Romance | Prêmio Biblioteca Digital
22/12/2020 - 12:21

Leia um trecho do romance O Cubo Mágico, de Guido Viaro, vencedor do concurso promovido pela BPP e disponível gratuitamente em e-book

cubo
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Romain voltou para casa e sentiu uma imensa vontade de beber uma cerveja. Havia duas latas na geladeira, e elas não resistiram nem quarenta minutos. Depois disso sentiu vontade de beber uma terceira, isso nunca acontecia, principalmente numa segunda-feira. Mexeu na carteira para pegar algum dinheiro e comprar mais. Encontrou o papel com o telefone de Svetlana. A tentação de ligar foi grande.

Lembrou-se que errar era normal, mas repetir o erro era estupidez, aquela mulher havia feito com que gastasse 1.100 euros em poucas horas, e não satisfeita, havia pedido seu relógio. E ele o entregara. Voltou da rua com mais três latinhas, e na metade da segunda discava seu número. O que diria? Pediria o relógio de volta? Talvez ela nem se lembrasse dele, era melhor desligar. No quarto toque sem resposta decidiu que deixaria aquilo de lado. No quinto ela atendeu.

Depois de muito gaguejar e de responder sobre como havia conseguido aquele número, ele conseguiu identificar-se e ela se lembrou dele. Sua voz parecia de alguém que acabara de acordar, e nenhuma de suas respostas trazia qualquer entusiasmo. Romain pensou em desligar, mas fez o contrário, convidou-a para tomar uma cerveja. Depois de um silêncio maior do que a ocasião pedia, o que fez com que ele perdesse as esperanças, ela disse que sim. Eles se encontrariam em um bar na avenida do Pigalle, não muito longe da boate. Assim que desligou o telefone, arrependeu-se. Acabara de se tornar um estúpido, e aquilo poderia ser apenas a primeira de uma longa série de estupidezes, que lhe sugariam, além de dinheiro, muitos outros valores importantes. Poderia simplesmente não ir ao encontro, mulheres como ela deviam estar acostumadas a isso. Depois simplesmente bloquearia o seu número. Mas ela poderia ficar com raiva e telefonar de outro número em horários inconvenientes.

Escolheu sua melhor roupa, fez a barba, perfumou-se, e 15 minutos antes do horário marcado pedia sua primeira cerveja no balcão. Enquanto ela não chegava, planejou o que diria. Nada de pedir o relógio de volta ou qualquer mesquinharia. Seria generoso, amigo, preocupado com ela. Depois de muito conversarem dispararia a frase: sabe que essa vida não dá futuro, né? Poderiam se tornar amigos, confidentes, poderia extrair dela muito material para seus futuros livros. Ela poderia ser seu vínculo com um submundo que jamais conseguiria entrar em contato em situações normais. E depois, é claro, acabaria conseguindo de graça aquilo que os outros pagam muito caro.

Sua cerveja terminou, pediu outra e já se passaram 15 minutos do horário combinado. Estava tranquilo, se ela não viesse, tudo bem, melhor ainda, escaparia, por uma circunstância, de sua própria estupidez. Terminou a segunda cerveja e já eram 35 minutos após o horário do encontro. Resolveu pedir a conta e voltar para casa. Pagou as duas cervejas e quando guardava as notas em sua carteira sua visão escureceu. Uma mão tapava-lhe os olhos. Não teve muita dúvida de quem era quando com o canto do olho reconheceu a pulseira vermelha de seu ex-relógio. Para não estragar a brincadeira disse um nome qualquer de mulher, antes de dizer o dela, na dúvida sobre qual dos dois nomes deveria utilizar, chamou-a de Édith.

Ela retirou as mãos e a primeira coisa que disse foi: “meu nome é Svetlana”. Romain desculpou-se e perguntou se ela queria permanecer ali ou ir para outro lugar. Antes que ela respondesse, sua beleza passou por uma terceira avaliação. Se, no segundo exame, ele havia diminuído a nota deixada pela primeira impressão, agora, aumentava a que dera na primeira vez que a vira. Era uma linda mulher, um porte elegante e bem proporcionado, ombros e colo definidos, braços longos e pernas vibrantes — isso mesmo, estranha definição, mas foi esse o adjetivo que mais combinava com suas pernas. Seus olhos tristes eram de um verde que só existe em florestas tropicais. O cabelo dourado lembrava a cor dos ornamentos que decoravam a entrada da Ópera Garnier. Os traços de seu rosto eram todos suaves, típicos de belezas do leste europeu, e apesar de terem sido atravessados por tristezas e vulgaridades, mantinham uma graça quase intocada.

Ela sorriu, mas essa era sua pior parte. Os dentes eram perfeitos e bem cuidados, mas era através do sorriso que sua vida noturna se manifestava. Ele suspeitou que seria por ali que começaria seu envelhecimento, o sorriso carregava um sarcasmo apodrecido, lembrava alguns sorrisos que vira nas dançarinas decadentes retratadas por Toulouse-Lautrec. Subitamente, percebeu que a influência que ela sofria, continuando com sua teoria das influências, era a da morte. Mais do que Emma Bovary, que se suicidou, ela era inspirada pela morte. Isso não significava que iria se matar ou que morreria cedo. Poderia viver uma longa vida, mas sempre acompanhada pela morte.

 

Guido Viaro nasceu em Curitiba (PR), em 1968. É escritor e cineasta, autor de 18 romances. O Princípio da Incerteza (2019), Trem (2020), Via Alpina (2020) e No Zoológico de Berlim (2008) são alguns de seus títulos publicados.

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