TRECHO: ROMANCE | Escrever um romance e a insuficiência dos conceitos 05/02/2026 - 15:28
Por Caetano Negrão
Uma das melhores coisas de ser romancista é poder fazer uma imersão total num assunto. Não são alguns minutos, ou o tempo que demora para ler um livro, ou uma conversa de bar. São centenas de horas, são meses, anos até. O assunto toma conta de você e você dele. Acontece uma interação única, que faz o cérebro ferver. Às vezes é assustador, às vezes frustrante. Dá medo de enlouquecer, de se perder na intensidade e no fluxo. É uma maratona mental e emocional — um exercício metafísico de esticar o tempo e a existência.
À medida que essa imersão acontece, a estrutura de ideias, personagens e acontecimentos começa a se formar. Ao mesmo tempo, como os conceitos e fundamentos são colocados à prova todos os dias, é comum que eles, paradoxalmente, percam a cor ao longo da escrita, que enfraqueçam.
Recentemente, publiquei um romance que me fez refletir sobre tudo isso. O livro em questão chama-se Marginal (7Letras, 2025). O tema central é a manutenção da desigualdade e a consequente marginalização da maior parte da população. Busquei ir muito a fundo na parte histórica, levantando pontos centrais que ajudariam a entender a formação dessa cultura de normalização das desigualdades.
Aconteceu então esse empalidecimento de conceitos que mencionei acima. Quanto mais fundo eu ia, mais alguns conceitos, dados como certos e até fundamentais, perdiam força. Um bom sinal, do ponto de vista da pesquisa.
No meu caso, uma das ideias que empalideceram foi a de termos sido uma "Colônia de Exploração". Esta definição tem sido questionada há tempos e, com o livro, percebi melhor o teor fundamentalmente econômico do conceito, com fortes influências do pensamento eurocêntrico e colonial, não englobando o fator humano e os traços culturais que se estabeleceram aqui com a invasão portuguesa. O que começou a parecer mais adequado e verdadeiro é que fomos, acima de tudo, uma Colônia de Exploração do Ser Humano.
Talvez seja esse nosso status fundante moderno, que ecoa até hoje. Seja através da escravização indígena, da escravização africana, da exploração da mão de obra no campo, na dificuldade de obtenção de direitos e serviços públicos, essa exploração parece ser o denominador comum. Explorar o ser humano talvez esteja, infelizmente, na base cultural brasileira. O que ajudaria muito a explicar a marginalização sistemática, flagrante e contínua da maior parte da população.
Em certo grau, dói admitir uma base assim. Mas quem sabe seja uma dor importante de se ter. Dor de crescimento.
Trecho do romance Marginal
Ao contrário da minha vó e da minha mãe, olho bastante para o prédio mais luxuoso de Curitiba. Quando chego do trabalho, se não está tão frio, fico um pouco na cadeira ali fora, observando, com o Sansão aos meus pés. Não acho a construção bonita. Não entendo muito de arquitetura e engenharia, mas comparado com o que vi em sites relacionados ao tema quando pesquisei para entender como as construções de prédios altos funcionam, e vi projetos do mundo inteiro, dos mais baratos aos mais caros, concluí que aquele era um prédio que misturou estilos e materiais de maneira estranha, gerando um resultado ruim. Tenho a impressão de que os ricos, muitas vezes, fazem a medida das coisas pelo custo e na verdade não sabem o que estão comprando.
Fiz as contas também. Se conseguisse guardar metade do meu salário todos os meses, demoraria pouco mais de 3200 anos para juntar dinheiro suficiente e comprar um apartamento ali.
Minha mãe olha torto quando observo o prédio por tempo demais. Acho que quando o faço, quebro um tipo de regra que ela e minha vó estabeleceram em relação às coisas dos ricos, um pacto que elas têm, de invisibilidade. Depois de um tempo, qualquer coisa rica vai sendo distorcida, até ficar invisível. Passam em frente a prédios e shoppings e carros e pessoas, mas não olham direito, como se dissessem a elas mesmas que aquilo não existe de verdade.
A recíproca é verdadeira. Os ricos também distorcem a pobreza ao redor deles. Tudo parece virar um borrão num pano de fundo que não lhes interessa. A invisibilidade do pobre vai acontecendo para eles como a do rico acontece para minha mãe e minha vó. É um processo similar. Elas notam mudanças e elementos novos no dia a dia, mas em seguida os ignoram. O mesmo acontece do outro lado. O rico nota um novo pobre pedindo dinheiro no semáforo, mas no dia seguinte ele vira cenário.
Ser pobre no Brasil não é apenas classificação. É como ter uma doença. A maneira como ouço os moradores do prédio onde trabalho falando da pobreza parece exatamente isso. A impressão é que estão falando de um vírus tão ruim que se falarem por tempo demais é capaz de o pegarem ali mesmo. E tomam precauções todos os dias para não serem contaminados. Mantêm uma boa distância de nós, infectados, e a aumentam cada vez mais, sempre que possível.
Ser pobre é como ser de uma outra espécie, um sub-humano, ou pelo menos um subcidadão. Minha vó e minha mãe se acostumaram a isso. Vivem como subcidadãs, como membros de outra casta. Quando vamos às ruas e entramos num lugar mais caro ou bem arrumado, apertam suas coisas e encolhem o corpo, não para se protegerem, mas para tomarem menos espaço. Elas têm que tomar o menor espaço possível. Têm que passar despercebidas, de cabeça baixa, com passinhos ligeiros e eficientes. Elas recebem o recado de que não deveriam estar ali e o aceitam. Chegam aos balcões das lojas e dos bancos quase que pedindo desculpas, como se estivessem sempre erradas, como se soubessem que no sangue mesmo, ou na pele, têm algo que nunca sairá.
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Caetano Negrão nasceu em Curitiba, Paraná, em 1989. Formou-se em Comunicação Social, trabalhando com a escrita em diversos formatos — música, dramaturgia, poesia e prosa. Possui textos ficcionais publicados em revistas e coletâneas. Contribuiu com traduções para diferentes obras. Trabalhou por muito tempo em sala de aula, e continua visitando escolas, agora como escritor, promovendo oficinas, palestras e conversas sobre literatura. Publicou Todo um Céu Azul (Ed. Patuá), em 2024.








