Especial Capa: Crônica

Cronista por acaso

Carlos Herculano Lopes

Até o dia 22 de junho de 2002 eu nunca havia escrito uma crônica, gênero que, durante muito tempo, alguns chegaram a definir, injustamente, como uma prima pobre do conto. Mas na manhã daquele dia, ainda sob o impacto da perda do jornalista, romancista e cronista Roberto Drummond, que havia morrido de infarto na noite anterior, justamente no momento em que o Brasil enfrentava a Inglaterra pela Copa do Mundo (ganhamos o jogo por 2x1, com gols de Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho), o nosso diretor de redação aqui no Estado de Minas (jornal onde Drummond trabalhava), Josemar Ximenez, me pediu, devido à minha longa amizade com o escritor e jornalista, que eu escrevesse um texto de despedida, em sua homenagem.

Esse deveria sair na edição do dia 23, no Caderno de Esportes, no mesmo espaço no qual Drummond, três vezes por semana, falava sobre futebol, muitas vezes, sem conseguir disfarçar a grande paixão que tinha pelo Atlético Mineiro. Já no “Caderno de Cultura”, todas às terças-feiras, ele era titular de outra crônica, essa sobre temas variados. Tinha a companhia, não necessariamente nessa ordem, dos escritores Fernando Sabino, Frei Beto, Alcione Araújo, Affonso Romano de Sant´Anna, Helena Jobim e Cyro Siqueira.
Desafio e tanto que, em meio àqueles instantes de comoção para todos nós, colegas de labuta do autor de A morte de D.J. em Paris e Hilda Furacão, entre tantos mais, me propunha o nosso editor. Cheguei até a me questionar se daria conta do pedido, pois estava ainda, na companhia de outros colegas, ajudando não só a escrever as matérias sobre a morte do Roberto, como também a repercuti-la junto a escritores, além de passar informações para vários jornais do país, que no dia seguinte deram ampla cobertura do fato.

Mas como quem está na chuva é para se molhar, como reza o velho ditado, acabei aceitando a proposta do Josemar e escrevendo a crônica Adeus, Roberto, que foi publicada no dia seguinte. Posteriormente ela sairia também no livro Entre BH e Texas, que lancei pela Editora Record. Se a crônica deu boa repercussão ou não, confesso não ter ficado sabendo. Mas já na segunda-feira (o texto em questão saiu na edição de sexta), o Josemar me procurou novamente, e pediu que escrevesse mais uma história, essa para sair no dia seguinte, no “Caderno de Cultura”, no espaço até então ocupado pelo Roberto. Senti outro frio na barriga.

Por uma dessas coincidências, no final da tarde daquele dia, enquanto fazia uma caminhada na Praça da Assembleia, aqui em Belo Horizonte, após ter chegado do trabalho, me encontrei com uma amiga, cujo nome me fugiu; ela estava visivelmente abalada. “O que aconteceu?”, me lembro que perguntei a ela, já antevendo alguma tragédia: morte de algum parente, essas coisas, às quais todos estamos sujeitos.
“Você acredita que ontem, sem mais nem menos, a empregada deixou a porta da casa aberta, e o meu cachorrinho, o Teleco, desapareceu?”, ela me disse, com lágrimas escorrendo pelo rosto. Tentei consolá-la como pude, demos algumas voltas na Praça, tomamos água de coco, e, quando voltei para meu apartamento, ali nas proximidades, vi que havia arranjado assunto para a tão ansiada crônica. Logo após o banho, para não perder nenhum detalhe da conversa, fui para o computador e a escrevi.

“Por onde andará o Teleco?”, foi o nome da história que saiu no dia seguinte, com boa repercussão, devido aos e-mails recebidos, e pelos comentários dos colegas. Uma rede de televisão, aqui de Belo Horizonte, chegou a fazer uma matéria com a dona do cachorrinho, que por sorte acabou aparecendo dentro de uma drogaria. Estava trêmulo e morrendo de medo. Mas felizmente são e salvo. Tenho impressão que, depois daquele dia, a empregada nunca mais deixou a porta da casa aberta.

Se estou contando tudo isso, depois de tantos rodeios, é para também dizer ter sido assim, dessa maneira tão inesperada — devido à morte de um amigo querido — que a crônica entrou na minha vida. Daquele 22 junho de 2002 para cá, no “Caderno de Cultura” do Estado de Minas, onde ainda trabalho, e revezo, nas crônicas, com Maria Esther Maciel, Marina Colasanti, Arnaldo Vianna, Affonso Romano de Sant' Anna e Fernando Brant. Já escrevi cerca de 600 textos, sobre os mais diversos assuntos. Uma vez por mês, na Revista Encontro, que também pertence aos Diários Associados, tenho outro encontro com o leitor; esse sim, com tema direcionado: a crônica deve ser sobre um bairro da capital mineira que, naquele edição, está sendo enfocado. Já escrevi sobre a Santa Tereza, Sagrada Família, Ouro Preto, Mangabeiras e outros.

