ENTREVISTA | Assombrações à brasileira 05/02/2026 - 15:51

Pedro Lucca
por João Lucas Dusi

 

"Esta é só mais uma história de fantasmas", anuncia a narradora do romance Tijolos & Babel, Maria Lúcia, já no início. O autor, Pedro Lucca, compartilha de algumas assombrações e dilemas da protagonista de seu primeiro livro, em pré-venda pela editora Madame Psicose. "Como nunca fui adepto de sessões de terapia, uso a arte literária para compreender aspectos íntimos e traumáticos, reinventá-los e, a partir deles, ten­tar me sensibilizar com o mundo", pondera o estrean­te, cujas experiências recentes com a morte de famili­ares engatilharam reflexões a respeito da passagem do tempo e sua posição em um mundo marcado por ruídos. 

"Apesar da enxurrada de comunicabilidade, existe um vazio quase absoluto de entendimento", reflete Lucca sobre as nuances de uma sociedade cada vez mais digitalizada, na qual sua protagonista — elaborada "como um retalho de experiências e de vidas reais" a partir de tudo que o autor experienciou — também está inserida. 

A liquidez interpessoal se contrapõe, em Tijolos & Babel, à rigidez literal e metafórica do concreto que ergue as cidades — especificamente do Conjunto Habitacional Profeta Josué, peça-chave de uma história que trata de temas como o confronto entre fé e razão, o em­bate do homem com a natureza, a tensão entre civilização e barbárie e a própria natureza do mal; ou, nas palavras do autor, "uma cicatriz de concreto cravada num município da Baixada Fluminense". Alheias às ma­zelas humanas, afinal, as engrenagens de algo maior continuam funcionando: "Quando tudo passar, quan­­do tudo ruir, o concreto permanecerá".

 

Tijolos & Babel, de Pedro Lucca (Madame Psicose, 2025) Capa: Leo Marino
Tijolos & Babel, de Pedro Lucca (Madame Psicose, 2025) Capa: Leo Marino

 

 

Para escrever uma história de fantasmas, o escritor precisa ser assombrado por alguns? 

Enquanto escrevia o livro, precisei ser assombrado. Fantasmas advindos do tempo, da memória e da pressão social. Foram várias mortes consecutivas na minha família, acompanhadas por toda aquela obrigação de comparecer a enterros. Dizem que, com o tempo, isso tende a se tornar mais constante. E, de fato, vem piorando.

Vi o tempo urgir com uma rapidez impressionante. Pisquei e já estava com 26 anos, sem trabalho fixo, desorientado. Tudo isso em um mundo no qual você vale pelo que possui, e não possuo quase nada. Apenas algumas referências artísticas, proveitosas ou não, uma biblioteca pessoal que está longe de ser impressionante, minha família e poucos, porém valiosos, amigos. Achei que isso bastaria. Mas não basta para os outros.

Desde a adolescência, acabei levando a literatura mais a sério do que talvez devesse. Sempre sem plena certeza do meu talento, raramente acolhido, quando muito por pouquíssimas pessoas. Como nunca fui adepto de sessões de terapia, uso a arte literária para compreender aspectos íntimos e traumáticos, reinventá-los e, a partir deles, tentar me sensibilizar com o mundo.

Lembro que o escritor António Lobo Antunes disse em uma entrevista, creio eu, que para escrever o primeiro livro é preciso ter memória de elefante, embora seu desejo mais autêntico fosse justamente poder esquecer muitas coisas. É irônico que agora eu não me recorde da frase exata.

Assim como não esquecemos aquilo que deveríamos esquecer, os fantasmas também não se desligam do mundo dos vivos. Permanecem acorrentados aqui. Da mesma forma, nós também estamos presos ao que nos mantém neste lugar, o que nem sempre é benéfico ou digno de maiores honrarias.

 

Os fantasmas da narrativa podem ser tanto literais quanto metafóricos. No fim das contas, há diferença entre eles? 

Apesar de ter escrito Tijolos & Babel, existe aquele distanciamento elaborado por Roland Barthes ainda na década de 1960. A minha interpretação da obra é apenas mais uma. A literatura se completa no encontro com os leitores. Por isso, acredito que, na narrativa do romance, convivem acontecimentos que de fato ocorrem, aquilo que a protagonista imagina e o que ela alu­cina, que carrega também alguma verdade. O fantas­magórico se manifesta nessas camadas simultanea­men­te.

Meu primeiro contato com a narrativa veio da escuta. Sempre ouvi histórias contadas por pessoas que detinham mais conhecimento do que eu. Escutava com atenção suas referências, o que gostavam de assistir e ler, além de tons mais confessionais sobre dúvidas e traumas. Ainda assim, minhas favoritas sempre foram as histórias de assombração.

