CONTO | Borbotos 28/01/2026 - 17:06
Por Betina Juglair
Ideia de monólogo: estou no quarto fazendo uma atividade absolutamente banal, digamos que eu esteja com um daqueles aparelhinhos à pilha que tiram os borbotos fiapos tufos bolinhas das roupas e digamos que ele faz um barulho assim não muito alto mas nem tão baixo e um bocado incomodativo pela persistência e pelo volume, mais ou menos como se a gente brincasse num piano e fosse descendo com a mão pelo lado direito até as notas começarem a gritar de dor, e que não aplico esta maquininha em roupas mas num cobertor bege que não é nem velho nem novo mas tem assim uns cinco ou seis invernos de idade, que já foi extremamente macio e aconchegante e até mesmo elegante e hoje é cheio de fiapinhos pretos cinzas alguns vermelhos outros brancos alguns amarelos um ou outro azul espalhados pela superfície da coberta o que a torna um pouco áspera, e digamos que seja esse o cobertor que me cobre todas as noites, e numa sexta-feira qualquer em que tenho muitíssimas coisas a fazer decido ligar a maquininha, que inclusive ainda tem fiapinhos roxos de uma blusa de lã que limpei no inverno passado, quer dizer, retrasado, ainda morava naquela outra casa seis andares no alto lá na baixa, muito bonita a blusa, comprei numa promoção da Zara em 2019, tem gola alta que eu gosto bastante e que combina comigo e com meus cabelos curtos, mas hoje que por acaso é sexta-feira não uso esta blusa roxa e sim um pijama qualquer muito confortável mas já meio gasto e inclusive no tecido azul tem duas pequenas manchas de lixívia na coxa esquerda que o deixa rosa, e então ligo a maquininha, ela faz o som agudo e nisso começo a fazer movimentos variados na coberta, às vezes ponho a máquina mais perto e o som abafa um pouco, às vezes mais longe e o som aumenta, alterno entre o zigue-zague e a linha contínua, uma linda dança sobre a coberta bege, e a máquina faz um barulhinho quando captura o fiapo, um glomp que é uma interrupção no buzzzzzz habitual, que na verdade como é agudo o som se assemelha mais a um bizzzzzzz, logo a sinfonia que escuto é um dinâmico bizzzzzzzzzz glomp bizzz glomp bizzzzzzz glomp bizzzzzzzzzzzzzzzzzzzz glomp glomp bizzz e cada glomp dá uma sensação de recompensa de alegria de trabalho sendo cumprido e aí testo várias velocidades da minha mão na superfície da coberta, já que a velocidade da máquina é sempre uma, quer dizer, duas, ligado e desligado, mas a mão tem inúmeras infinitas velocidades e modos de se locomover por sobre a superfície, inclusive o corpo tem duas mãos, e embora eu seja destra eu às vezes passo a máquina à mão esquerda só para testar uma coisinha diferente, o que causa um susto no público que assiste muito curioso a toda a ação, e nisto também mexo o corpo, fico sentada, às vezes levanto e fico de pé olhando a coberta de cima, me aproximo, me afasto, curvo as costas, deixo-as retas, tenho atenção à lombar, fico torta e me endireito, tudo muito dinâmico neste espetáculo de dança monóloga contemporânea como pode-se notar e nota-se bem, e a mão sempre baixa agarrando a máquina que agarra os borbotos agarrados na coberta, e nesse bizzness constante a maquininha vai enchendo, fiapo por fiapo, e é engraçado que na coberta a bolinha é dura e feia, mas depois que é captada pelo bicho-máquina o fiapo fica tão maciozinho tão molinho e quase bonito, se mistura com outros fiapinhos dentro e fica parecendo algodão, um algodão macio e meio sujo, que vai enchendo a maquininha de modo que de tempos em tempos eu tenho que parar para esvaziar o compartimento de borboto transformado em matéria fofa na lixeira verde do quarto quer dizer cenário, e faço isso muitas e muitas e muitas e diversas vezes afinal são muitos borbotos quer dizer fiapinhos por sobre a coberta bege e nisso é que entra o monólogo, me pego a pensar em tudo em muito em nada em diversas coisas, todas muitíssimo interessantes, e aqui a dramaturga, o que quer dizer eu mesma, posso escolher o assunto ou os assuntos tratados no monólogo enquanto toda a ação se desenrola, assim logo de cara já me vem um super tema, que é na verdade uma grande questão que se coloca na minha mente, a pergunta que não quer calar, que é que seria mais rápido se eu tivesse gasto dez euros na maquininha com uma velocidade extra ao invés dos seis euros que gastei na máquina mais simples, porque no calor do momento a gente não calcula o valor da nossa hora de