Entrevista | Nélida Piñon

“Nenhum enigma nos protege da nossa própria brutalidade afetiva”


O escritor Luis Eduardo Matta bate um  papo com Nélida Piñon, uma das principais autoras do país e que em novembro lança o livro de contos A camisa do marido.


Uma das mais importantes vozes da literatura brasileira contemporânea, Nélida Piñon tem muito o que contar. Na sua obra, os afetos, a imaginação e as memórias se entrecruzam num mosaico narrativo singular, de envergadura mítica, épica. Ler seus livros é embarcar em travessias embaladas por uma prosa elaborada e de ritmo quase musical em que as palavras soam como instrumentos perfeitamente harmonizados de uma orquestra a um só tempo múltipla e intimista que, não raro, dá à sequência de páginas um caráter de sinfonia. Reverenciada dentro e fora do Brasil, tendo recebido diversos prêmios importantes, como o Juan Rulfo, em 1995, e o prestigioso Principe de Astúrias, em 2005, Nélida estreou na literatura em 1961 com Guia mapa de Gabriel Arcanjo e, desde então, publicou duas dezenas de livros, entre romances, memórias, coletâneas de contos, de ensaios e de crônicas, além do infantojuvenil A roda do vento. Após lançar seus Melhores contos, pela editora Global, seu novo livro está a caminho. Trata-se de A camisa do marido, uma reunião de contos inéditos em que a escritora e imortal da Academia Brasileira de Letras se debruça sobre a complexidade das relações e dos sentimentos em torno do complexo núcleo familiar. O livro será lançado em 6 de novembro, durante uma sessão de autógrafos numa livraria do Rio de Janeiro. A seguir, os principais momentos da conversa, feita no apartamento da escritora.

Seu próximo lançamento é o livro de contos A camisa do marido. Você já fez belíssimas incursões pelo formato, como em O calor das coisas, Tempo das frutas e aquele que, pessoalmente, me marcou mais, Sala de armas, em especial o conto “Colheita”, para mim uma pequena obra-prima, em que você tece uma metáfora da condição da mulher e da relação do mundo com a voz feminina. O que podemos esperar de A camisa do marido?
Estou quase dizendo que esperem (risos). Meu editor, Carlos Andreazza, está fascinado com a violência dos sentimentos, com a violência das relações humanas no livro. E quem acabou de fazer uma apresentação pequena, mas brilhante, foi a Lya Luft. O livro seria maior, mas cortei alguns contos de propósito. Eu quis me fixar no núcleo familiar. A família, afinal, é a sociedade. Eu falo do fracasso e dos desacordos das relações, do depauperamento das realidades e, ao mesmo tempo, da coragem de revelar sentimentos árduos, duros, primitivos... Há uma tonalidade primitiva em muitos contos. Acho muito importante ser capaz de conjugar esse lado primitivo dos sentimentos, que, de verdade, pautam as sociedades cosmopolitas, que pensam que estão ausentes disto e não estão. Ninguém está protegido. Nenhum véu, nenhum enigma nos protege da nossa própria brutalidade afetiva.

Nélida, nos conhecemos há anos e sempre tive curiosidade em lhe fazer uma pergunta: em que momento exatamente surgiu o seu primeiro impulso de escrever?
Eu acho que surgiu quando comecei a ler. Porque o livro tem uma dinâmica tão extraordinária quando você, sobretudo, é pequena, que te alça a uma categoria de exceção. Então eu me sentia uma pequena heroína, alguém capaz de singrar os mares. Eu me imaginava o Sinbad, eu sempre me imaginei uma aventureira, porque eu queria desfrutar das sensações que os aventureiros narravam nos livros. Tendo em vista, então, essa situação de prazer que a leitura me propiciava e, sobretudo, me animando a ser uma outra pessoa, a aderir ao corpo do outro e ser uma aventureira, decidi que também deveria escrever para sentir as emoções do autor. Porque eu supunha que o autor tinha vivido tudo o que ele contava. Tudo começou aí: a minha ânsia em relação à literatura e o meu enamoramento pela narrativa.

Uma história muito interessante é a que cerca a publicação do seu primeiro livro, Guia mapa de Gabriel Arcanjo. Conte um pouco a respeito.
Pela minha formação intelectual e familiar, eu oscilava muito entre leituras libertárias e até libertinas, por assim dizer, porque eu tinha acesso a qualquer tipo de literatura. E, ao mesmo tempo, tinha uma boa formação teológica para a minha idade, por ter estudado em colégio alemão de freiras beneditinas e também por vir de uma família de cunho religioso. Eu era muito atraída pelo pecado no que ele buscava tangenciar a realidade. Sentia que o pecado não era o pecado que merecesse a condenação. Era o pecado que você o praticando se transformava em uma via de liberdade. Então, eu criei uma personagem feminina atrevida — eu já era uma feminista sem saber —, a Mariela. Ela se dá conta de que o pecado é um transtorno para a liberdade do ser humano. Há um grande debate teológico e poético entre essa voz feminina e um anjo, que de certo modo, é engolfado pela voltagem poética e pelos debates teológicos da moça. Acho que nesse livro exercito uma liberdade poética sem limites, porque eu estava à margem de todo o sistema literário, não convivia com escritores. Então, fiz esse meu livro sem pensar nas consequências. A estética não pautava as minhas decisões estéticas. A estética estava onde devia estar no texto e na minha paixão de averiguar o que era compor uma história, o que era imprimir a essa linguagem uma suposta originalidade que o próprio texto exigia. A estética era uma exigência do texto e não uma exigência da escritora.

