Conto | Victor Mascarenhas

Fuga


Ainda não era a hora, mas ela já sentia as contrações. Pelas suas contas, o bebê só nasceria dali a umas cinco ou seis semanas, mas depois da correria e do estresse das últimas horas, estar viva e carregando seu filho era praticamente um milagre. As lágrimas se misturavam ao suor, assim como o sangue que escorria dos arranhões nos seus braços e pernas se misturava com a lama daquele matagal às margens da estrada onde Aparecida e Jeová tentavam se esconder.

- Por que a gente tá fugindo? – sussura Aparecida.

- Fica quieta, eles podem ouvir.

Eles fugiam de Rasputin, o traficante que mandava na comunidade e não vacilava com quem devia e não pagava, seja dívida de droga ou de agiotagem. Não pagou tá morto, simples assim. Jeová não pagou e, apesar de ferido, ainda estava vivo.

Passava pouco da meia-noite quando Jeová entrou em casa, com o rosto coberto de hematomas, a roupa suja de sangue e um olhar desesperado.

- Acorda, Cida. Vamos embora!

- Embora pra onde?

- Depois eu explico, vem logo.

Assustada, a gestante levantou num sobressalto e pegou o primeiro vestido que viu pela frente. Antes que pudesse entender o que se passava, foi arrastada pela janela pelo seu companheiro.

- Que é isso?

- Vamos por aqui, eles já devem estar perto.

- Eles quem?

- Cala a boca e faz o que eu tô mandando, porra!

Eles moravam numa encosta e sair pela janela não era boa ideia. Mas quando ouviram uma pesada arrebentando a porta, sair pela janela pareceu uma excelente solução.

- Jeová, seu viado! Cadê você?

Era o Rasputin, de arma em punho e acompanhado por Quebra-faca, Três Cu, Lasquitrack e Transão, membros da sua quadrilha, todos doidaços de pó e na fissura de esfolar o filho da puta que não pagava o que devia.

Enquanto o casal fugia, tentando se equilibrar pela encosta, segurando em tufos de mato e cravando as unhas na terra, os bandidos reviravam o barraco, tarefa que, dada a exígua área do imóvel, não durou mais que alguns segundos. Quebra-faca:

- O viado fugiu!

- Toca fogo nessa merda – ordena o chefe – esse porra pegou a puta prenha da mulher dele
e fugiu pelo barranco.

Três Cu já tava com o galão de gasolina para incinerar o caloteiro. Foi só espalhar por ali e acender um fósforo. A claridade ia iluminar a noite e ajudar a revelar por onde o casal fugira.

- Tocaram fogo na nossa casa...

- Fodeu! Vão descer atrás da gente. Corre!

- Não dá... Já tô sentindo as contrações. A hora tá chegando.

Antes que Aparecida dissesse mais alguma coisa, Jeová puxou seu braço violentamente e a arrastou ribanceira abaixo. Desequilibrados, escorregaram na lama até a base do morro e começaram a ouvir o estampido dos tiros vindos lá de cima.

- Jeová! Você tá fodido! - Gritava Rasputin, enquanto descia o morro atirando a esmo com seu fuzil de assalto.

Encobertos pelo mato alto, o casal continuava sua fuga desesperada. Se conseguissem chegar à estrada tinham alguma chance de escapar, mas também seriam alvos fáceis. O fogo no barraco iluminou a região e Aparecida não tinha mais condições de continuar correndo.

Ela chorava baixinho e sentia um líquido escorrendo pelas pernas. Era sua bolsa que rompera. A criança estava pra nascer e já corria o risco de chegar ao mundo com uma bala no meio dos cornos. Aparecida sabia que Jeová não era santo e que se queriam pegá-lo, em alguma parada errada o cara tinha entrado.

Jeová olhou para o alto do morro e viu a silhueta do Rasputin e os outros, num contraluz fantasmagórico provocado pelas chamas da sua casa.

- Tu vai morrer, filho da puta!

Nesse momento uma explosão ensurdecedora faz o Rasputin cair e desequilibra seus parceiros. Era o botijão de gás do barraco que explodira. Aproveitando a chance, Jeová arrastou Aparecida para outro caminho no meio do mato. Mudança de planos. Jeová ia para o desmanche de carros que ficava em algum lugar mata adentro.