Nunca tive uma experiência mística. Nunca vi nada. Em certos momentos, confesso que até gostaria de ver, apenas para ter alguma certeza de que existe algo além disso tudo. Até hoje, não sou detentor dessa convicção. Há aquela frase clichê de avós, não é? "Não tenha medo dos mortos, tenha medo dos vivos." Mas a linha entre a vida e a morte é bastante tênue. 

E os fantasmas, sobretudo os do cinema hollywoodiano, não costumam chegar com delicadeza. Ligam televisões desplugadas da tomada, fazem surgir um choro de bebê sinistro. No livro, os fantasmas orbitam outra esfera: utilizam a própria linguagem para assombrar e, talvez, reconquistar o plano material através das páginas. Existem apenas ali, confinados. 

 

As inquietações presentes no livro são também as suas? Ao escrever em primeira pessoa, você buscou separar a sua visão de mundo da visão de mundo da Maria Lúcia?

Maria Lúcia surge como um retalho de experiências e de vidas reais. Tudo aquilo que observei, vivi ou que me foi compartilhado acaba, de alguma forma, compondo sua figura. Ela carrega muito de mim, é inevitável, mas não se resume à minha pessoa. Como qual­quer indivíduo, a protagonista é um amontoado, quase uma legião de gente viva e morta. Isso faz parte da experiência humana. Convergimos em certos pontos e divergimos em tantos outros, algo absolutamente natural.

Quando escrevo, claro que lido com minhas próprias obsessões. No entanto, não parto de um esquema rígido ou de uma separação muito consciente. Tudo acaba se misturando com o conceito do livro, com o que o texto procura dizer e, sobretudo, com aquilo que ele tenta debater, levantando mais perguntas do que oferecendo respostas prontas e ensaiadas. Por isso, prefiro dizer que são inquietações da personagem, não exatamente minhas. Minha visão de mundo não é tão ampla ou reflexiva assim. Sinceramente, acho que não renderia sequer um bom parágrafo.

 

Quais cuidados você tomou para criar uma voz feminina?

A principal graça da literatura de ficção é a alteridade. É a possibilidade de se tornar outro, de reimaginá-lo. Quando busquei referências para o livro, priorizei ler vozes femininas da literatura contemporânea. Se lia vinte livros por ano, ao menos dez eram escritos por mulheres. Não foi uma decisão consciente, mas algo que sempre fiz de maneira natural e também por escolha política.

Minha única preocupação objetiva era que o livro passasse no Teste de Bechdel, algo relativamente simples de cumprir e que, ainda assim, muitas obras centrais da ficção não cumprem. Duas mulheres com nome, conversando entre si, sem que o assunto seja um homem. Fora isso, procurei respeitar profundamente todas as personagens, fossem homens ou mulheres.

Se­­ria fácil recorrer a soluções previsíveis, como colocar a protagonista diante de um aborto apenas como recurso dramático ou sexualizá-la de forma gratuita. Nada disso acontece. Não por moralismo, mas porque esses caminhos me pareceram fáceis demais, preguiçosos e pouco dignos do que o livro buscava. Se a inspiração tivesse me levado até ali, eu teria seguido. Não foi o caso.

A literatura, felizmente, vem se tornando cada vez mais plural. É claro que existe também uma engrenagem mercadológica por trás, mas isso não invalida em nada os debates sobre representatividade, bastante necessários. Há personagens masculinos extraordinários escritos por mulheres e personagens femininas comple­xas e memoráveis escritas por homens.

E, no fim das contas, a sociedade brasileira é democrática. Se alguém não concorda com um autor homem escrevendo personagens femininas, há autoras extraordinárias, muito superiores a mim, que merecem ser lidas. Basta procurar. Posso citar, por exemplo: Elvira Vigna, Virginia Woolf, Fernanda Melchor, Gabriela Wiener, Clarice Lispector e Hilda Hilst. Escrevi apenas mais um livro.

 

O Conjunto Habitacional Profeta Josué pode ser lido como um personagem do livro e uma espécie de miniatura do Brasil? Qual sua importância na atmosfera do teu universo ficcional?

Sou um aficionado pela noção de microcosmo, sobretudo quando o cenário deixa de ser apenas pano de fundo e passa a agir como personagem. Cresci diante da televisão, como muita gente da minha geração, acompanhando espaços que tinham vida própria, como Springfield ou a vila do Chaves. Esses lugares criavam uma sensação de comunidade, de pertencimento.

