Em busca de Curitiba | Guylherme Custódio

Uma morte trágica

Guylherme Custódio



Qual será o tempo de vida útil de um ser humano?
Passou a questionar-se após ter ouvido o termo “vida útil” na TV.
Um gole de vinho e os questionamentos continuaram.
Qual seria a entidade responsável por fazer os testes e emitir certificados? E as recomendações para melhor utilização?
Essa ele sabia. Não beber, não fumar, não usar drogas, manter uma alimentação saudável e praticar esportes.*
Está tudo na etiqueta, mas poucos leem o asterisco.
*Para ampliar o tempo de utilização da vida não viva.
Surgiram mais dúvidas do que respostas. Os principais questionamentos eram aqueles que indagavam sobre a sua própria vida.
Estaria próxima do fim? Seria ele um produto que rendeu bastante, como aqueles antigos, feitos para durar? Afinal, teve uma vida útil?
Vivia sempre como se houvesse amanhã, e havia. Um dia igual ao que se passou. Mais um dia solitário.
O vinho deixou seus pensamentos cada vez mais confusos. Sem ninguém para se opor, sempre concordava com suas proposições. Ainda assim, se tornava repetitivo para afirmar cada vez mais o que dizia.
Seu diálogo solitário tinha longas durações. Quando percebia estar indo longe demais, ele mesmo colocava freios. “Cala a boca, Alberto, olhe a besteira que você está falando.”
Tinha certa intimidade consigo mesmo. Uma relação próxima e respeitosa. Conheciam os limites um do outro e só passavam desta linha quando bebiam. Aí desandavam a conversar, se abriam um com o outro e se abriam as emoções.
A conversa era possível somente entre eles. Jamais criara intimidade com alguém ao longo da vida. Amigos jamais tivera. No máximo colegas. Desde o tempo da escola mantinha o afastamento. Nunca soube a resposta correta para a pergunta de quem era seu melhor amigo.
Com o caminhar dos anos, os poucos contatos ficaram pelo caminho. Agora, mesmo que quisesse, seria impossível voltar atrás para fazer um resgate. Mal lembrava o nome daqueles maus amigos que (não) tivera.
Às vezes pegava uma velha caderneta de telefones. Se esforçava para descobrir quais eram as pessoas a quem correspondiam aqueles nomes. Quando conseguia finalmente estabelecer a conexão, ele preferia se manter desconectado. Não via sentido algum em ligar para alguém dizendo: “Oi, eu sou o Alberto, lembra de mim? Estudamos juntos no científico, em 1963”.
Com os colegas de trabalho, nada de contato, somente profissional. Não havia happy hour. Eram todos casados, com uma família a qual deveriam dar atenção. O contato máximo se dava na festa de final de ano da firma, na qual não bebia para manter a imagem e por não beber não se socializava. Talvez nem soubesse como conversar com alguém. O resultado eram esparsos comentários sobre o clima e assuntos sobre a rotina na empresa. Os poucos sentimentos que tinha não demonstrava.
Um deles era a saudade. Tinha saudade dos seus amigos, da sua família, dos seus filhos. Carregava a imensa saudade daquilo que não viveu.
Os gráficos com os quais trabalhava poderiam muito bem corresponder ao seu sentimentalismo, que subia e descia conforme a idade. Até os 50 buscava enterrá-los na curva mais descendente possível. Em sua visão, o sentimentalismo era oposto ao profissionalismo, então optou sempre pelo segundo. Por não levar ele mesmo para dentro da empresa, tornou-se um profissional respeitado.
Agora estava em um uma ascensão sentimental, que chegava ao ápice no sábado à tarde. Na companhia exclusiva da TV, via um apresentador bom-moço que reformava a casa das pessoas que não tinham condições de fazê-la. Em nome da reforma, a falta de dinheiro das pessoas virava um grande espetáculo. O sonho era realizado em troca de desafios com copos ou coisa parecida.
Em frente à televisão não se preocupava com a imagem. Podia chorar, gritar e torcer por aquelas pessoas que lhe traziam a catarse graças ao generoso apresentador. Seu vazio era temporariamente preenchido.
Acreditou que vinho fosse água, mesmo sem a presença divina. Os questionamentos se reproduziam, mas tinha uma certeza: a de que sua vida útil estava próxima do fim.
Ao amanhecer, os dois dele eram apenas um. Apenas um corpo, que morreu tranquilamente, da mesma forma com que viveu. Sozinho.

Guylherme Custódio
tem 27 anos e mora em Curitiba. Graduado em jornalismo, atualmente cursa Letras pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Em 2013 teve um conto incluído no Livro dos Novos, coletânea publicada pela Travessa dos Editores. Desde 2008 publica seus contos e crônicas no blog Di-Vagá (www.di-vag.blogspot.com).