Conto | Marcílio França Castro

Memento mori



Não faz muito tempo, descobri no fundo da gaveta um retrato de meu pai, de quando ele tinha dezessete anos. É uma foto em preto e branco, apenas de rosto, tirada em um estúdio do interior, provavelmente para compor algum álbum de família. Ligeiramente desbotada, a imagem conserva aquela opacidade elegante da década de cinquenta. Ali está um rapaz magro, talvez pálido, o cabelo lambido para trás; o paletó torto reforça a fragilidade da figura. Ele franze as sobrancelhas — a cabeça não chega a se inclinar, mas o olhar dirige-se para o lado, como se tentasse fugir da câmera. É um olhar acuado, acuado e triste. A foto data de 1954, como se vê em um rabisco no verso. Nessa época, meu pai não pensava que em dez anos teria migrado para longe, estaria casado e às voltas com o primeiro filho — eu nasci em 1964.

Vejo na estante uma fotografia minha ao completar sete anos. Foi tirada em maio de 1971, como mostra a dedicatória forjada no verso (para os avós distantes — que depois restituíram a lembrança). Nela apareço assentado, o rosto redondo recortando o painel cinza do estúdio. Meio a contragosto, a criança abraça entre as pernas um tamborzinho de brinquedo (as fotos dos anos setenta tendem a ficar rosadas com o tempo).

As pessoas sempre comentam as semelhanças entre mim e meu pai. O queixo fino, o pescoço alongado, o sorriso encolhido. Nenhum desses traços aparece no retrato do menino (os cabelos cacheados descem até os ombros). Entretanto, tal como na foto do pai, minhas sobrancelhas estão franzidas; tal como o pai, a criança olha para o escuro — como se penetrasse um túnel. Confrontando as imagens, não é o traço hereditário que nos aproxima: é apenas o olhar, sua seta angustiada e esquiva. Dezessete anos separam as datas das fotografias. Dez anos separam a idade dos dois no momento das fotografias. Vinte e sete anos é a diferença de idade entre nós. O instante do olhar, porém, é o mesmo.

Tais conjunções, exclusivas do mundo dos retratos, não se repetem com frequência. Talvez em quarenta ou cinquenta anos algum descendente nosso, abrindo um baú perdido, encontre o par de fotos e com surpresa reconheça nelas um abismo de seu próprio rosto. Mas é preciso ter cuidado. Ao contrário do que se poderia supor, a facilidade para fotografar, o avanço da tecnologia, nada disso multiplica as chances de uma nova coincidência. A exposição ininterrupta, desmedida, às lentes e câmeras de todo tipo acaba por inibir a espontaneidade dos olhares — não o meu, não o do meu pai — mas o desses gênios da morte que, saltando de um tempo a outro, costumam frequentar os estúdios de fotografia.

Marcílio França Castro é autor de Breve cartografia de lugares sem nenhum interesse (2011) e A casa dos outros (2009), ambos publicados pela editora 7Letras. Vive em Belo Horizonte (MG).

Ilustração: Carolina Vigna-Marú