Conto: Digital reverb delay

Marcio Renato dos Santos

Eu não deveria ter permanecido em silêncio. Fui quase um mudo, apesar de a vida não ter me negado a capacidade de ouvir e de reproduzir sons. Sou, aparentemente, um sujeito normal. Cumprimento conhecidos e até desconhecidos com oi, alô, olá, bom dia, como vai? Mas nunca fui muito de falar e acredito que foi esse hábito, quase um voto de silêncio, que acabou por escrever o meu destino.

As pessoas costumam pedir pra eu falar mais alto, com mais volume. Não sei ao certo, mas talvez esse jeito seja uma estratégia. Pra eu não ser ouvido. Pra eu passar quase sem ser notado. E pra evitar confronto. Acabei envolvido em problemas por aceitar palavras e muito mais sem questionamento. Sim. Recebo e cumpro ordens. Deve ser uma programação mental ou herança cármica. Mas não sou vítima, nada disso. Como já falei, pode ser, no fundo, uma estratégia. Afinal, já recebi crédito pelo que não merecia e também não reclamei.

Mas, fazendo as contas, devo dizer, sem que isso soe como queixa, que fui acusado de ações transgressoras que não fiz. E, penso agora, se eu tivesse tentado me defender, talvez tivesse evitado algumas situações que aconteceram em minha trajetória. Passei sete anos dentro de uma prisão. O motivo? Não vem ao caso, mas foi por um crime que não cometi. Confessei o que não havia feito e, a partir da confissão, segui para o confinamento. Apanhei pouco, só no início. E, se dependesse de mim, até hoje estaria lá. Mas fui expulso. Cumpri a pena e esqueci que estava livre. Confesso, mas que isso não se torne público, que peguei gosto. Sim. Passei a ter tempo livre. E muita oportunidade pra permanecer quieto. Também adquiri hábitos, que outros poderiam chamar de vícios. Passei a fumar, o que pode vir a ser um problema a médio e longo prazo. Mas perdi peso e, mais importante, comecei a aprender a controlar a respiração.

XX

Um dia, recebi dinheiros inesperados e assim surgiu uma temporada de descanso, dez dias, dez noites, e pela primeira vez na vida fiquei de frente para o mar, instalado em um apartamento de cobertura. Comia quando tinha fome, bebia quase o tempo todo e olhava o mar. Sol e brisa. E, pelo que lembro, não falei com ninguém durante aquele intervalo. Só balbuciava algo ao pedir um prato em um restaurante ou um drinque na beira do mar. Fora isso, apenas silêncio. E, sem exagero, analiso que aquele talvez tenha sido um dos períodos mais felizes que conheci.

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Estão gritando em algum apartamento próximo daqui, de onde escrevo este texto. Pode ser uma festa. Os gritos continuam, não escuto com clareza, a janela está fechada, não vou abrir. É noite de jogo de futebol? Os gritos seguem. Seriam jovens a compartilhar novidades? Ou adolescentes tentando aproximação? Talvez, meninos e meninas a brincar de algum jogo ou apenas a correr no pátio do prédio onde vivo faz tanto tempo que nem lembro quanto, e me dou conta de que estou me esquecendo de quase tudo.

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Tenho uma inflamação na garganta que dói em noites como esta, de chuva e temperatura de menos de dez graus. Durante uma das primeiras crises, fui até uma farmácia e sem consultar médico comprei analgésico e outro remédio recomendado por uma balconista. A dor passou após os primeiros comprimidos. A inflamação diminuiu na manhã seguinte. Mas nunca me curei completamente e basta chover e a temperatura exigir casacos durante o dia e cobertores durante a noite para que o problema retorne. Já me disseram que não é nada, apenas algo somático. Quem fala isso diz que a garganta é o canal por onde se faz o som da fala humana e, como sou quase não falante, essa inflamação seria uma maneira que eu teria inventado para evitar que o meu som se materializasse.

Falar, como já disse, eu nunca quis muito. Mas pensei em ser cantor, e cantar eu jamais consegui. Nem fechado dentro do banheiro. Nem em uma praia deserta. Nem nos sonhos. Talvez, analiso somente agora, pelo mesmo motivo que tenha me impedido de querer falar. Medo? Vergonha? Timidez? No fundo, um pouco de medo, de vergonha e de timidez. Mas, tenho de admitir, o que sempre me deixou calado foi a sensação de que eu nunca tive nem tenho nada a dizer, nem como dizer e, por isso, não precisava e não devo falar. Afinal, a gente abre a boca pra dizer as coisas, não é isso? Como nunca tive nada a dizer, minha opção sempre foi pelo silêncio. Mas como explicar que desde pequeno eu poderia pensar nesse assunto, nesses detalhes? Não sei, estou confuso, confesso e apesar da confusão me dou conta de que ao escutar os outros eu desconfiava que todos tinham o direito de falar e eu deveria apenas ouvir. E assim a minha vida foi acontecendo, ouvindo, escutando, calando.

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Lembro de ter ido a muitas festas sem receber convite, e achava graça. Mais do que rir, fazia questão de ser visto, odiado até pelos donos das casas. Mas também fui convidado a outras tantas. E em ambas as situações pouco falava. Permanecia com a boca ocupada, com bebida ou comida. Eu não teria o que dizer, e ainda tinha vergonha de estar onde estava, mas desejava frequentar os eventos.