“O que é a crônica?”, me perguntou há alguns meses um aluno da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, onde fui participar de uma palestra sobre o gênero, a convite da professora Constância Duarte. “Perguntinha danada de difícil, que já foi feita milhares de vezes, a incontáveis cronistas”, pensei com meus botões.

Mas refleti um pouco, estufei o peito, e respondi: “A crônica, meu amigo, é um olhar, uma frase, um pequeno detalhe do dia-a-dia”. “Como assim?”, ele quis saber. “Qualquer coisa pode ser motivo de uma crônica, basta que tenhamos sensibilidade e perspicácia para perceber, e registrar no papel”, falei.
“Você pode dar um exemplo?”, insistiu o aluno que, depois me confessou, ser candidato a cronista. Então falei para ele do dia em que tomei um ônibus de volta para casa. Estava lotado. De repente, como por encanto, sentou a meu lado uma militar negra, fardada, e com revólver na cintura.

Era maravilhosa. Não resisti, e disse: “Com todo respeito, mas você é a soldado mais linda que já vi”. Ela então abriu um sorriso, apontou para as divisas, e respondeu: “Soldado, não, sargento.” Conversamos mais um pouco, a moça deu o sinal, desceu e, no outro dia, escrevi Beleza fardada, crônica que causou o maior reboliço nos quartéis de Belo Horizonte, com todos querendo saber quem era a beldade.

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Fernando Sabino, Hélio Pellegrino e Carlos Drummond de Andrade: mineiros que reinventaram a crônica.

Conversei mais um pouco com os alunos, até que o assunto, como não poderia deixar de ser, voltou-se para os grandes mestres mineiros do gênero, que não poderíamos deixar de reverenciar: Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Helio Pellegrino, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende, Affonso Romano de Sant´Anna, Manoel Lobato e tantos outros. Isso sem falar no grande Rubem Braga, que não era mineiro, mas cuja carreira começou aqui em Belo Horizonte, no Diário da Tarde, no início da década de 1930. Só depois mudou-se para o Rio, onde viria a se consagrar como um dos grandes escritores desse país.


Carlos Herculano Lopes é escritor e jornalista, autor, entre outros, dos romances Poltrona 27, O Vestido, Sombras de julho, e dos livros de crônicas O pescador de latinhas e A mulher dos sapatos vermelhos. Vive em Belo Horizonte (MG).


Os quatro cavaleiros da crônica brasileira


Os mineiros Fernando Sabino (1923-2004), Paulo Mendes Campos (1922-1991), Otto Lara Resende (1922-1992) e Hélio Pellegrino (1924-1988) foram, e são, alguns dos responsáveis pela crônica brasileira ter adquirido respeito e qualidade literária. Individualmente, mas também em conjunto, escreveram textos líricos recriando os costumes, os personagens e o ambiente do Brasil da segunda metade do século XX.

No livro O desatino da rapaziada: jornalistas e escritores em Minas Gerais, o escritor e também cronista Humbert Werneck dedica o capítulo “Os quatro cavaleiros de um íntimo apocalipse” ao quarteto. Werneck contextualiza o momento em que eles despontaram e, pelas mãos de João Etienne Filho, incentivador de talentos, encontraram oportunidades para escrever.

“'Eu não descobri ninguém', habituou-se a retrucar Etienne, inchado de modéstia. Foi por seu intermédio, em todo caso, que escritores como Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino fizeram sua entrada na literatura. Dos quatro 'vintanistas', só Fernando Sabino não era inédito quando conheceu Ettine: precoce, aos doze anos publicara um conto na revista Argus, da polícia mineira”, escreveu Werneck, na obra sobre os autores de Minas Gerais.

Os quatro produziram textos que até hoje são irretocáveis: cada palavra parece estar no lugar certo. Otto Lara Resende atuou na imprensa, além de lecionar e ter sido advogado — Bom dia para nascer reúne crônicas que ele publicou originalmente no jornal Folha de S.Paulo. Fernando Sabino passou por diversos veículos, jornais e revistas, sobretudo como cronista — publicou, em 1956, o romance O encontro marcado, um clássico da literatura brasileira. Paulo Mendes Campos ganhou a vida na imprensa, foi fiscal de obras e assumiu uma diretoria na Biblioteca Nacional, além de ter traduzido obras de Júlio Verne, Pablo Neruda e William Shakespeare. Finalmente, Helio Pellegrino tornou-se um dos psicanalistas mais requisitados do Rio de Janeiro, militou na política e escreveu artigos, alguns deles reunidos em A burrice do demônio, livro esgotado, mas disponíveis em sebos.