Conto

Princesa



Lívia Garcia-Roza




Pode se chegar, gente boa, relax, não é assalto, é ensinamento dos brother. Vem, vem se chegando. E aí, meu chapa, se liga em cuspe a distância? Não é assim que fala, meu irmão? Vai pagar nada. Nossa parte é essa. Tamo aqui na diversão. Pelo jeito tu também. Pra andar com esse passo mole, tu não é daqui, certo? Atenção, malandro, que tu dança. Tá falando fofo assim porque tomou umas, né? Se aproxima, princesa, vem arejar sua formosura. Tava faltando dama no pedaço, né, pessoal? Mas e aí, galera? Mando uma placa mortal, tão sabendo? Aditivada. Seguinte, meu irmão: atenção que não vou explicar duas vez, isso tem que ser pegado no jato. Na areação. De primeiro o cara tem que desligar, de repente a cara dele para, os olhos também dão aquela freada, tão acompanhando, pessoal? Aí, nessa hora, o peito estufa, ele funga, cava lá no fundo da boca oval, e daí ele mira e lança com força e o cuspe sai tinindo em linha reta. Míssil da paz, mano, vindo do interior mais subalterno do indivíduo. Voo bonito pra caralho, e o cara sente aquela satisfação; e se a carga encontrou o anonimato, sem problema, ele mandou bem. Valeu. Rindo, princesa?... Se amarrou no voo do caralho, né? Tô sabendo... Mas agora eu requero a vossa atenção, aí, gente boa, só macho domina essa modalidade de esporte!, desde a remoção da infância. A mulherada tá fora dessa jogada, me perdoe as dama, mas pontaria é fundamental, e é do que elas carece. É arremesso complicado porque num tem escola. Já escutei que até agora não cuspi porra nenhuma, guenta aí, ô meu... tá com pressa, mané? Vê se se liga que aqui num tem nego correndo, num é assalto, já dei explicação. Cusparada é coisa de macho, o sujeito tá sempre mandando o que chega pelas borda do corpo até sair por algum dos orifício. Sempre assim, in puto e fora do puto. Tão entendendo a evolução? Acompanhando a ejaculação? Ninguém aqui é precisado de aula. É questão de pontaria, já disse. A primeira vez mandei legal, puta tiro, tão escutando? Virei macho com agá. E de lá pra cara é enxurrada à toda hora. Tão a fim da exibição? E o dinheiro, tá na mão? Então dão um tempo no lance, que vou dar um recado ali naquela formosura. Preparando a artilharia pessoal!

Vamos lá, princesa, o ambiente aqui num tá prepúcio pra senhorita, que logo se vê que é dama de altas mansão e fidalguia distinta. Posso seguir-vos alguns passos? Não sei se atinaste que o espetáculo era tão somenos pra chamar a atenção de vossa persona. Grata, sei que estás, vê-se o polimento do berço esplêndido. Peço perdão pelas palavras de calão baixo, porque só assim captam o proferido. Quando no outro sim divisei vossa visão, meus olhos faiscaram obnubilado, e assim estão até o momento desse passeio pela orla marítima e terrestre, e quem sabe — quem de nós saberão? — exorbital. Pensemo positivo que alcançaremo estrela, qualquer Ursa tá valendo, certo? Atenção, princesa, pedregulho à vista; não tropeçais, pelo amor deste servo encantado com vossa formosura totalitária. Não são todas que desfilam com garbo e cortesia, repareis?

Tarde amena e gentil, né? Talvez... Vejo um cúmulo à vista fina. Gostarias de uma estancadinha a fim de saborear um suco refrigerado? Concordais então? Quantos anos têm a jovem? 22? Mas este é um sábado lotérico! Façamo então um pouso instantâneo. Qual é mesmo sua graça? Lenora? Leonora? Oh, claro, Heitora! Filha legitimada de Heitor, ora ora... Prefere ser chamada de Ôra, oh, claro, Ôra, com mucho gusto. E o suco, minha flor, também tá a su gusto? Quanto esplendor oferece essa orla coalhada de despelada que mal chega a seu calcanhar, não é mesmo, gente esbelta?... E se não for inconveniência intrépida, gostaria que a princesa, com sua altíssima presença, conhecesse os meus aposento. E já que tropecei no assunto, quantos metro a princesa disporá? Um e oitenta... Mas é uma manekan! São só poucos concretos à frente, alteza, não se distraia no calçamento pra cabrito, sempre traiçoeiro com a fineza dos sapatos das dama, de todas as maneira, aqui estou pra amparar queda súbitas, saca?

Caminhemos pois, princesa minha, com todos os passo que enlevam aos meu domínio, e ao abraço que certamente posso me permitir, correto? Que delícia o por arejamento da sua pele em contato com a epiderme do meu tórax... Posso, por ventura, enlaçar vossa cintura, minha dama da orla, e de outras afins, que de momento escapam num sem fim de pensamento de través. Pronto, ei-nus! Não repare na modéstia, princesa. Tudo aqui tá arrodeado de objeto de difícil captura. Estás um pouco cansada deveras? Podereis repousar no pufe ou no sofá. Ou quem sabe no leito. Gostarias deste último reconduto? Antes precisas ir à latrina? Peço então que se dispa de tudo, dos preconceito e das intimidade, e seja feita a vossa vontade e a minha, que sempre bradei ao céus! E ele disse: Vai que é tua!, Amadeu... Até agora não me apresentei: Amadeu Serafim, às suas ordens, princesa Ôra, Ôra, Ôra...

Mas tu é uma fragrante delícia, uma musse, manja? Conheces essa iguaria da nossa famosa baixada fluminense? Que som perfurador foi este? Ah, o celular. Como não, a senhora sua mãe, a distinta pré-genitora. Os seios protuberantes possuem algum ingrediente, minha flor? Ah, são natureba... Não, não se aborreça, mãe são muita transtornação... Relax, princesinha. Elas existem em bando. Não sei se tiveste visto as mãe da praça de touro. Um porrilhão, não leva a mal a devida expressão. Temo mais mãe que filho em tudo que é parte da atmosfera terrestre, certo? A galera num guenta o repuxo do cuidado. Mas é tanta curva no aldelgaçado do teu corpo que me brotou uma leve tonteireza. Um repente, por sinal. Por que gritaste? Ah, com a tua mãe. Deixa os arrulho pra lá, princesa... Ai... ai... que penetração! Num chora, caralho... Perdão, minha princesinha... Mas que orifícius, preciosa! Tava morto de fome... Num grita, coração, calma com a mamãe, vai, remelexa, assim, estás puta, claro, então dês uma reboladinha, vai, entrementes acelero pra atingir o climatério desse mundaréu, vai, vai... Vamo que vamo, né, realeza?... Hein? Ela quer falar comigo? Agora? Mamãe!! Uiiffff... Quanto prazer!! A senhora nem imagiiina...


Livia Garcia-Roza nasceu no Rio de Janeiro e é psicanalista. Estreou na literatura de ficção em 1995, com o romance Quarto de menina. Depois vieram Meus queridos estranhos, em 1997; Cartão-postal, em 1999; Cine Odeon, em 2001; Solo feminino, em 2002 (os dois últimos indicados ao prêmio Jabuti), e A palavra que veio do Sul, em 2004. É organizadora da antologia de contos Ficções fraternas (2003). Vive no Rio de Janeiro (RJ).

Ilustração: Francisco Gusso