Em busca de Curitiba | Benedito Costa Neto

À maneira negra

“Vai-se uma geração e vem outra; perdura somente a terra.”

Eclesiastes, 1:4



 ...e ela tinha lá suas dúvidas sobre se esse menino tinha consciência de sua crueldade, mas ela sabia, sim, que ele era cruel, principalmente naquele dia do passeio pela Saldanha Marinho, ele ironizando a Sinagoga, hoje não muito mais que escombros, dizendo que o que faltava era um grupo árabe comprar aquele imóvel e fazer lá um memorial qualquer do mundo islâmico, afora dias antes ter sugerido um hotel naquelas proximidades, um hotel cujas reservas foram feitas às cegas, acreditando-se nele, sem sopesar sua ironia, um hotelzinho vagabundo e sujo, um lugar para onde — ele mesmo iria frisar depois — iam casaizinhos sem carro encontrarem-se às escondidas, o pai aceitando tudo, dizendo que o filho poderia ter se enganado, que essas coisas acontecem e que eles precisavam de uma cama e nada mais e que no dia seguinte poderiam, sim, tentar o Íbis, sempre o dia seguinte, sendo que ela queria apenas conforto e mais nada para visitar o filho estudando nessa cidade,  essa cidade ela mesma como uma prostituta de largos braços, personificada aqui e ali na imaginação dela como um demônio feminino louro, de seios fartos eslavos, com um dos braços lânguidos a tocar o mar e outro os campos gerais, debruçada por sobre um divã verde musgo, estampado em araucárias e aves azuis, com quem ela agora deveria lutar, uma briga, então, entre duas mulheres, essa cidade que lhe roubara o filho, que lho levara de casa, com um chamado ancião, de séculos e séculos, com um sorriso de impudicícia, e agora esse lugar, essa rua repleta de drogaditos, sodomitas, sibaritas, silenos e gigolôs, protegendo essa meretriz e promovendo para ela um lar, um templo e um castelo, essa filha de tropeiros e de desterrados, essa mulher bonita e bem maquiada, mas a quem falta um dente, que bem disfarça, e a quem falta berço, que não pode disfarçar, pois que berço não se herda, não se subtrai a alguém, não se ganha com casamento arranjado, não se empresta de, não se dá por osmose, não se disfarça com móveis comprados em antiquários, essa cidade Salô, essa mulher Salomé, e lá vão eles contornarem a praça Santos Dumont, para visitarem o Museu Andrade Muricy, verem parte de uma mostra sem sentido e sem graça, ela já com dores nos pés, e haveria muita caminhada até o HC, eles planejando uma parada no Paço da Liberdade, para tomarem água e café, esse Andrade Muricy bicéfalo, abarrotado de esquisitices de gente doida, do que ele disse serem trabalhos de uma Bienal Internacional, até que, pela graça de Deus, no andar de cima, ela encontra o que poderia ser algo normal, mas chegando perto percebe que não, que mesmo na esperança há o que não é estável, e ela poderia desfrutar, mas é impedida, essas imagens que vão persegui- -la durante todo o dia, gravuras de uma sociedade Cavalieri, degenerados especialistas em monstruosidades e deformidades, e uma imagem em particular a persegue, a de um gravador à maneira negra, Conde Palatino do Reino, Duque da Baviera, dito Rupert, e uma gravura que mostra um homem com muitas faces, que poderia ser um sacerdote do templo ou um profeta, mas está ali esfacelado, e ela se vê nele, esfacelada, múltipla, mutilada, muitos rostos num só, como tivesse sido despedaçada e depois reagrupada com cola, como em trabalhos de outros artistas que vira mundo afora, ela, essa Maria das Sete Chagas dos cristãos, ela, essa mater dolorosa, arrancando e pondo de volta as espadas ela mesma, sangue em cima de sangue coagulado, e, depois, o ar, o sol, a rua Andrade Muricy, enfim, e nada mais de bicicletas superpostas