Pensata | Maria Valéria Rezende
28/09/2020 - 17:22

Como pôr ordem no caos dentro da cabeça?

 

A coluna abre espaço para que escritores, tradutores, jornalistas e pesquisadores reflitam sobre temas ligados à literatura, livro e leitura. Nesta edição, Maria Valéria Rezende sugere que o caminho da arte pode representar uma alternativa à loucura da vida contemporânea

pensata
Ilustração: Felipe Mayerle

 

Pensar é hoje, talvez, a única coisa que pode fazer por conta própria muita gente como eu, rigorosamente confinada e “vigiada”, por ser “idosa” — eufemismo detestável porque esconde o fato incontornável de que sou muito velha e meu futuro nesta terra é muito curto — e “de alto risco” — como se desde o nascimento toda vida não estivesse em risco. Penso, portanto, mas sem levar a sério demais minhas conclusões sempre provisórias, lembrando que “livre pensar é só pensar”.

Um invisível, terrível e mortal vírus nos espia pelas frestas das janelas e portas, dos lábios e narinas alheias para nos atacar e destruir, assim como outros vírus, bípedes e excessivamente visíveis mas também mortíferos, nos atacam “pelos sete buracos da nossa cabeça” ou com buracos no corpo inteiro.

Sofremos bombardeio constante de assustadoras informações, experiências, opiniões ou expressões desesperadas ou adocicadas de sentimentos, ilusões, ou constatações contraditórias veiculadas como ciência. Como livrar-nos do mal a percorrer o mundo como furacão, sem data marcada para arrefecer, invadindo até a área protegida pelo nosso crânio, onde se alojam os pensamentos?

A “tecnologia da informação”, louvada até há pouco como milagrosa, torna-se um canhão a nos bombardear com fake news ou bad news, a afundar-nos na confusão e no medo. Já capturou de tal modo nossa adesão e dependência que sequer temos tempo e energia para cavar um túnel profundo onde proteger-nos de seus tiros. Ao caos externo corresponde o risco de um caos interior também fatal.

Tento salvar-me usando meus procedimentos de ficcionista. Não sou “estudiosa” de nada — por isso, embora reconhecendo sua grande importância na minha formação, não faço referência a outros autores, pois não sei onde ficou perdida a bibliografia da minha memória —, mas sou curiosa de tudo, creio que desde nascida. Nasci em 1942, antes da Bomba de Hiroshima, antes dos antibióticos. Já na adolescência, parti para a independência e a autorresponsabilidade pelo mundo afora. Minha memória está repleta de fragmentos de percepção das mais variadas origens. E só. Fragmentos porque nossos cinco sentidos não captam “a” realidade e, por mais que eu corra o mundo, posso perceber apenas uma ou outra face de qualquer realidade.

Juntando cacos de lembranças, como peças esparsas de vários puzzles incompletos, e tratando de encaixá-los entre si, para compor uma imagem com algum sentido, é que faço minha ficção. Confio no leitor para ler as entrelinhas e preencher, com seus próprios fragmentos de memória, as lacunas entre as peças mal ajustadas. Assim também tento defender-me do caos interno, criando hipóteses explicativas e alguma luz de esperança, enquanto espero a próxima bomba, a contestação ou novas perguntas que me façam repensá-las:


1.

O que está acontecendo, pelo mundo todo, é um momento que já se repetiu inúmeras vezes ao longo da história dos diferentes povos. Há sempre uma pequena porcentagem de pessoas portadoras de uma “síndrome de vazio interior”, de origem não apenas genética, algum “defeito de fabricação” talvez, mas passível de agravamento, controle ou até correção pelo processo de formação da personalidade.

A ausência de autoestima nesses sujeitos gera uma espécie de “ressentimento genérico” contra todos os outros humanos e, portanto, total falta de empatia. Um sujeito desses, não sentindo nenhum valor intrínseco em si mesmo, precisa revestir-se de “embalagem” que o torne visível aos demais, pois só se sente existente se for delineado constantemente pelo olhar admirativo do outro. Para obtê-lo, não se importa de “lascar” a humanidade toda. Se não, para que alguém passaria a vida jogando nos cassinos do chamado “mercado financeiro” para acumular bilhões? Para que serve ser bilionário? Só para aparecer nas listas da revista Forbes?

Calculando-se o custo, em moeda forte, do máximo de bens, serviços e comodidades que se podem consumir prazerosamente ao longo de uma vida, pode-se concluir que não há como desfrutar de um bilhão para ser feliz. Os que acumulam sem cessar, portanto, é porque não são felizes e nunca serão. Por mais rico que se seja, não se conseguirá comer mais de seis boas refeições ao dia, nem habitar simultaneamente duas casas, voar em dois aviões, etc. Ninguém aguentaria comer só caviar do Mar Cáspio.