trabalho né, por exemplo, no processo de desborbotização de uma única coberta, frente e costas, ou então frente e verso porque não sei se cobertas têm costas, as costas aqui na verdade são humanas e por acaso são minhas e tocam o colchão de modo que talvez a coberta tenha duas frentes, e essas duas frentes ou duas bundas me custaram por volta de duas horas e doze minutos de trabalho desborbotizante, mas que se inclua neste tempo uma pausa para um copo de vinho e a escrita de um monólogo, o que acho que é razoável e que poderia ser muito mais ou muito menos porque as coisas têm duração muitíssimo variada e tudo depende de muita coisa, imagina se fosse uma máquina melhor ou pior ou até mesmo um monólogo mais breve, ou ainda uma coberta pequena como de bebê ou grande como de um cavalo, porque imagino que cavalos passem frio e talvez alguns até tenham coberta e que seja inclusive bege como a minha mas também pode ser vermelha, marrom ou azul marinho a depender do gosto do cavalo, da égua ou da pessoa, mas penso que o público pode estar muito satisfeito com uma coberta humana bege de tamanho regular e que o tempo de espetáculo é muitíssimo adequado, mais de cento e trinta mil segundos nesta cena inspiradora faz valer o dinheiro gasto em cultura, o problema é que eventualmente será preciso mais cobertas beges ou até mesmo de outras cores para desfiapar tudo direitinho quando houver apresentação em outras cidades e até mesmo para os ensaios, penso que é um problema sobretudo no verão porque os cobertores e os fiapos estão todos fora de vista e guardados sabe-se lá onde, eu mesma só tenho uma coberta que é esta que seguro na mão e que já está desfiapadíssima, e quem é que vai querer andar por aí emprestando cobertas para a classe artística no meio de um calor de trinta graus, e mesmo se fossem vinte e nove, eu é que não iria, jamais, coisíssima nenhuma, nem se eu estivesse entediada porque se fosse o caso eu iria pegar na minha coberta e desfiapá-la eu mesma, o que por acaso acaba de me acontecer, olho para as duas beges frentes ou costas ou bundas e constato a quase ausência de fiapos, que por um lado é magnífico porque está com um aspecto muito melhor, rejuvenesceu uns três anos, é um verdadeiro botox manual aplicado a tecidos diversos, mas também é um bocado frustrante porque como planejo muito seriamente um solilóquio lay-down com uma série de apresentações em locais diversos e duvidosos, é certo que vou precisar de outras unidades de coberta para desfiapar, mas acho que isto sempre arranja-se, toda cidade tem uma coberta coberta de fiapos mesmo no verão e há sempre uma mulher disposta a coletá-los todos diligentemente, mas também de modos muito dinâmicos e variados, e é isto o que causa o engajamento com o público, então doze horas e dois minutos é um tempo razoável, diria até mesmo ideal, para contemplar uma mulher e seus borbotos devaneios cobertores fiapos coloridos, a não ser que eu encontre uma máquina superior à minha, a tal da máquina de dez euros ou até mais, porque temos de considerar a inflação, e eu realmente não sei qual o valor máximo que pode custar uma maquininha dessas, será que chega a vinte ou mesmo cinquenta euros se for uma versão deluxe, com engrenagens em ouro ou funcionamento robótico, acho que não chega a tanta tecnologia mas não tenho assim muitas informações sobre as opções das máquinas de borbotos, é algo que certamente devo averiguar antes da concretização da peça para ter mais embasamento técnico e o público não achar que eu sou uma farsa, inclusive porque meu desconhecimento recai não apenas sobre valores mas também sobre velocidades e capacidade de armazenamento de fiapos, e mesmo sobre eventuais variações no funcionamento à pilha ou à bateria recarregável, são realmente muitas possibilidades para uma máquina tão simples que vou mesmo ter de enfiar a fuça nas bibliotecas públicas e rincões cibernéticos de fóruns especializados em aparelhos domésticos de pequeno porte, e imagina que coincidência se na ocasião do monólogo alguém da plateia ou até mesmo dos bastidores por acaso, descuido ou conveniência tenha uma máquina dessas junto consigo no bolso saco mochila ou mesmo na mão, as pessoas são capazes de tantas coisas até mesmo de levar uma máquina de retirar fiapos ao teatro porque se for uma máquina boa o suficiente e uma peça chata o suficiente há sempre o que se fazer, penso que essa pessoa hipotética pode pegar