Paraná em Revista

Revistas paranaenses ajudaram a contar a história do Estado ao longo do século XX

Daniel Zanella


Quando Cândido Lopes editou, em 1854, o primeiro jornal paranaense, chamado Dezenove de Dezembro, deu início a uma rica tradição de periódicos que ajudariam a contar a história do Estado ao longo do século XX. Além de jornais, como o próprio Dezenove de Dezembro e O Dia, diversas revistas marcaram a vida dos leitores paranaenses.

São publicações heterogêneas, como a Ilustração Parananense, que militava a favor do Paranismo, e a Joaquim, que nasceu justamente para contestar o fervoroso bairrismo que permeava as discussões culturais no Estado, especialmente na capital Curitiba. Mas havia espaço ainda para revistas de variedades, como Panorama, e até publicações mais segmentadas, como o Paraná Econômico. Essas revistas fazem parte do acervo de mais de três mil títulos de periódicos da Divisão de Documentação Parananense da Biblioteca Pública do Paraná.

Editada pelo fotógrafo e cineasta João Batista Groff no auge do Paranismo — movimento de exaltação dos valores e atributos do Estado — a Illustração Paranaense é uma das relíquias do acervo da Divisão. Mensal, a revista circulou entre 1927 e 1930 e exaltava o crescimento, a industrialização e a urbanização de Curitiba e do Paraná. Com colaboradores como os pintores João Turin e Alfredo Andersen, a revista trazia as lendas, mitos e belezas do Paraná, sempre em busca da almejada identidade regional. Pouco antes de morrer, Groff deixou à Biblioteca Pública do Paraná sua coleção particular da revista A Gran-Fina. Editada pelo jornal curitibano O Dia, outra preciosidade do acervo da Biblioteca Pública do Paraná. A revista era semanal e abordava bastidores esportivos, publicava contos, oferecia dicas de comportamento — como na edição nº 79, de 9 de setembro de 19XX, em que são apresentadas dicas para a mulher moderna, alertada a não se casar com um homem para mudar-lhe o temperamento — e excelentes textos sobre literatura, como a matéria que, em 1942, apresentava o jovem Wilson Martins "como uma das mais belas e sadias inteligências da sua geração, um acadêmico de Direito, cultor das belas-letras, jornalista e literato”.

Joaquim: a reinvenção da província

No campo cultural, nenhuma outra revista paranaense fez tanto alarde quanto Joaquim, a revista editada por Dalton Trevisan entre 1946 e 1948 em Curitiba, que, segundo o próprio Trevisan, era uma “homenagem a todos os Joaquins do Brasil”. Joaquim tinha um espírito combativo que fez dela um marco na literatura nacional e alçou o nome de Trevisan ao centro de discussões acaloradas sobre a cultura paranaense e nacional. Em um dos textos mais célebres da revista, Trevisan faz duras críticas à poesia do simbolista paranaense Emiliano Perneta, o qual considerava um “poeta medíocre, feitor de uma poesia de casinha de chocolate”. “Pobre de quem lê 'Ciúme da Morte' [famoso poema de Perneta], em vez de Dostoiévski”, escreve Trevisan. A ironia fica por conta do endereço da redação da revista, localizada na Rua Emiliano Perneta, 476, no centro de Curitiba.

Escreviam e ilustravam o periódico nomes como Poty Lazarotto, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade e Wilson Martins. O próprio Dalton Trevisan publicou contos e poemas na revista. Na segunda edição, de junho de 1946, Carlos Drummond de Andrade, em carta endereçada à redação, escreve: “Estou recebendo o primeiro número de Joaquim. Ainda bem que continuam a surgir no Brasil as revistas de moços. Porque os velhos e os simplesmente maduros estão calados, e na sua plenitude parece que desistiram mesmo dessa tarefa que toda geração se impõe quando está nascendo: reformar a vida.”

Conforme título do trabalho de doutorado do escritor e crítico Miguel Sanches Neto, as 21 edições da Joaquim representaram a “reinvenção da província”. O próprio Sanches Neto foi o responsável, no ano de 2000, quando era diretor da Imprensa Oficinal do Paraná, pela edição fac-símile da revista.

Variedades

Outra revista que fez sucesso entre os leitores paranaenses foi a Panorama. Fundada em Londrina, em 1951, pelo jornalista e professor Adolfo Soethe, mudou sua sede para Curitiba uma década depois. Com correspondentes em diversas capitais brasileiras, a revista apresentava uma variedade enorme de assuntos, com matérias que descreviam desde as belezas naturais da Ilha do Mel, no litoral paranaense, até o “mundo corrupto dos cassinos curitibanos”.

“Panorama tinha colaboradores fixos, mas não uma equipe assalariada”, diz o escritor e jornalista Roberto Muggiati, que nos anos 1960 foi colaborador da revista. “Havia matérias políticas, assuntos mais amenos e perfis sociais. O colunista Dino Almeida [conhecido jornalista da imprensa paranaense] fazia reportagens e dava alguma abertura para assuntos culturais. Publiquei uma reportagem de quatro páginas, no número 99, de agosto de 1960, com o título de 'Jazz: Boemia Musical na Madrugada', tendo como personagem principal o trombonista Raul de Souza. A matéria trazia fotografias, à noite, das ruas de Curitiba, feitas pelo genial Sérgio Matulevicius, que cuidava do departamento fotográfico da revista. Sérgio depois foi trabalhar no Rio, na Cruzeiro e na Manchete.”

A Revista da Guaíra foi contemporânea da Panorama e teve grande influência na década de 1950. Foi fundada em fevereiro de 1949 pelo alagoano radicado em Curitiba Oscar Joseph de Plácido e Silva (1893-1963) que, influenciado pela numerologia, assinava De Plácido e Silva. A Revista da Guaíra contava com a colaboração de jornalistas que viriam a se tornar grandes nomes do jornalismo local, como Luiz Geraldo Mazza. Também publicava editoriais politizados sobre temas de incidência nacional, como o salário mínimo, a liberdade de expressão e a inflação. De concursos de robustez infantil a anúncios sobre os nobres benefícios da Emulsão de Scott — que à época aterrorizou milhares de crianças —, a revista também repercutia em setembro de 1954 a morte de Getúlio Vargas. Nas legendas fotográficas, os comunistas são acusados de promoverem a desordem verificada em algumas manifestações populares. A Revista da Guaíra cessou a sua circulação no começo da década de 1960, após um incêndio que destruiu sua sede.
A Divulgação Paranaense, de propriedade de Arnaud Ferreira Velloso — hoje rua da Cidade Industrial — circulou nas décadas de 50 e 60. Fechou em abril de 1965. Toda em preto e branco, mesclava acontecimentos sociais com poesia e teorias literárias, e contava com colaboradores como Dino Almeida e Serafim França. Tinha perfis com jovens do mês, espaço nobre onde senhoritas da high society destacavam seus livros preferidos e o padrão ideal de homem. Também repercutia-se de forma bem amistosa as realizações dos governos locais.

Serviço:
O acesso às revistas é mediado pelos funcionários da BPP e aberto ao público. A Divisão de Documentação Paranaense da Biblioteca Pública do Paraná atende de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 20h; aos sábados, das 8h30 às 13h.