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O tempo passou, nem percebi e então eu precisava de um emprego, qualquer um. Procurei. Bati em uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete portas e nada. Um dia fui nomeado para uma função e aceitei, sem dizer sim, apenas com um sorriso, que foi bem recebido e interpretado como aceito, sim, muito obrigado.

Passei a permanecer por pelo menos dez horas todo dia dentro de um barracão. Lá, tinha de controlar o que entrava e o que saía. Eu era o inspetor. E por mais de dois anos exerci a função com alguma margem de acerto. Até que um dia, uma manhã, fui chamado até a sala do chefe e recebi a notícia de que havia desfalque no estoque. Eu tinha duas alternativas. Primeiro, contar quem era o responsável pelo esquema. A segunda opção seria confessar o crime. Como permaneci calado, surpreso com a acusação, e não reagi, o chefe entendeu que eu era responsável ou cúmplice e, devido a essa conclusão, fui mandado embora, sem direito a nenhum dinheiro e ainda com a condenação de trabalhar em um outro barracão por mais alguns meses, e sem receber salário.

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Dias, meses, anos, décadas depois do incidente do barracão, muito se passou, mas não vou contar nada, apenas que adquiri, ou melhor, construí um discurso. Finalmente eu tinha o que dizer. Também sabia como dizer. Mas, então, chegava, sem que eu me desse conta, a lei do silêncio. Após tanto tempo lamentando não ter o que nem como dizer, quando conquistei a possibilidade de me expressar, não era mais permitido dizer nada. Tentei me comunicar, mas percebi rapidamente que não seria confortável, pra mim, nem pra ninguém, abrir a boca. E por isso continuei em silêncio. Permaneci por dias, meses, anos e décadas calando. Ou dizendo apenas oi, olá, como vai?, tudo bem? Eu sorria de boca fechada.

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Há pouco eu reclamava de uns gritos e dizia que poderiam ser adolescentes brincando ou envolvidos em rituais de aproximação, mas como tive de ir até o banheiro, na volta olhei pela janela da sala, que estava com a lâmpada apagada, e vi a briga. Dois grupos rivais, duas torcidas de times de futebol adversários, trocavam socos, alguns batiam e outros apanhavam. Todos gritavam. Olhei e não fiz nada, permaneci calado, como daquela vez em que pela mesma janela presenciei um assalto e segui mudo ao invés de gritar.

Já faz tempo, tentei torcer por um time de futebol e comecei a frequentar estádios todos os domingos. Conheci algumas pessoas que também frequentavam as arquibancadas, não eram amigos, mas gente com quem eu conversava. Eles torciam, gritavam, xingavam, e eu queria fazer o mesmo. Mas nem com esforço, nem tentando imitar consegui repetir aquele comportamento. Queria gritar, mas não saía som da minha garganta. Queria gesticular, mas nenhum gesto se esboçava a partir de meus braços. Eu continuava imóvel e em silêncio, como costuma ser o meu estar no mundo desde que me lembro das coisas.

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Os anos passaram e, confesso, tenho saudade dos dias ruins, das noites de insônia, dos conflitos que me tiravam o sossego. A lei do silêncio acabou, mas agora nem sei se sinto vontade de dizer algo. Hoje sou um velho, nem sei quanto tempo me resta e parece que tudo vai acabar daqui a pouco.

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Se caminho pela rua principal é por não ter opção. Quero passear, mas cada passo me custa e nem tenho certeza de que estou vendo o que está ao meu redor. Essa cidade, aqui mesmo, onde nasci e sempre morei, mais parece um país para o qual me foi negado o passaporte. Já não conheço ninguém. Como pode? O comerciante de roupas, a dona da loja de perfumes, o chefe da polícia, a mulher mais linda da cidade. Eu sabia quem eram, onde moravam e o que faziam nos dias de folga. Esse som, está ouvindo?, esse som, acho que é de oboé, escutou?

Parece a trilha sonora do meu fim.

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Onde vocês foram? Por que não me escutam? Vocês. Todos. Sim. Cadê todo mundo? Oi. Tudo bom? O quê? Não me conhece? Como não? E você? Ah, também não. Sim, posso dar licença. Você, ei, menino, não tem nada na minha carteira. Pode levar. E você, garota. Calma, calma. Tudo bem, desculpe. Eu me confundi. Me desculpe. Sim, isso não vai acontecer novamente. Mas, o que aconteceu? Onde estarão todos? Agora eu tenho o que dizer. Sei como contar.
Tem alguém aí?

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Tenho gravado a minha voz. Sim, em casa, aqui, no quarto que dá vista pra rua, eu fecho as cortinas e a porta, ligo o aparelho de som. Começo e falo por horas, às vezes adormeço de tanto falar. Depois ligo a gravação pra escutar a minha voz. Conto pra mim coisas que não posso deixar de lembrar, soar, voar, por exemplo, como cheguei onde estou, qual foi a sorte de não ter despencado no precipício. Ninguém vai escutar, saber, crer, mas preciso contar, e tenho quase certeza de que só existi, existo porque falo, digo e escrevo este texto.


Marcio Renato dos Santos escreve ficção há 20 anos. Estreou na literatura com o livro de contos Minda-Au (2010). Mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Marcio é jornalista e atua na Assessoria de Comunicação do Museu Oscar Niemeyer (MON). Vive em Curitiba (PR).

Ilustração: Marcelo Cipis