A literatura contemporânea, por um período, pareceu se deslocar para algo próximo do não-lugar, um espaço quase abstrato, excessivamente funcional e, de certa forma, bem capitalista. Os cenários perderam iden­tidade, e com isso se perdeu também a ideia de coleti­vidade. O Conjunto Habitacional Profeta Josué surgiu como um mecanismo narrativo capaz de podar e controlar as arestas do texto. Aos poucos, ganhou vida pró­pria e se impôs como um personagem central do livro.

Ele é uma cicatriz de concreto cravada num município da Baixada Fluminense. Um espaço marcado pela escassez, que funciona como metáfora não apenas do Brasil, mas da América Latina e, em certa medida, da própria sociedade contemporânea. Dentro dele, os per­sonagens estão acorrentados. Assim como, fora do livro, também estamos.

 

Como o mundo digital se relaciona com a solidão da Maria Lúcia?

A geração do coming of age cresce imersa no mundo digital. Podemos colecionar seguidores, sustentar amizades virtuais e, ainda assim, constatar que estamos completamente sozinhos. Só quem conhece o peso da solidão autêntica entende o quanto ela é difícil e os danos mentais que pode provocar.

Enlutada, Maria Lúcia se percebe sozinha. Além disso, como todos nós, ela também emerge de um contexto pandêmico. Isso a atravessa, machuca, deixa marcas insondáveis. Mas, como acontece coletivamente, ela vai se acomodando, vai se conformando; quando nos conformamos, surge a frieza. Passamos a afastar justamente aqueles que nutrem alguma estima por nós, acreditando que a salvação não passa pelo outro. Só que passa, sim.

A validação virtual não nos salva. Ela serve para bombardear publicidade, vender estilos de vida rasos e fabricar subcelebridades que acumulam dinheiro e dispu­tam espaço midiático com selvageria. Na internet, tudo funciona como o fundo de uma vitrine. Fantasmagórico, vendável, descartável.

O livro fala muito sobre amizade. Talvez não de um mo­do fácil ou reconfortante, mas ela está ali, como tensão. Agora me lembro de uma música do David Bowie, "Five Years", em tradução livre: "E todas as pessoas gor­das e magras/ E todas as pessoas altas e baixas/ E todos os ninguéns/ E todos os alguéns/ Eu nunca pensei que precisaria de tantas pessoas".

 

Pedro Lucca
Pedro Lucca. Foto: Acervo pessoal

 

A palavra "Babel", no título, tem a ver com a irônica dificuldade de se comunicar em tempos virtuais?

Sim, surge daí também. O título completo, Tijolos & Babel, carrega essa tensão desde a origem. Há, evidentemente, a referência bíblica à Torre de Babel. Um mo­men­to em que os seres humanos falavam uma língua unificada e tentavam erguer uma construção para alcançar o Criador. Diante disso, Deus se irrita, confunde as línguas e a obra permanece inacabada.

Os "tijolos" do título vêm justamente da aspereza da história. São os blocos que sustentam a construção do romance, mas também remetem à ideia de impacto. Eu queria que o livro funcionasse quase como uma tijolada no leitor, não como algo afável ou conciliador, mas como fricção e dureza. 

Já Babel atravessa a dificuldade intrínseca da comunicação. O ruído permanente da linguagem foi algo que procurei levar para dentro do texto. Deliberadamente distante de oficinas de escrita criativa ou de manuais de ficção, busquei provocar o atrito da língua, a confusão que ela carrega. Essa confusão também atravessa o ambiente virtual e as formas recentes de sociabilidade contemporânea. Apesar da enxurrada de comunicabilidade, existe um vazio quase absoluto de entendi­mento. Nesse sentido, o título me soou quase publici­tário. Não há nada mais atual do que isso.

 

Além da oralidade, a narrativa trabalha com saltos temporais e outros recursos estilísticos. Como você buscou equilibrar a jornada de uma jovem quebrada — em que a hones­tidade do discurso pesa — com a forma literária de contar essa história?

Esse foi, talvez, o verdadeiro desafio de Tijolos & Babel. Conciliar autenticidade e sinceridade discursiva com uma exploração consciente da linguagem, que, no fim das contas, é o que realmente sustenta a literatura. Não queria que o livro soasse hermético ou inacessível. Meu desejo sempre foi que ele pudesse ser compreendido, ainda que provocasse algum desconforto.

Acredito que a boa arte precisa chegar a quem a recebe como uma espécie de atrito, algo que convoque a inteligência e a sensibilidade do leitor a trabalhar. O livro não é totalmente palatável, e nem deveria ser, mas está longe de ser difícil ou excessivamente complicado. Antes de qualquer coisa, eu quis contar uma boa história.

