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Transgressores

Escritores que transgrediram a linguagem (e, muitas vezes, as regras de comportamento) são habitués das páginas do Cândido. De Nelson Rodrigues a Charles Bukowski, de Torquato Neto a Mark Twain — passando por Thomas Pynchon, Irvine Welsh, Michel Houellebecq, Reinaldo Moraes, Paulo Leminski, George Orwell, etc. Até Bob Dylan ganhou uma capa, na esteira de sua controversa premiação no Nobel Literatura.



        Theo Szczepanski

“É importante frisar que os romances de Irvine Welsh estão longe de ser panfletários. São radicalmente críticos, mas não do tipo que oferece alternativas ou respostas fáceis. Pelo contrário: a maioria de suas obras apresenta múltiplos narradores com pontos de vista antagônicos. São mosaicos anárquicos de vozes (às vezes, mais de uma dezena) sem uma identificação explícita de quem está falando (...) Mesmo nos discursos mais violentos e sarcásticos (na superfície, a literatura de Welsh costuma ser engraçadíssima), o leitor compreende pouco a pouco as motivações por trás do ódio manifesto, que invariavelmente remete a um sentimento difuso de inadequação dos narradores ao ambiente onde vivem.”

Bruno Cobalchini Mattos no ensaio “Da Farra da Resistência ao Afeto da Subversão” (edição 62, setembro de 2016)

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“Bukowski é muito verdadeiro e sua temática incomoda porque mostra o lado obscuro da ‘grande sociedade americana’. Ele se ocupa dos desvalidos, das putas, dos bêbados, dos perdedores, daquela camada que o sistema expele e não gosta de mostrar. Ao fazer isso, ele cumpre seu papel. Mas ao mesmo tempo em que desnuda a violência do sistema, ele sabe ser lírico, poético e emocionante. Tudo isso porque ele é um gênio.”

Ivan Pinheiro Machado na reportagem “O Escritor que Abalou o Sonho Americano” (edição 51, outubro de 2015)

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“O escritor português Valter Hugo Mãe, prefaciando a nova edição de Tarântula, livro que Bob Dylan publicou em 1971, chegou a uma palavra-chave para abarcar a multiplicidade de sua obra musical: denúncia. Denunciar é algo maior, mais abrangente e menos circunstancial do que protest songs, rótulo que Dylan despreza. Denunciar é permanente, é uma condição da inquietude. Algo que o isenta do rótulo de ‘herói relutante’ que empunha desde sua célebre primeira e última press conference, em São Francisco, em 1965. ‘Canções não vão salvar o mundo’, decretou. Os seus discos, dizia Dylan naquela coletiva de imprensa, eram mais importantes que os concertos por conta de sua concisão. E, no artesanato de sua obra, revelava que as palavras vinham antes da música.”

Jotabê Medeiros no ensaio “O Pugilista de Duluth” (edição 72, julho de 2017)

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“O tipo de texto que Nelson Rodrigues praticava carrega traços que a crônica está longe de ter — um autoexame profundo, uma enorme coragem para confessar suas próprias mazelas, que permitiram aquela coragem meio suicida de confrontar a opinião média do seu próprio leitor. Estamos falando de um texto superior, que se destaca contra o fundo de uma excelente tradição de textos breves que o Brasil tem.”

Luís Augusto Fischer na reportagem “O Escritor Vence o Tempo” (edição 80, março de 2018)