Na Biblioteca de Paulo Venturelli

O bunker de Venturelli

O escritor e professor aposentado adquiriu um segundo imóvel, onde escreve e relê os 15 mil livros que reuniu durante a vida


Kaype Abreu e Lucas de Lavor
Fotos: Kraw Penas
Paulo Venturelli, 64 anos, vive em um apartamento de 100 metros quadrados, no bairro Bacacheri, em Curitiba, e tem outro imóvel, no mesmo prédio, com a mesma metragem, destinado à sua coleção de 15 mil livros. As obras distribuídas em estantes e em praticamente todas as paredes sugerem que o local é uma espécie de bunker, onde ele passa a maior parte do tempo desde que se aposentou, em setembro de ano passado, da função de professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Só não dorme e não faz refeições no espaço em que escreve durante as manhãs e, da tarde até a noite, se dedica à leitura. 

Ainda na infância, escutou uma frase que iria transformá-lo em leitor. Um professor comentou que para ser inteligente uma pessoa deve ler um livro por semana e em seguida reler a obra para compreender as nuances do texto. “A partir daquele dia, mergulhei de corpo e alma na literatura”, diz. 

O catarinense nascido em Brusque e radicado em Curitiba desde 1974 enfatiza que, mais do que ler, ele relê. Venturelli nem lembra mais quantas vezes releu Boitempo, de Carlos Drummond de Andrade, o primeiro livro que comprou. Diz ter relido 11 vezes Dom Casmurro, de Machado de Assis, e leu Os irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski, em quatro momentos diferentes da vida. 

A biblioteca é resultado da curiosidade intelectual de Venturelli e também de uma idiossincrasia: ele tem o hábito de fazer anotações nas páginas dos livros. Com o passar do tempo, o leitor se tornou escritor. Já publicou mais de 20 obras, com destaque para Visita à baleia — vencedor do Prêmio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) 2012 e segundo colocado na categoria infantil do Prêmio Jabuti 2013. 

Em meio ao acervo, há espaço para os cadernos onde escreve, à mão, os esboços de seus próprios livros. A biblioteca de Venturelli também abriga souvenires do Clube Atlético Paranaense (CAP), outra paixão de sua vida, capaz de tirá-lo do bunker e do contato com o universo das letras.




Boitempo (1968), de Carlos Drummond de Andrade 

“O primeiro livro que eu comprei, em 1969. Tinha saído do colégio, morava em Joinville e trabalhava como desenhista. O preço do livro equivalia ao valor que eu gastava no almoço. Deixei de almoçar para comprar o livro, que fala daquele mundo da fazenda que foi a infância do Drummond.”

As aventuras de Sherlock Holmes (1892), de Arthur Conan Doyle

“Na infância eu não lia porque não tinha livro em casa. Posteriormente, passei a conhecer alguns autores. O primeiro que impressionou foi o Conan Doyle, criador do Sherlock Holmes. Depois, conheci Karl May. Recentemente descobri que era o autor preferido do Hitler. Não é uma boa referência.” 

Coleção Romances Policiais, edição Paulinas dos anos 1960

“Esse livro me fez a cabeça naquela época. Hoje em dia, não gosto ler romance policial. Parece uma represa que eles vão montando e montando: descobre-se o assassino, rompe a represa e não tem mais nada. Mas naquela época me deixava tenso. Eu ficava grudado no enredo.” 



Nova antologia pessoal (1968), de Jorge Luis Borges 

“Borges é um escritor que eu me recusava a ler quando era jovem porque ele foi condecorado pelo Pinochet, ditador do Chile. Eu falava: ‘Ah, esse cara é fascista, não vou ler’. Até que um dia li uma antologia pessoal. Fiquei fascinado. Falei: ‘Dane-se se é de direita’”. 

Verdades e mentiras na literatura — Os dez mandamentos do escritor (2011), de Stephen Vizinczey 

"São estudos sobre literatura. Stephen Vizinczey é húngaro e viveu toda a ditadura comunista. É bem conservador nas posições políticas. Mas, nessa obra, ele faz uma série de estudos sobre vários autores. Trata, por exemplo, da forma de definir e se relacionar com a literatura, da relação da razão, da emoção e da realidade com a literatura.”



Como o futebol explica o mundo (2005), de Franklin Foer

“Quando criança, detestava tudo que tinha a ver com esporte porque eu não praticava nada. Mas, na adolescência, tive um amigo fanático pelo Corinthians. Ele me converteu. Como o futebol explica o mundo estuda a globalização por meio do futebol.”

Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), de Machado de Assis 

“O grande livro. O grande momento da minha vida foi no científico, atual ensino médio, quando li, pela primeira vez, Memórias póstumas de Brás Cubas. Minha cabeça implodiu. Não acreditava que aquele livro havia sido escrito em 1881. Me apaixonei por Machado. Pensei: nossa, se o Machado fez isso no século XIX, o que eu posso fazer no século XX?"

 Yerma (1934), de Garcia Lorca 

“Adaptei várias histórias para o teatro. A que eu mais gostei foi Yerma, de Garcia Lorca. É uma história muito bonita, de uma mulher que não pode ter filho. Transformei o palco todo num útero. Naquela época, achei que era uma boa metáfora sobre a situação estéril do Brasil, com censura e outros problemas, em 1987.” 

O homem que amava cachorros (2013), de Leonardo Padura 

“Padura vai contar o assassinato de Trotsky e toda a podridão do Stalin. É um romance extremamente político e literário. Um livro profundo nas reflexões que apresenta. Me desiludiu ainda mais sobre política. Você pensa uma coisa e os fatos mostram que [a coisa] é outra.