ESPECIAL | Tão melancólica e cabisbaixa
29/11/2021 - 15:23

“Onde Andarás”, parceria de Caetano Veloso e Ferreira Gullar, é a própria linha evolutiva da música brasileira, e também pode ser lida como um manifesto

 

Mateus Baldi

 

 

manuscrito
Manuscrito com a letra de "Onde Andarás", musicada por Caetano Veloso na década de 1960. Foto: Reprodução

 

Um.

A primeira vez que ouvi Caetano Veloso foi na Praia de Botafogo. Estávamos no carro, eu e minha mãe, na altura do shopping, e o rádio tocava “Sozinho”. A primeira vez que ouvi Caetano Veloso de facto foi cruzando a Itália, aos 14 anos, quando meu pai colocou “Haiti”. Provavelmente era o CD de Tropicália 2, já que não me lembro de vê-lo usando tecnologias como MP3, muito menos iPod. Nunca esqueço seu rosto voltado para minha madrasta, o sol lá fora e ele dizendo “Não dá para ficar ouvindo ‘Haiti’” seguidas vezes. 

Somente muitos anos mais tarde fui me interessar por Caetano Veloso como um pensador do Brasil — e só então voltei à letra de “Haiti” e tive alguma luz sobre o que meu pai queria dizer com aquela frase.

Foi nesse espaço entre o contato com, digamos, “Haiti” e Transa, disco-ponto de inflexão na discografia, modificando o antes e o depois, que descobri “Onde Andarás”. Por um tempo, achei que a letra fosse de Caetano. Quando soube que era de Ferreira Gullar, exultei. Fazia todo sentido.
 

Dois.

Li que se tratava de uma música cafona. Em Balanço da Bossa, Augusto de Campos escreve que “o pastiche assume uma feição mais integral, já que todo o contexto é o de uma composição ‘cafona’ e o texto de Ferreira Gullar (talvez voluntariamente) insalvável, salvo ‘o acaso / por mero descaso’. A letra tipo ‘dor-de-cotovelo’ se engasta em ritmos típicos de uma fase crepuscular de nossa música pré-bossa-nova (beguin, samba-canção) e em clichês orquestrais, especialmente preparados por [Júlio] Medaglia. E o processo de utilização consciente do mau gosto atinge pleno nível crítico na interpretação de Caetano, quando emposta a vocalização e a pronúncia típicas de Nelson Gonçalves, no trecho ‘Meu endereço… Perdi meu amor’”.

Em Verdade Tropical, Caetano explica melhor a cafonice e faz uma leitura que considero mais adequada que a de Campos: “’Onde Andarás’, um bolero meio samba-canção que eu tinha feito ainda no Rio sobre letra de Ferreira Gullar a pedido de Bethânia, por funcionar como veículo para a exposição de paródias de estilos sentimentais considerados cafonas (e para exemplo de como, mesmo parodiando-os, podia-se amá-los e enobrecê-los, à maneira de própria Bethânia), também entraria [no disco]”.

O fato é que, apesar de não fazer tanto sucesso — estava num álbum com “Tropicália” e “Alegria, Alegria” —, “Onde Andarás” foi gravada por Maria Bethânia duas vezes em 19 anos, em interpretações quase contrastantes; por Adriana Calcanhotto, em 2008, numa interpretação à la Bethânia; e por Marisa Monte, com uma voz quase desesperada, combinando mais com a urgência da letra. Mas é Caetano Veloso, no disco de 1968, quem melhor soube dar a Gullar não só a música, mas o equilíbrio.
 

Três.

Vejamos o que escreve Pedro Paulo Salles, em artigo que cita a obra de Caetano como um lugar de escuta: “Vindas da diversidade dos modos de cantar no Brasil e fora também, essas vocalidades (Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Herivelto Martins e Noel Rosa até Nelson Gonçalves, Caymmi, João Gilberto) emergem em sua obra como um amplo lugar experimental de escuta.  Exemplo disso é música ‘Onde Andarás’ (1968), meio bolero, meio samba-canção, gravado em seu primeiro álbum solo, com letra de Ferreira Gullar, em que contrastam (A) um cantar suave e intimista (à maneira de Lupicínio Rodrigues e em ritmo de bolero) e (B) um cantar bem mais aberto, forte e com erres salientes, como era comum até o final dos anos de 1940 (à maneira de  Nelson  Gonçalves  e  seu  vozeirão,  em ritmo  de  samba-canção).”

Muito mais que o jogo da tão alardeada linha evolutiva da música brasileira, estabelecendo uma cronologia que arrastava as décadas anteriores até desaguar nele, Caetano, e seu boom tropicalista, “Onde Andarás” estabelece o duelo da (in)formalidade, luz e sombra, bom gosto e mau gosto, paródia e exaltação — menos na música em si, falsamente formal, que no disco como um todo, cujo lado A se inicia com o cartão de visitas incontornável, “Tropicália”, que age não somente como manifesto, mas também fio condutor do álbum.
 

Quatro.

