Biblioteca Afetiva

Há uns bons dez anos, moram na minha cabeceira edições de bolso já amareladas de Uma temporada no inferno, de Arthur Rimbaud, e A hora dos assassinos, de Henry Miller. Não é coincidência que o segundo livro trate do autor do primeiro, o poeta que escreveu suas obras-primas entre os 15 e os 18 anos e abandonou a literatura em nome da vida. Miller fez o oposto: mergulhou “no ato de escrever com o mesmo fervor e entusiasmo com que mergulhara na vida”. É sempre a ambos que recorro quando, diante de alguma encruzilhada, não sei qual caminho tomar para seguir fazendo poesia – sem jamais escrever versos.

Alexandre Lucchese é repórter do Segundo Caderno do jornal Zero Hora. Vive em Porto Alegre (RS).

2001 — Uma odisséia no espaço foi, para mim, um abrir de portas para pensar o futuro. Diferente do filme, que é extremamente simbólico, o livro é detalhado e descritivo, foca com bastante precisão na física (estilo de ficção científica que, hoje, é comum). Suas previsões hoje se mostram inocentes em alguns pontos, mas o clímax do livro revela premonições muito mais profundas sobre o lugar do ser humano no universo: a nossa solidão, o trans-humanismo, a transcendência do corpo humano, etc. O timing lento, mas sempre crescente, da ciência, a revolução de pensamento a cada descoberta e a óbvia aventura de uma viagem espacial, fizeram-me rever a trajetória da nossa espécie como uma história grandiosa e épica, ainda que fortemente conturbada e centrada demais em si mesma.

Rafael de Andrade é fotógrafo, acadêmico e estudante de jornalismo. Vive em Curitiba (PR).