de um artista ativista chinês, nem gravuras, nem pequenos trabalhos de uma artista inglesa, e eles descem até a XV, caminham por entre as gentes, e chegam à Praça Osório, até esse restaurante coreano, com essa comida estranha, elogiada pelo filho, que comem com certas reservas, aí de volta à praça, o filho mostrando o que já conhecem há décadas, como o chafariz, que ele descobriu recentemente, de que tirou fotos, postou no face, e novamente a rua, cheia de pedras, e não muito perto dali, depois de contornar a Praça Tiradentes e um corredor de flores que a observam tristes, o Paço da Liberdade, enfim, fazendo jus ao nome, um pouco de sombra e água, esse piso de madeira e essas portas noveau, pela graça de Deus, um pouco de bom gosto, depois de tanta deformação, esses torneios dessas portas de madeira, esse edifício restaurado, água e café com muito açúcar, esse menino que não para de falar, de contar vantagens da cidade, esse marido quieto e complacente, que aceita tudo, depois essa rua de pedras brancas e negras de novo, esse desaconchego irregular, a rua famosa no passado, para onde vinham eles comprar coisas quando o nascimento do menino nem era sonho, quando tudo isso aqui era bonito e elegante, eles nem muito ricos nem muito pobres, mas gente decente, depois a Praça Santos Andrade, a Reitoria acolá, onde ele fazia uma disciplina ou outra desse curso tão sonhado, numa faculdade federal enfim, depois de tanto cursinho e dinheiro gasto, e, outras quadras depois, ela já não sabia se muitas ou poucas, o HC, onde ele um dia iria começar seu caminho longo para clinicar, o filho e o pai rindo, contando piadas sobre situações médicas, e em relação ao riso ela se perguntava se não era loucura e em relação à alegria ela se perguntava aonde conduziria, e clama por um táxi, e voltam para o hotel, onde dorme, pensando em gravuras, pedras irregulares e mulheres da vida louras, e ela voltará sozinha ao Andrade Muricy, na manhã seguinte, enquanto o marido vai resolver coisas da compra do apartamento no Batel, para lá instalarem seu rebento único, e seu rosto, assim, deformado, à maneira negra, várias faces numa só, esse filho temporão, a gente vivendo entre o amor e o medo, ela em frente a uma gravura de La Gourdaine, um autorretrato com a boca deformada, como se a não pudesse abrir, impedido de falar, e ela assim, impedida de falar, uma escuridão silenciosa, uma prisão escura, ela abrindo e fechando o zíper da bolsa infestada de logos, que a moça da loja dissera ser testado três mil vezes, ela imaginando uma pessoa abrindo e fechando o zíper três mil vezes, até definitivamente provar que, sim, ele é bom, e merece estar numa bolsa de logos estampados, numa vitrine de um shopping de luxo, bolsa que ela ganhara como se recebesse uma esmola, um consolo pela perda, e ela pensará, enfim, que há tempo para tudo, um tempo para curar e um tempo para exterminar, um tempo para chorar e um tempo para dançar, e horas depois, depois de abraços e de lágrimas, depois de um trânsito infernal até o Afonso Pena, estará ela lá, e ela lá no fundo não teria certeza se ele saberia, mas certamente ela saberia que tinha perdido o filho para a nora perfeita, mas, afinal, quando voltariam mesmo?, afinal, há um tempo para se pronunciar e um para silenciar, e, afinal, até mesmo essas pedras brancas e pretas foram colocadas com paixão, e ela jamais teria certeza, mas...

Benedito Costa Neto nasceu em Quatiguá (PR) e estudou em São José dos Campos. Trabalha com consultoria linguística. É escritor, crítico de arte e designer bissexto. Estreou na ficção com Diante do abismo (2011). Desde 1993, vive em Curitiba (PR).

Ilustrações: Marciel Conrado