Os portadores da forma aguda dessa síndrome, diante de qualquer estrutura piramidal — como quase todas as instituições sociais permanentes — precisam conquistar e controlar o topo a qualquer preço. Preferem não se prender a instituições reguladas por leis democráticas, mas aliciam ali seus cúmplices, sindrômicos moderados ou menos espertos. Quando seu sistema oscila e ameaça seus privilégios e poderes — porque as “pessoas comuns” estão se tornando mais conhecedoras, críticas e capazes de traduzir seus talentos em ações —, os sindrômicos saem a campo com planos para reprimir os rebeldes, infundir medo e restabelecer a sua “ordem”. Como conseguem dominar os “normais”, se estes os ameaçam justamente por se estarem tornando mais competentes? Aqui tenho de levantar mais uma hipótese.


2.

As pessoas comuns, enorme maioria, regem-se pelo princípio do “eu tiro os outros por mim”. Sua relativa bondade e honestidade tornam-nas confiantes num patamar mínimo das mesmas qualidades em todas as pessoas e de raro imaginam o grau de crueldade de que são capazes os acumuladores doentios, deixando-se enganar. Essa ingenuidade dos comuns permanece pela falta de uma distribuição igualitária dos instrumentos de análise crítica, ainda privilégio de uma classe média intelectualizada. Os sindrômicos, por sua vez, servem-se de armas que os comuns jamais usaríamos na mesma escala, como a mentira, as ameaças e a extrema violência.

Em meio à algaravia autorreplicante que roda pelas tais redes sociais e mídia lê-se ou ouve-se falar de um tal de “brasileiro médio”, ou “o povo brasileiro”, ou mesmo só “o brasileiro”, como culpado das crueldades dos que tomaram o poder à custa de tais armas, porque se veria representado neles. Note-se que ao dizer isso os críticos e esclarecidos parecem colocar-se fora desse coletivo “brasileiro”, como observadores protegidos em seus espaços de confinamento voluntário ou não. Parece, portanto, que um diálogo para uma troca de saberes entre eles e “o povo” não está acontecendo. A imensa maioria estaria, então, abandonada à confusão, ao engano e ao medo crescente, tremenda arma nas mãos dos que têm poderes para manipulá-lo.

Já disse que sou otimista e planto hipóteses para colher esperanças, por mínimas e ficcionais que sejam. Onde, afinal, estão elas?


3.

Se a triste síndrome do vazio não é determinação genética, mas depende da forma como se dá o amadurecimento dos sujeitos, é possível evitar que se reproduza. Poderemos livrar-nos do perigo de ter sucessivas ondas como a de agora. Como? Oferecendo a todas as crianças a possibilidade de desenvolver um nível aceitável de autoestima. Como? Através da arte, claro! Toda criança é artista e arteira, cada uma à sua maneira: se deixada livre, com mínimos recursos materiais, ela desenha, pinta, esculpe, compõe, canta e dança, inventa histórias, é dramaturga e atriz em seu teatro de bonecos, etc. Não o faz para produzir “mercadoria artística”, mas pelo prazer imediato do ato de criar, da contemplação da obra e do aplauso que suscita. Promovamos gerações de crianças e adultos com suficiente autoestima, num mundo da “arte pela arte”, sem necessidade de luxuosas embalagens para se sentirem existentes.

Se tanta gente “comum” se deixa enganar pelos sindrômicos e ser dominada pelo medo por ingenuidade, aposto que um verdadeiro diálogo, corpo a corpo, entre a massa “comum” e as grandes cabeças estudiosas e / ou criadoras de grandes obras de arte poderá garantir a defesa contra os horrores como os de agora.

Quando? Quanto tempo leva transformar tais esperanças em fatos? E eu, já velha, não haverei de ver nada disso confirmado? Não me conformo, e busco hipótese complementar tranquilizante a curto prazo.

 

4.

Eles, os sindrômicos, juntam-se para tirar vantagens da maioria, mas nunca são amigos de ninguém, apenas cúmplices, enquanto lhes interessa. Eles, principalmente os “bem-sucedidos”, creem-se invencíveis, e mais cedo ou mais tarde acabam por deixar cair as máscaras, todo tipo de máscara. Tendo como cúmplices seus semelhantes, assim que uns não sirvam mais aos objetivos dos outros, voltam-se uns contra os outros. Eles, os de agora, hão de eliminar-se mutuamente. Aliás, tudo indica que já vão adiantados nisso! Posso acalmar-me: verei acontecer esta imediata esperança e um novo fôlego para pavimentar o caminho até as outras. Por esta noite, já posso dormir. Amanhã, veremos!

 

Maria Valéria Rezende é autora dos livros Carta à Rainha Louca (2019), Outros Cantos (2016) e Vasto Mundo (2015), entre outros. Vive em João Pessoa (PB).

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