Benin menino

Claufe Rodrigues        

Meu menino Benin
Que não cresce jamais     
Nos olhos de cativeiro
O reflexo de um cais
Sempre em movimento
A onda soprada pelo vento
Que leva e traz
Alegrias e tristezas
Como se a maré fosse feita
Não de correntezas
Mas de correntes.

***

O Benin é um menino sadio
Coberto de lama por seus ancestrais.

***

A força centrífuga dos rinocerontes,
A sabedoria explícita dos elefantes,
A leveza dos peixes na boca cheia de dentes,
A inocência das cabras pastando ao léu.
Assim é o Benin menino,
Gasolina e mel
Na beira de uma estrada
Que dá sempre no mesmo lugar:
O céu, o mar.

***

Quando eu crescer
Quero ser como o Benin menino:
Andar de mãos dadas
Sem parecer feminino.

***

O menino Benin tem o dobro da minha idade
Mas, se um dia ele crescer, há de
Ser por milagre,
Pois, se pudesse escolher,
Que vinho virava vinagre?

***

Nada é de graça nesse mundo
Nem o sorriso do menino Benin
Trocava meu tambu e meu tantan parlan
Por um sorriso assim

***

De que vale ser rei
Se não há lei que faça
Crescer barba no Benin menino?
Seu reinado é uma farsa
Como uma igreja sem sino.

***

A menina Benin
Em sua infinita graça
Exibe elegância na poeirenta estrada
Como se estivesse desfilando
Numa passarela de Paris.
Mas na cabeça nada de sonhos:
Apenas bananas e abacaxis.

***

De quantas mães você precisa,
Menino Benin?
A mais gorda para cuidar da cozinha,
A mais feia para varrer a casa.
Aquela, tão bonita, canta e dança no terreiro,
Onde a magrela sopra a brasa.
A mais nova vende na feira
Ou na beira da estrada
O peixe e o camarão
Que a irmã pescou
Na lagoa encantada.
As mães do menino Benin
São tão parecidas
No jeito de vestir, na maneira de andar.
Nasceram para gerar as mesmas vidas,
Muitas vezes.
Os séculos parecem meses
Que passaram sem passar.

***
Ai de mim, menino Benin,
Que só tenho a fala do colonizador.
Fon, gun, mina, ioruba e mais de cem:
Enquanto tiver tanta língua,
Você jamais morrerá à míngua,
Nunca será um zé-ninguém.

***
O menino Benin é uma estrada sem fim
Que liga o presente ao passado.
O futuro, quando chegar,
Será um furo de reportagem.


Claufe Rodrigues é poeta e tem 11 livros publicados. Nos anos 1980, participou, junto com Pedro Bial e Luiz Petry, do grupo Os camaleões. Atualmente é repórter do programa Globo News Literatura. Vive no Rio de Janeiro (RJ).

Ilustração: DW Ribatski