De que forma o fato de você ter nascido no Brasil, vinda de uma família que emigrara da Galícia, afetou a sua produção literária?
Foi extraordinário, porque eu convivia com duas realidades. As pessoas, normalmente, convivem com os limites da sua casa. É difícil transbordar, passar para outros estágios dentro da sua própria casa. Então, eu convivia com comidas brasileiras e, ao mesmo tempo, comia polvo que chegava da Europa. Desde pequena escutava falarem da Galícia como uma terra que fatalmente eu iria conhecer; havia territórios fora do Brasil que eu teria obrigação de conhecer. Portanto, arrastava na minha sensibilidade, na minha imaginação e no meu imaginário, não só a Galícia, mas a Espanha, a Europa, e isso me levou muito cedo a entender os gregos, que são a minha paixão, os romanos, os hebreus, eu cruzava sempre todos os séculos e adorava saber como estavam os gregos no Século VIII a.C., como era o Oriente Médio neste mesmo período... Isso fez com que eu não aceitasse mais limites, me deu uma liberdade extraordinária. Um dos méritos do escritor, afinal, é reivindicar a liberdade no texto e no pensamento. E me deu também o sentimento de línguas porque vi como eu era antiga. Essa foi uma das maiores conquistas de ser filha da imigração. Daí um raciocínio que faço muito: para você ser moderna, você tem que ser arcaica, você tem que ter frequentado as Argólidas gregas, por exemplo, você deve ter convivido com Agamenon. Por isso que Homero é uma pessoa que eu amo.

Ainda sobre suas origens, vejo você como uma pessoa de cabeça aberta e um imaginário profundamente cosmopolita. É como se nada no mundo lhe fosse estranho. Essa vivência entre os dois lados do Atlântico contribuiu para isso?
Muito. É interessante que quando fiz minha primeira viagem à Galícia, pensei que minha ida era diferente da viagem do meu pai que, ao chegar ao Brasil no início da sua vida, perdeu metade do coração, pois uma parte ficou na Espanha. Eu, ao contrário, quando atravessei o Atlântico e lá cheguei pela primeira vez, ganhei corações que me faltavam. Tornei-me uma camponesa. Tenho, até hoje, uma sensibilidade aguda em relação ao campo. Sou uma mulher cosmopolita, mas a minha raiz essencial, que é um dos fundamentos da minha sobriedade, uma sobriedade que contrasta com a minha efervescência narrativa, é o fato de eu haver sido uma camponesa, de haver sido alguém que tinha como fundamento a terra, a colheita, o arado, as vacas, os animais eternos. Tenho uma nostalgia do eterno, de tudo que veio de muito longe e lá ficou, mas que vem para a minha contemporaneidade quando eu resgato. Sou responsável pela tarefa de resgatar imagens perdidas.

Como você enxerga a leitura no Brasil de hoje? Acredita que os brasileiros estão lendo mais, como se tem afirmado?
Não vejo isso. Talvez eu esteja equivocada, espero estar. O que vejo é um empobrecimento intelectual no cotidiano, na compreensão dos fenômenos humanos, na dificuldade de se exprimir. Há uma carência léxica muito grande. Mas sinto também, por outro lado, que há uma curiosidade intensa. E que talvez nós estejamos numa fase de formação que deveríamos ter tido muito antes. O Estado brasileiro foi irresponsável e de certo modo, nos manteve nessa apatia intelectual. A educação no Brasil é de extraordinária precariedade, portanto eu fico impressionada quando dizem que aumentou o índice de leitura. Talvez tenha aumentado o índice de curiosidade e as pessoas, devagar, estejam tentando ler aquilo que no início elas não entendiam. Porque a leitura tem um drama. Ela é tão extraordinária, ler é tão revolucionário, que modifica a sua cabeça, afeta o seu coração, alarga os seus sentidos, o seu sexo... Seu sexo enriquece muito mais com o erotismo da leitura. Talvez estejamos vivendo essa experiência única, estejamos nos dando conta do que é que nos faltava: era a leitura.

Qual a sua avaliação sobre o ensino de literatura nas escolas brasileiras? Um ponto polêmico: Machado de Assis, nosso grande mestre das letras, costuma ser mal recebido por alunos nas carteiras escolares, que encontram dificuldades em mergulhar em sua obra. Como estudiosa e amante da literatura, o que você proporia para que as nossas escolas efetivamente formassem leitores com genuíno gosto pelos livros? Machado, com bons mediadores de leitura, seria uma alternativa?

