Perfil do leitor: Fernando Batista

Salvo por Robinson Crusoé


Como o clássico de Daniel Defoe sobre um náufrago em uma ilha deserta mostrou as engrenagens da vida para um menino de 9 anos

Irinêo Baptista Netto


Que a vida de leitor do meu tio tenha engrenado com o relato de um náufrago, um homem isolado numa ilha, não é acidente. Tinha só nove anos e não se deu conta disso na hora, mas Robinson Crusoé foi uma das primeiras vezes que alguém mostrou a ele como a vida funciona. A vida interior.

Havia lido outros livros antes – lembra mais ou menos de uma história de aventura em floresta –, mas nenhum o marcou da forma como o primeiro romance publicado por Daniel Defoe em 1719, quando o autor tinha 59 anos. Os mesmos 59 que meu tio tem hoje.

Fernando Klüppel Batista, meu tio, é uma espécie de leitor em extinção. Ele encara a leitura como um momento muito, muito íntimo. Mas isso é regra entre leitores. Ele é raro porque, embora conviva com livros há mais de meio século, não é o tipo de leitor que organiza a vida em torno da literatura (não que haja algo errado nisso). Então não espere que ele saia por aí tentando converter quem não lê ou que se preocupe com as baixíssimas taxas de leitura do Brasil. Não faz o estilo dele.

Fernando lê da forma como outros assistem à televisão: é parte da rotina. Ele não mantém controle sobre o tempo que passa lendo nem se preocupa com o número de páginas que avança numa noite, no entanto, tem dificuldade de imaginar uma vida sem poder sentar no canto direito do sofá da sala, com um livro na mão, ao lado do abajur que ele e minha tia ganharam há 35 anos como presente de casamento.

No esquema da família, meu tio viveu um tipo de isolamento. É cinco anos mais novo que os três irmãos nascidos antes dele e, em relação aos dois que vieram depois, a diferença também é de cinco anos.

Os grupos se organizaram entre os mais velhos e os mais novos, deixando Fernando no meio, pequeno demais para interagir com os maiores, grande demais para se aproximar dos menores. O isolamento do meu tio o colocou em sintonia com o isolamento de Crusoé.

Depois dessa experiência transformadora, nunca se afastou dos livros, que o acompanharam na escola, no curso de Engenharia Civil, no trabalho, no casamento e, agora, na aposentadoria. Onde quer que ele vá.

Meio século de leituras deu ao Fernando uma noção profunda de humanidade (Guerra e Paz, do russo Liev Tolstói, está entre os seus favoritos) e de História (Ascensão e Queda do Terceiro Reich, de William L. Shirer, idem).

Ele diz gostar de Tolstói pela “postura” do escritor. “Apesar de ser membro da elite russa, sempre combateu a exploração das classes mais pobres, que era maioria absoluta na Rússia de seu tempo”, explica, citando uma frase do autor de Anna Kariênina que sintetiza essa ideia: “Os ricos fazem tudo pelos pobres, menos descer de suas costas”.

Outro autor que o marcou é Jack London, de Caninos Brancos e O Lobo do Mar, uma admiração tanto pela vida do norte-americano, que sobreviveu ao diabo no início da carreira com percalços familiares e de saúde, quanto pelas obras.

Quando se prepara para ler qualquer coisa, ele tira do bolso da camisa um par de óculos pequenos, de aro preto, e o arruma na ponta do nariz. Faz isso com os livros de papel e, nos últimos quatro meses, passou a fazê-lo também com o seu leitor digital, um aparelho simpático pouco maior que um celular grande. Ele não liga para novidades tecnológicas (muito menos para celulares grandes), mas não demorou nada para se adaptar ao leitor eletrônico.

“Tenho até sentido preguiça de segurar um volume de papel com as duas mãos”, diz. Na verdade, o aparelho é um investimento valioso que permite a manutenção da biblioteca do meu tio limitada a 300 volumes (a maioria, herança familiar), guardada em um armário de 1 metro de altura por 1 metro de largura e meio metro de profundidade. Se os livros tomassem conta da casa, as desavenças matrimoniais seriam inevitáveis.

E o raciocínio é matemático. Brincando, meu tio explica que o leitor digital permite guardar em um espaço de 150 centímetros cúbicos o que normalmente ocuparia 500 mil centímetros cúbicos. “Sem falar que, no inverno, dá para deixar só uma mão para fora das cobertas”, diz.

Faço uma pergunta típica de jornalista para saber quais são os gêneros de que ele gosta mais, se prefere ficção ou não-ficção, e a resposta é outra pergunta: “Ficção real existe?”, diz, rindo.

Leitor de narrativas jornalísticas, prefere os livros sobre guerras, enquanto, nos romances, gosta de entrar na cabeça dos personagens e entender suas motivações.

A certa altura da conversa-entrevista, lá pelo terceiro café, diz que eu o faço falar mais do que qualquer outra pessoa (e não só por causa do perfil no Cândido). Faz sentido. Mais do que qualquer outra pessoa, eu gosto de ouvi-lo falar.