ESPECIAL | Prateleira
31/05/2022 - 12:09

O Cândido selecionou cinco obras de escritoras latino-americanas contemporâneas que dialogam de alguma forma com as características do chamado “novo gótico” e da literatura de los hijos

 

Morra, Amor, de Ariana Harwicz (Instante)

 

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Revertendo a lógica da maternidade, a autora nos apresenta uma mulher que não gosta de ser mãe, assim como não sente apreço pela condição de esposa. Cada vez mais próxima da loucura, a narradora se sente sufocada pela vida doméstica. A argentina Ariana Harwicz conduz a narrativa com uma linguagem forte e ousada, usando da violência e da ironia, sem perder um certo lirismo. O livro foi publicado no Brasil em 2019 e junto com A Débil Mental (2020) e Precoce (2021) — todos lançados pela editora Instante — formam a “trilogia da paixão”, marcada pela relação entre mães e filhos. Em 2018, a versão em inglês de Morra, Amor (Die, My love) foi indicada ao Man Booker Prize. 

 

Pássaros na Boca e Sete Casas Vazias, de Samanta Schweblin (Fósforo)

 

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Nessa reunião de contos, a autora argentina retoma a tradição do texto fantástico e apresenta uma série de protagonistas no mínimo estranhos, como uma garota que passa a se alimentar de pássaros vivos ou um milionário que age de forma atípica numa loja de brinquedos. Na maioria das histórias, os personagens partem de um plano comum de normalidade e entram numa espiral fantástica e absurda, sem se questionar sobre os acontecimentos. As narrativas também carregam um ar de mistério, muito por conta do estilo adotado por Schweblin, que opta por uma escrita mais contida, sem grandes explanações.

 

A Cachorra, de Pilar Quintana (Intrínseca)

 

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Neste romance somos apresentados a Damaris, uma mulher de meia idade que leva uma vida marcada por tragédias e carrega uma solidão extenuante por não ter conseguido ser mãe — sonho que alimenta desde muito nova. Tudo muda quando ela adota Chirli, uma cachorrinha. Mas as coisas ficam estranhas quando a dona começa a colocar suas expectativas maternas em cima do animal de estimação. Como acontece no romance Morra, Amor, de Ariana Harwicz, a narrativa de Pilar é uma provocação sobre os aspectos da maternidade. Com esse livro, Pilar foi finalista do National Book Award, na categoria literatura traduzida.

 

As Coisas que Perdemos no Fogo, de Mariana Enriquez (Intrínseca)

 

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Macabro, perturbador e emocionante, este livro reúne contos que partem do medo e do terror para explorar várias dimensões da vida cotidiana. Em um primeiro momento, as 12 narrativas do livro parecem surreais. No entanto, depois de poucas frases, elas se mostram estranhamente familiares: é o cotidiano transformado em pesadelo. Uma das escritoras mais surpreendentes do século XXI, Mariana Enriquez dá voz à geração nascida durante a ditadura militar na Argentina. Em As Coisas que Perdemos..., ela cria um universo povoado por pessoas comuns e seres socialmente invisíveis, cujas existências sucumbem ao peso da culpa, da compaixão, da crueldade e da simples convivência. O resultado é uma obra que questiona de forma penetrante e indelével o mundo em que vivemos.

 

Sangue no Olho, de Lina Meruane (Sesi-SP)

 

 

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Em um misto de ficção e autobiografia, Lina conta em seu primeiro romance a história de uma professora (também chamada Lina) que de um dia para o outro percebe que está ficando cega — trata-se de uma doença em que seus olhos ficam encharcados de sangue. A enfermidade é tratada por um médico russo que a faz passar por uma série exaustiva de exames, mas sem nunca chegar a um diagnóstico. Enquanto espera por uma definição, Lina passa a viver entre Nova York e Santiago do Chile (cidades que também são como personagens do livro) e reconfigura todas as suas relações pessoais: os velhos fantasmas familiares saem à luz e o relacionamento com o namorado, Ignácio, ganha traços perversos. Um detalhe interessante dá conta do design do livro: as páginas vão escurecendo conforme a personagem perde a visão.