na sua máquina hipotética e retirar os borbotos hipotéticos do seu próprio casaco hipotético ou até mesmo fazer uma gentileza hipotética e retirar do casaco da pessoa hipotética à sua frente sem ela perceber, é lógico, mas apenas se for uma máquina boa e silenciosa o suficiente porque do contrário todos à volta conseguem ouvir a máquina em ação e seria um grande distúrbio, de modo que sou uma grande entusiasta do aprimoramento da tecnologia das máquinas de retirar fiapos pensando sobretudo no seu uso em teatros mas não apenas, pois imagine o sucesso em elevadores escritórios filas variadas qualquer momentinho ali ao invés de consultar as redes sociais ou um jogo no celular a pessoa pega na máquina e retira um fiapo ou dois ou até mesmo dez a depender do tamanho da pausa da espera do tédio e do casaco blusa ou calça, eu mesma devo ter arrancado pelo menos uns duzentos e quarenta e dois fiapos da coberta, talvez até mesmo trezentos e dezesseis, mas vamos considerar a estimativa mais conservadora afinal sou uma mulher um pouco lenta, o que é uma mentira porque sou é mesmo muito lenta, alguns diriam até mesmo lentíssima, tomo o tempo que tenho e o que não tenho em atividades sem finalidade alguma, talvez até haja um arquivo meu na CIA tamanho meu perigo ao capitalismo eficientista, passo todo o meu tempo a usar o máximo de tempo possível em atividades inúteis como contar quantas pintas eu tenho no meu cotovelo esquerdo, nenhuma, ou então a imaginar os fiapos que arranquei e já nem existem mais quer dizer ainda existem mas estão numa sacola de lixo misturada a outros lixos de outras pessoas, talvez inclusive a outros fiapos de outras casas num grande encontro de tufos num lixão qualquer, que eu aliás nem sei para onde vão esses objetos todos que já estiveram assim tão próximos de mim me cobriram no frio me foram muito úteis me serviram tanto e eu descartei tudo joguei tudo fora e onde é que vai tudo isto, onde vão os fiapos todos e será que ficam de conversinha com os fiapos dos outros, é um tema que apenas conjecturo e que não passo muito tempo a pensar, coisa de três vezes a cada doze dias, ou dezenove horas num bimestre, ou cento e setenta vezes num ano bissexto, e agora de cabeça faço um cálculo rápido mas muito lentamente e penso que se eu, quer dizer, a máquina, arrancou duzentos e quarenta e dois fiapos daria uma média de 1,8 fiapos por minuto se eu passei duas horas e catorze minutos nesta minuciosa tarefa, e agora assim quando olho a estatística me parece certamente uma projeção conservadora e que arranquei muito mais do que isso, talvez tenha sido mesmo trezentos e dezesseis ou então dezoito, mas fatos são fatos e eu não estou aqui inventando nada, apenas faço suposições muito levianas e imaginárias com base em sensações reais, ou seja, só estou aqui falando verdades, e a verdade é que embora eu seja entusiasta da melhoria em geral dos aparelhos domésticos seria muito chato se alguém me emprestasse um retirador de fiapos muito potente e silencioso numa performance porque parte da graça de se fazer uma ópera barroca contemporânea em que se retiram tufos em palco é que o barulhinho da máquina confere uma dinâmica à ação toda, porque como eu já disse não é um barulho exatamente constante e igual, o motorzinho com suas lâminas dá uns pequenos saltos tipo assim uns glomp em meio aos bizzzz que é quando sabemos que um borboto foi de fato engolido e deglutido pela máquina, então o glomp é um barulho necessário porque sabemos que a máquina está sim a funcionar a todo o vapor, quero dizer, a toda a pilha, pois esta que tenho usa duas pilhas tamanho AA, ou talvez três AAA já não me lembro mas não importa, e talvez eu tenha de trocá-las na próxima vez que eu for arrancar fiapos, inclusive seria lindo se acabasse a pilha no meio da peça, um grande e inesperado silêncio após uma infinidade de bizzzz e glomp e bizzzzzzzzz e glomp que é seguido por uma frustração seguido por uma tensão que acumula neste que é o ápice da presente noite de estreia do estrondoso talk show de mim comigo mesma que produzo escrevo dirijo apresento e assisto, o grande momento que é o improviso e a busca por pilhas novas, eu por acaso sei onde estão as pilhas na casa onde eu moro, tanto as grandes quanto as menores, há umas seis unidades de AA e umas nove de AAA ainda na embalagem laranja na segunda prateleira de baixo para cima da estante do quarto, mas teria de deixar