Não. Eu não sou favorável a que antecipem os feitos e os fatos. Machado é o grande gênio brasileiro e tenho paixão por ele, mas ele exige uma sensibilidade intelectual muito apurada. Nós não podemos arriscar em estabelecer incompatibilidades entre os jovens leitores e Machado, senão eles vão odiá-lo pelo resto da vida, como nós, quando jovens, odiávamos análise sintática. Acho que tudo tem sua hora. Machado merece ser amado e não que se ponha sobre ele um estigma de autor impossível.

Um trecho de seu mais recente livro, Livro das horas, me impactou sobremaneira. Dele, destaco a sequência: “Habituei-me a sofrer dos demais uma avaliação estética que redunda em perdas, em desmoralização pessoal(...) Querem à força afugentar o leitor que se aventure a me ler”. Como é a sua relação com a crítica literária? Você enfrentou ou ainda enfrenta preconceitos na sua carreira?
Enfrentei muitos. Mas quero que saibam que digo isso sem ressentimento, sem mágoa. Foi a primeira vez (em Livro das horas) que mencionei isso em todas essas décadas. Vocês hão de convir que fui muito discreta e muito reservada. Mas achei que era o momento de dizer, até para ajudar os jovens, mostrar como é necessário dar combate àqueles que tentam silenciar você. Porque o que sofri foi uma espécie de condenação ao silêncio, ao mutismo, para eu não continuar a escrever. Em compensação, tive estímulo de outras pessoas, que foram maravilhosas comigo. Talvez eu gere um certo incômodo por ser mulher. Não querem aceitar uma mulher que seja capaz de fazer uma obra séria, de labor intelectual sério e que tenha competência literária. Ainda hoje é difícil para as mulheres serem reconhecidas. Condenar uma obra ao hermetismo é a melhor forma de calar você para sempre se você for fraca.

Você é uma escritora bastante celebrada no exterior, com obras traduzidas para vários idiomas, além dos muitos prêmios que recebeu, como o Juan Rulfo e o importante Príncipe de Astúrias. A literatura brasileira ainda sofre para ser mais conhecida além das nossas fronteiras?
Sem dúvida. Nós temos, de vez em quando, pequenas euforias, autores nossos que pensam que estamos conquistando algo, mas o fato é que ainda somos periféricos. Quem conhece bem o mundo europeu, o mundo americano, conhece bem os grandes tabloides, os grandes suplementos literários, vê que nós quase não aparecemos. Não deixamos ainda uma marca profunda, extensa, transformadora no mundo.

A que você atribui isso?
Primeiro, à língua portuguesa, que é muito menos estudada e conhecida do que o espanhol, por exemplo. O espanhol é uma língua que transita pelo mundo inteiro. Já há muito o grande gramático Nebrija dizia que os espanhóis eram conquistadores também na língua. Além disso, houve sempre um trânsito muito intenso entre o mundo hispânico nas Américas e Madri. Madri tinha grande prestígio intelectual, de modo que os escritores jovens tomavam o rumo da Europa. Em Madri eles encontravam língua espanhola esperando por eles encarnada numa figura histórica e eram acolhidos. Tanto que você vê que o movimento modernista de língua espanhola nas Américas ocorreu muito mais cedo do que o brasileiro.




Lançado em 2012, Livro das horas  mistura memória, autobiografia e ensaio. Nélida revive memórias afetivas que emergem a partir de um vertiginoso turbilhão de lembranças e emoções. E a cada página lida fica claro  ao leitor que independente de sua vivência ou da riqueza de suas lembranças, sua história de amor sempre foi uma só: com a palavra.









Um dos livros mais conhecidos de Nélida Piñon, A república dos sonhos foi lançado em 1984. No romance, a autora busca em suas raízes galegas inspiração para criar uma saga sobre os imigrantes que aportaram no Brasil na virada do século. A vida de Madruga, camponês que deixa a Galícia para embarcar num navio para o Rio de Janeiro, descreve uma trajetória de êxitos e fracassos que frequentemente põem à prova os ideais do personagem.







Mais conhecida por seus romances, Nélida também fez incursões bem- -sucedidas ao conto e à crônica. Em Até amanhã, outra vez (1999), a escritora reúne crônicas publicadas na grande imprensa. Os textos trazem reflexões e confidências de Nélida, que, partindo de detalhes absolutamente banais, conduz o leitor por caminhos inesperados. Os temas são os mais diversos: Bill Clinton, clones do futuro, B.B. King, o mito Kennedy, Joãosinho Trinta, prazeres da mesa e cidades européias, entre outros.






 Sala de armas (1973) reúne 16 contos de Nélida Piñon numa narrativa que mescla a realidade e o sonho. Nessa atmosfera onírica, os contos flertam com o realismo fantástico, levando o leitor a passar por diversos aspectos da vida humana, de maneira ao mesmo tempo grotesca e refinada.








Vozes do deserto (2004) mostra o papel que uma mulher transgressora pode desempenhar em uma sociedade patriarcal. Através de uma narrativa envolvente, Nélida acompanha a história de Scherezede, a jovem mais brilhante da corte, que, para salvar as jovens do reino das garras do poderoso Califa, decide casar-se com ele. Filha do Vizir, que devia servidão ao poderoso monarca, ela não acredita que o poder do Califa possa determinar o fim de sua imaginação.