Caetano Veloso, em 1966, durante um debate no qual Ferreira Gullar era um dos participantes: “Só a retomada da linha evolutiva pode nos dar uma organicidade para selecionar e ter um julgamento de criação. Dizer que samba só se faz com frigideira, tamborim e um violão sem sétimas e nonas não resolve o problema. Paulinho da Viola me falou há alguns dias da sua necessidade de incluir contrabaixo e bateria em seus discos. Tenho certeza que, se puder levar essa necessidade ao fato, ele terá contrabaixo e terá samba, assim como João Gilberto tem contrabaixo, violino, trompa, sétimas, nonas e tem samba. Aliás, João Gilberto para mim é exatamente o momento em que isto aconteceu: a informação da modernidade musical utilizada na recriação, na renovação, no dar um passo à frente da música popular brasileira. Creio mesmo que a retomada da tradição da música brasileira deverá ser feita na medida em que João Gilberto fez”.

E isso diz muito. Isso diz tudo.
 

Cinco.

Ao jornal CINFORM, de Aracaju, Gullar disse: “Essa parceria não nasceu de uma relação minha com Caetano. Foi a Maria Bethânia que me pediu, se eu gostaria de escrever para ela duas letras de fossa, de dor-de-cotovelo que ela queria gravar no seu disco de estreia. Então fiz e entreguei a ela duas letras, uma é ‘Onde Andarás’ [...]”.
 

Seis.

As duas falas anteriores são interessantes para pensarmos a dinâmica da canção. Surgida logo após “Alegria, Alegria”, no rescaldo de um eu-lírico que se indaga “Por que não?” e vai, arrematado com a saída orquestral, triunfante, “Onde Andarás” desce o clima do disco a um patamar de meia-noite, lugar esfumaçado, ou então crepúsculo, o eu-lírico inerte diante dos barulhos da cidade, flanando quando nada “serve pra nada”. Em uma palavra, introspectivo, como Chet Baker — referência que o próprio Caetano usaria em depoimento a Marcia Cezimbra, do Jornal do Brasil, em 1991.

Em contrapartida, o ritmo frenético do arranjo recusa a fossa completa, como se a música pudesse empurrar o sofrimento para além de si próprio. O que se segue é Caetano prestando uma homenagem-pastiche, tão típica da Tropicália — e que seria vista no disco-manifesto lançado ainda em 1968, com “Coração Materno”, de Vicente Celestino, e posteriormente diluída em homenagem no futuro da discografia de Caetano, vide “Carolina”, de Chico Buarque, e as múltiplas colagens de Transa: se, para João Gilberto, Orlando Silva era o maior de todos, para Caetano ele pode muito bem se fundir a Nelson Gonçalves e àquele modo arcaico de cantar, um modo que João Gilberto dinamitou com seu violão nove anos antes.

A retomada do cool de Chet Baker em “e é por isso que eu saio pra rua”, com a orquestra retornando a um clima menos grandioso, pontuando a flânerie, talvez seja o ponto alto — não pelo que Augusto de Campos disse, como se ali residisse a única beleza possível da canção, mas, antes, a metade final concentra a atualização pós-Orlando Silva e, muito mais, a consonância entre voz e acompanhamento: “e é por isso que eu saio pra rua” é o retorno, ponto em que tudo vibra na mesma frequência, sem rugidos estridentes, baixos como estacas, marcação de compasso, erres pronunciados feito facas: Caetano está como se tivesse saído de uma guerra — porque o fim de um amor também é uma guerra —, ou, para ficarmos com Boris Schnaiderman e seu livro sobre a campanha da Itália, está “irremediavelmente só”.

“Onde Andarás” é a própria linha evolutiva. Estão ali o passado glorioso do rádio, a Bossa Nova que, a exemplo do presidente, dinamitava tudo criando os próximos mil anos em um disco, e o tropicalismo e suas ideias per se. Mas deve-se à letra de Ferreira Gullar essa possibilidade de existência torta, brega, cafona, polissêmica, enquadrando-a num quiçá manifesto acústico e não apenas poético, a exemplo de “Tropicália” e “Alegria, Alegria”. É sua pena de lutas corporais, surgindo tão melancólica e cabisbaixa, que possibilita a Caetano o impulso de prefigurar passado e futuro pela oportunidade do pastiche. Em resumo, essa parceria que surge graças a Maria Bethânia — e quanta coisa surgiu graças a Maria Bethânia — é uma alavanca tropicalista; das melhores.

Recuperando Arquimedes e relendo Augusto de Campos à luz de Bethânia, Adriana e Marisa, pensando em Teresa Cristina numa live em plena pandemia pedindo para Caetano Veloso cantar "Onde Andarás”, ao que ele cantarola o início e depois diz que não se lembra, talvez fosse bom que admitíssemos o quanto a cafonice, especialmente no Brasil, pode mover o mundo. 

 

Mateus Baldi é escritor e jornalista. Criou o site Resenha de Bolso, voltado para a crítica de literatura contemporânea, e organizou as três edições literárias da revista Época, da qual também foi colunista. Mestrando em Letras (PUC-Rio), pesquisa a obra de Caetano Veloso.