Quanto ao equilíbrio entre recursos linguísticos mais ousados e uma forma narrativa reconhecível, não houve fórmula ou método rígido. Fiz isso na prática, experimentando, errando e ajustando. 
 

Como a religiosidade (ou a espiritualidade) pesou na composição da obra?  

Por parte de mãe, venho de uma família evangélica neopentecostal. Sempre me interessei por temas místicos e esotéricos, mais por curiosidade e prazer intelectual do que por fé propriamente dita. Igreja, no entanto, sempre me pareceu um porre. Felizmente, nunca fui obrigado a frequentar. Ainda assim, desde cedo passei a ler a Bíblia com curiosidade, muitas vezes apenas para testar a paciência da minha mãe, trazendo para a mesa de casa informações que nem ela nem o pastor sabiam responder.

Esse interesse acabou me levando à teologia. Não como prática religiosa, mas como campo de estudo mesmo. Segundo dados do IBGE, até 2030 os protestantes devem se tornar maioria no Brasil. Esse crescimento é especialmente visível nas periferias. Há uma igreja em cada esquina. Ainda assim, pouco parece mudar. A edu­cação continua precária, falta saneamento, os assassinatos seguem acontecendo e toda sorte de imoralida­des permanece.

Apesar de o cristianismo ser frequentemente apresentado como bastião da civilização ocidental, muita gente esquece que essa religiosidade carrega, em diversos aspectos, elementos profundamente pagãos e até mes­mo traços que poderiam ser chamados de primitivos. 

Maria Lúcia, assim como eu, vem de um lar evangélico. Essas fixações, dúvidas e reflexões teológicas atravessam Tijolos & Babel de diferentes maneiras. Como inquietação constante, como parte inevitável da for­ma­ção subjetiva e simbólica.

 

Jim Morrison e Julio Cortázar são utilizados na epígrafe. Quais outros artistas compõem seu imaginário criativo? 

Acredito muito que a virtude de um grande artista re­side na generosidade. Foi algo que aprendi com Ma­chado de Assis. Por isso, em Tijolos & Babel, não escon­do minhas referências. Prefiro expô-las, home­nageá-las e colocá-las em diálogo.

Na literatura, Roberto Bolaño me deu a sensação de que escrever pode ser um modo de vida, uma escolha existencial. Já Laszlo Krasznahorkai, atual Nobel de Literatura, foi fun­damental para o romance também. A poesia de Roberto Piva e de Carlos Drummond de Andra­de também me acompanham de forma constante. Amo Jackson Pollock, Marcel Duchamp e Andy Warhol, quando o assunto é arte visual. 

Ainda assim, troco todos os versos mais bonitos por uma conversa sincera na mesa do meu boteco favorito e pelos olhares de gratidão, respeito e cordialidade que recebi ao longo da vida. Os artistas que mais respeito são pessoas comuns, nunca publicadas, mas que vivem a arte de maneira orgânica e autêntica. Sem elas, eu não teria escrito este livro. No fundo, Tijolos & Babel fala muito menos sobre mim e muito mais sobre esse tipo de pessoa. Os profetas e santos que nunca reconheceram sua santidade. 

 

Há uma forte noção de estilo e construção do universo ficcional para um romance de estreia. O que esperar da sua produção futura?

O que costuma ser chamado de estilo também enxergo como limitação. Foi simplesmente a única maneira que encontrei para escrever Tijolos & Babel. Por isso o livro existe daquela forma, e não de outra. Sempre tive uma dificuldade latente de concentração e demorei muito para aprender a ler. É quase paradoxal que justamente a leitura e a escrita tenham se tornado aquilo que mais faço hoje.

Sou preguiçoso, indisciplinado e, ao mesmo tempo, extremamente exigente comigo mesmo. Cobro muito do meu trabalho, mental e fisicamente. Talvez até demais. Já estou escrevendo o segundo romance, sem qualquer prazo para lançamento. Ele será completamente diferente de Tijolos & Babel. Quero que minha produção futura me desafie, me force a errar de novo, a experimentar outras formas, outras linguagens, outros riscos. Não tenho interesse em me repetir.

A literatura pode até estar morrendo, se é que isso é verdade. Vou escrever até a última respiração dela. Mas a narrativa, essa não morre nunca: é inata à nossa espécie. Enquanto eu estiver aqui, estarei contando histórias e esperando ser lido. Não escrevo para guardar textos na gaveta. A escrita é meu território de manifestação e expressão. É onde deposito tudo o que consigo de amor pela humanidade. E amar o ser humano também é amar seus contrastes, suas contradições, suas sombras. Isso exige coragem. É essa cora­gem que espero continuar perseguindo.
 

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