai sempre te levar, te conduzir, te aproximar do Coração Selvagem dos primórdios caóticos da galáxia, do planeta, do corpo, do balbucio surgido da formação do sistema nervoso da fala, do cio da linguagem com a imaginação que faz da realidade refém da tempestade simbólica que nunca mais parou de cair do céu das nossas bocas despencando do curto circuito violento das nossas mentes. Agitação fantasmática, Fúria Mítica alimentada, criada pelo cérebro (repleto de divindade?), víscera que, junto com o coração e o fígado, formam a santa trindade das vísceras existencialistas. Tempestade simbólica caindo sobre tudo. Exterior e interiormente. Relâmpagos de palavras e imagens de palavras gerando imagens gerando palavras que geram religiões de sentimentos que são viagens/vertigens verbais flertando ao mesmo tempo com o visível e o invisível, o mais ou menos dito e o indizível. Escrita como tentativa de recuperar num átimo de conjuração verbal o Infinito, o Absoluto, o Eterno de onde fomos exilados por ela mesma, a linguagem (a Queda sempre ela, Babel sempre ela). Essa é a intenção da escrita de Clarice escancarada em Água Viva. Fazer do Verbo Carne trêmula, frívola, cheia de nervos, curtida, seca, mastigada por vivências que nem sabemos. Clarice escreve exercendo poder de Alquimia, solvência sobre as palavras fazendo com que a água, protagonista orgânica do nosso corpo, portanto veículo mor do Espírito, se transforme numa Criatura Flutuante dentro de nossa carcaça milenar propiciando contatos com elos perdidos, memórias da melanina, lembranças bacterianas, globulânsias que não passam, vibrações sensoriais que só podem ter a ver com os tais Eterno, Absoluto, Infinito que ela chama de IT e que também se manifestam no Halo que envolve tudo que existe. A aura obscena, o efeito kirliê, boreal rasante sobrevoando o maior órgão do corpo. Para algumas tribos quando a pele se arrepia é a lembrança do choque de algum corpo celeste que bateu no planeta e contribuiu para nossa formação molecular, biológica. Esse choque nos visita quando Medos, Alegrias e Graças Indomáveis, acentua Clarice, nos ganham no meio da noite, no meio do dia, no final das tardes fazendo com que a Água Viva, Criatura Flutuante dentro de nós, provoque Beatitudes que são flertes com os primórdios caóticos nos aproximando do Coração Selvagem dos Gritos primitivos nas Grutas-Catacumbas, nos aproximando dos Enigmas da vida contidos, cutucados, ampliados, ocultos pela/na linguagem, essa tempestade que não para de cair do céu de nossas bocas transformando o Verbo em Carne aquecida pela Água Viva da escrita de Clarice Lispector. Sempre que se sentir espremendo a Laranja Mecânica....
Fausto Fawcett transita entre literatura, música e cinema. Publicou mais de oito livros, entre eles, Santa Clara Poltergeist (1990), Básico Instinto (1992), Copacabana lua cheia (2000), Favelost (2002), Pororoca rave (2015) e Pesadelo Ambicioso (2022). Nome expoente do rap rock e da literatura cyberpunk no Brasil. Trabalhou com artistas de diversas áreas como, Fernanda Abreu, grupo Chelpa Ferro, Samuel Rosa, Arnaldo Antunes, Deborah Colker, Luiz Zerbini, Maria Bethânia, Marcelo Dantas, entre outros e outras. Participou da primeira turma de alunos do grupo carioca Asdrúbal Trouxe o Trombone, ao lado de Fernanda Torres, Cazuza e Bebel Gilberto.