sempre umas à mão algures no cenário para que eu pudesse trocá-las durante o monólogo caso seja necessário, e se o for, que este pequeno contratempo de súbito silêncio não impeça o decorrer fluido e orgânico das palavras de uma mulher que tem muito a dizer, muitíssimas coisas, e todas de grande importância no mundo dos tufos e fiapos variados, não tenho dúvidas que este sermão de liturgia circense seja capaz de reunir inúmeros fãs pelas cidades onde vai passar na sua digressão pelo país, de modo que a ação toda de fato tem mesmo de ter aproximadamente dezesseis minutos e meio que foi o quanto demorei originalmente, mas neste tempo não se esqueça que está inclusa uma pausa para quem quiser tomar três copos de whisky assim como eu fiz, ou então também escrever uma peça infantil neoshakespeariana assim como eu também fiz, e tudo isto se passou numa sexta-feira agitadíssima mas não vejo impedimentos para que a ação decorra numa segunda-feira, numa terça ou até mesmo domingo, que talvez seja o dia mundial de retirar tufos de tecidos meio usados simplesmente porque também é o dia mundial do tédio doméstico, porque apesar de haver milhares de distrações neste mundo contemporâneo, a maioria delas convenientenemente está localizada não numa coberta bege mas sim numa tela retangular e colorida e muito difícil de olhar para quem tem hipermetropia, o que não é o meu caso porque tenho miopia e um bocadinho de astigmatismo, razão pela qual várias vezes peguei a cobertinha e o tirador de fiapos e levei bem perto do olho, inclusive quase arrancou um cílio meu sem querer, para tentar ver toda a ação bem de pertinho, além de toda a real composição de um tufo, coisa que até então me passou totalmente desapercebida e era um mistério para mim que nunca tinha de fato reparado num borbotinho sequer, e pensava menos ainda na própria ação empreendida pelo aparelho, coisa que na verdade sigo sem conseguir de fato analisar porque a própria máquina esconde o seu mecanismo e deixa pessoas curiosas como eu apenas imaginando o que de fato acontece por dentro do misterioso e eficiente equipamento desborbotizante, mas felizmente tenho a capacidade de pelo menos tentar visualizar tudo isso, o que os otários de hipermetropia não conseguem porque só conseguem ver de longe, e quem é que segura uma coberta ou uma máquina de retirar fiapos de longe para outra pessoa ver, talvez, talvez, talvez a única possibilidade seria o tal do espectador hipotético do monólogo que hipoteticamente traria sua máquina para o teatro, e aí poderíamos hipoteticamente imaginar uma performer com hipermetropia a observar de longe o espectador coincidentemente também a retirar tufos e justamente por ser longe e ter hipermetropia a pessoa ser capaz de ver toda a ação em detalhe, e seria mesmo bonito presenciar um ato de conexão aleatória e sincera entre duas almas através do mesmo ato da mesma máquina do mesmo desejo de arrancar fiapos, algo que só o teatro proporciona, mas também só a hipermetropia e o tédio doméstico, que neste caso seria tédio performático porque se passa no contexto artístico por se tratar de um canto gregoriano inteiro em si bemol, uma performance realmente fascinante e muito dinâmica, com espaço para a contemplação e para a partilha de curiosidades sobre um ato tão importante tão invisibilizado tão fulcral na conservação das estruturas sociais e domésticas que é o de tirar fiapos do cobertor com o qual se cobre o corpo todas as noites, espero que fique tudo muito macio e este espetáculo de circo contemporâneo seja um grande sucesso, meus parabéns muito obrigada.
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Betina Juglair é escritora e artista visual brasileira, vive em no Porto (Portugal) desde 2019. É bacharel em Direito (UNICURITIBA), mestre em Estudos de Arte - Teoria e Crítica de Arte (FBAUP) e doutoranda em Artes Plásticas (FBAUP). Sua produção cruza escrita, arquivo e fotografia a partir do corpo, da intimidade e do cotidiano. Escreve sobretudo prosa, mas também ensaios e textos críticos sobre arte. Publicada no Brasil e Portugal, em antologias literárias e revistas especializadas de arte e fotografia. Em 2025, o conto "Borbotos", publicado nesta edição do Cândido, foi vencedor na categoria de Literatura da Mostra Nacional de Jovens Criadores, organizada pelo Gerador, em Portugal, e no mesmo ano ganhou o prêmio de melhor crônica na Off-FLIP, no Brasil.