O desmanche era uma lenda urbana e ninguém sabia ao certo onde ficava ou mesmo se existia. Era um cemitério de veículos roubados, uma paisagem de apocalipse-armagedon automobilístico, uma cidade-fantasma Mad Max, povoada de carcaças de Brasília, Veraneios, Belinas, Gols bola, Chevettes desmontados, Del Reys incinerados e Opalas capotados.
O fogo se alastra nos barracos e no matagal. Inferno na favela. Purgatório suburbano na periferia do fim do mundo. Correria e gritaria geral. Na confusão, o casal escapou numa saída expressa pela direita, com direito a trilha de sangue e placenta no matagal. Logo eles estariam perdidos e Aparecida desaba, urrando e se desmanchando em dores.
Jeová pega sua mulher no colo e corre. Corre sentindo o calor do fogo no cangote e o cagaço de morrer turbinando suas pernas cansadas. No céu, uma estrela brilhante surge por detrás das nuvens do céu nublado vermelho ferrugem. A estrela ilumina uma trilha na mata e, diante desse sinal divino ou por falta de opção melhor, Jeová segue por ali. Após alguns minutos que pareciam horas e de alguns metros que pareciam quilômetros, eles adentram o labirinto de ferro e ferrugem tetânica do desmanche perdido. Aparecida grita de dor, Jeová desvia de uma Caravan marrom, dobra à esquerda numa Paraty branca, salta o para-choque de um Passat cinza e tropeça numa calota de Landau. Aparecida cai e desliza numa poça de óleo até parar numa chicane de pneus carecas, onde não dá mais pra segurar.

- Vai nascer!

- Fodeu! Calma, Cida!

Jeová olha ao seu redor, em busca de um lugar menos infecto para o seu filho nascer e o que parece mais acolhedor é um velho Fiat 147 sem porta. Com carinho, Jeová carrega Aparecida até o carro e a coloca no banco do carona. O sangue escorre pelas mãos, a dor provoca gritos lancinantes, o coração do homem dispara. Após alguns minutos de dor e pânico, irrompe na madrugada um choro estridente. Um sorriso de alegria e alívio surge nos lábios de Aparecida.

- É menino – diz o pai.

- Um menino... Meu filho...

- Como vai ser o nome dele?

- O nome do meu pai.

“E como é o nome do pai dela?” – pensa Jeová, que nem não sabia que Aparecida tinha pai.

- Procura por aí, esse escroto deve estar escondido num carro velho desses!

Rasputin chega ao desmanche. A casa caiu.

- Fecha a boca do menino, se acharem a gente fodeu.

Jeová era filho de evangélicos, mas nunca ia à igreja e nem sabia se acreditava em Deus.

Mas agora precisava de um milagre. Agachado sob o volante do Fiat 147, viu uns fios desencapados. Uma intuição desesperada e ridícula veio à sua mente. Limpou o sangue do parto do seu filho no estofado esburacado e fez uma ligação direta. Uma faísca, duas faíscas, um curto circuito e o motor pegou.

- Que porra é essa? – surpreende-se Lasquitrack, de arma em punho e quase mordendo a orelha com a fissura do pó.

- É motor de carro!

O pai do pequeno fugitivo assume sua posição no banco do motorista e acelera forte.

- Se segura, meu amor! Vamos embora daqui.

Aparecida abraça o filho, beija sua cabecinha ensanguentada e começa a rezar baixinho.

O Fiat 147 arranca com tudo. Seus faróis quebrados iluminam os traficantes que não tem tempo nem de sair do caminho. Strike de traficante na madrugada e fuga alucinada na direção que o nariz aponta.

- Toma, filho da puta! – berra Jeová para Rasputin, que aterrissou no capô de um Fusca desmantelado e teve seu estômago perfurado pelo platinado do Fuscão preto. Agonizante, tudo que viu foi o velho Fiat 147 sumindo, iluminado pela aurora de um novo dia.

Sem acreditar no milagre automobilístico que acabara de salvar suas vidas, Jeová e Aparecida deram as mãos, felizes por estar vivos, com seu filho recém-nascido com uma vida inteira pela frente, para explorar como os antigos navegadores que se lançavam ao oceano à procura de novas terras por mares nunca dantes navegados. No percurso sem mapa e sem bússola da vida, certamente ele vai enfrentar perigos, desafios, dores, vitórias e derrotas. Pode até encontrar terra firme, mas se escapar do naufrágio iminente que espera a todos nós na nossa navegação pelos mares da vida, já vai ser uma grande conquista. Mas essa é outra história e o autor será aquela criança suja de sangue e sem nome.


Victor Mascarenhas
é escritor e roteirista. Autor de Cafeína (2008), livro de contos vencedor do Prêmio Braskem Cultura e Arte. Em 2011, foi um dos finalistas do Prêmio Off Flip e lançou seu segundo livro, A insuportável família feliz (2011). Em 2013, lançou Xing Ling made in China, seu primeiro romance. Vive em Salvador (BA)

Ilustração: Guilherme Caldas