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28/04/2021 - 13:02

O relato de uma jornada em busca das origens do new journalism  — com direito a uma parada no evento Gonzofest

Eduardo Ritter

Um sedã andando a quase 200 por hora pela I-70 poucas horas depois de deixar Las Vegas rumo a Aspen, nas montanhas do Colorado. “Sympathy for the Devil” toca a todo o volume quando uma viatura é vista saindo do meio do deserto pelo retrovisor. Uma voz diz: “Pisa no acelerador para confundir o policial. Quando ele menos esperar, vire à esquerda, dê um cavalo de pau e pare na outra pista. Quando ele descer, você já vai estar escorado no carro, com cigarro aceso e ele estará desnorteado. Como eu fiz, em março de 1971”. Não consegui seguir as orientações da voz e encostei o carro lentamente. Um policial baixinho da mesma origem que eu (latina) encosta na janela com a bochecha esquerda tremendo de nervoso. Eu também tremo. Não consigo manter a mesma calma que Thompson manteve lá nos anos 1970. Eu estava indo de Las Vegas para Aspen para entrevistar a viúva de Hunter Thompson no povoado de Woody Creek, no Colorado. Escapei dessa, mas levei a multa. Não é fácil ser gonzo.

No entanto, vale lembrar duas coisas. Primeiro: Hunter Thompson odiava imitadores. Ele não os suportava e mantinha a máxima distância deles. Segundo: o jornalismo gonzo, antes de mais nada, foi algo estritamente pessoal. Hunter Thompson não bebia e usava drogas para ser um jornalista gonzo. Muito pelo contrário: ele já era um beberrão e usuário de drogas e levou isso para os seus textos. Não foi um jornalista que virou fora da lei para chamar a atenção. Foi um fora da lei que virou jornalista. Por isso, inevitavelmente, quem quiser beber, usar drogas e quebrar normas para ser igual a Hunter Thompson irá falhar miseravelmente. Era o que Thompson dizia e foi o que Anita Thompson, sua viúva, me disse na cozinha em que Hunter escreveu vários dos seus textos — e onde ele cometeu suicídio em fevereiro de 2005 (um trecho da conversa que tive com ela está no link: https://youtu.be/jQQuhdgVcJc). 

Não é fácil ser gonzo, mas é possível, sim, ser um bom jornalista literário no século XXI. Alguns jornalistas até utilizam elementos do texto gonzo em suas obras. No Brasil, temos Dodô Azevedo, que escreveu um grande livro-reportagem sobre a geração beat, refazendo a rota percorrida por Jack Kerouac em On the Road nos anos 1950, logo após o ataque que derrubou as torres gêmeas em 11 de setembro de 2001. Enquanto Thompson perseguiu o American Dream na Las Vegas dos anos 1970, Dodô foi atrás do que sobrou da cultura beat nos Estados Unidos de George Bush. Mesmo sem citar Thompson, o jornalista fez uma das obras que mais se aproxima do jornalismo gonzo escrita por um brasileiro. Tem drogas, bebida, falta de grana e, acima de tudo, muito humor e jornalismo pessoal. 

Assim como o jornalismo gonzo e o literário não são exclusividades americanas, eles também não se resumem ao universo masculino. Um dos maiores exemplos de autores que conseguem colocar em prática diversas premissas que marcaram os textos de Hunter Thompson (como jornalismo pessoal, quebra de normas e fala franca) é a jornalista peruana Gabriela Wiener. Na coletânea Sexografias, por exemplo, ela apresenta textos em que é a personagem principal da narrativa, expondo-se a experiências sexuais. Porém, lendo a obra fica evidente que Gabriela fez isso muito mais para se descobrir e entender melhor o ser humano do que para imitar qualquer jornalista literário, homem ou mulher. Já outros produzem um jornalismo mais de viagem do que gonzo, mas prestam tributo a Hunter Thompson. É o caso de Arthur Verissimo, autor de Gonzo!, que na verdade cobre mais pautas bizarras em países exóticos do que traz jornalismo gonzo. Vale a homenagem à obra de Thompson, porém me atreveria a dizer que Verissimo é um dos tipos que Thompson manteria distância.

Festa e bebida

Durante minha passagem pelos Estados Unidos, consegui me aprofundar um pouco mais sobre Hunter Thompson e a cultura gonzo quando participei da Gonzofest, em Louisville, em 2014. O evento acontece anualmente na cidade natal do escritor e é idealizado por Ron Whitehead, jornalista, poeta, escritor e amigo de longa data de Hunter Thompson, Naquele ano, fui recebido como um convidado especial, pois era o único estrangeiro no evento. Até hoje mantenho amizade com Ron e seguidamente colaboro com seus projetos artísticos e literários. No evento, participam pesquisadores da vida de Thompson, como o biógrafo e professor universitário William McKeen, o ilustrador britânico Ralph Steadman, o filho de Thompson, Juan, e a viúva, Anita, além de outros artistas e escritores americanos. Durante uma semana há festas, leitura de poesia, música, palestra e competições literárias em homenagem a Thompson. É como uma bienal literária com festa e bebida para lembrar o pai do jornalismo gonzo. Entrementes, assim como Anita Thompson me revelou que não usa drogas há anos, também me surpreendi ao passar a Páscoa de 2014 com Ron e esposa e comemos peixe com suco natural. Isso mostra que a cultura beat e gonzo vai muito além do estereótipo de drogas e bebidas.

 

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Eduardo Ritter com Gay Talese e registros do Gonzofest, em Louisville, em 2014. Fotos: arquivo pessoal


A própria carreira de Hunter Thompson não se limita a Medo e Delírio em Las Vegas. Ele teve uma atuação marcante, por exemplo, no jornalismo esportivo e político. Aliás, quando falava de política abordava esportes e quando tratava de esportes metia política no meio. Foi assim que conseguiu ser o único jornalista a entrevistar Richard Nixon durante uma das convenções do partido Republicano para as eleições de 1972. Dentre o pessoal da imprensa, apenas Hunter entendia de futebol americano. E, mesmo odiando Nixon, Thompson cumpriu com seu papel de jornalista. 

Portanto, creio que antes de pensar em fazer jornalismo gonzo na contemporaneidade, é preciso pensar em se fazer mais jornalismo literário. O próprio Hunter Thompson odiava seguir regras, então, certamente ele não ficaria feliz se soubesse que há jornalistas e escritores espalhados pelo mundo tentando seguir uma cartilha gonzo para tentar contar a sua verdade. Durante um ano fiz meu estágio doutoral na Universidade de Nova York. No Brasil, era doutorando na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e, com a orientação da professora Beatriz Dornelles e ajuda do professor Felipe Pena (Universidade Federal Fluminense), consegui ser recebido como aluno visitante no doutorado em Comunicação pelo professor Rodney Benson e no mestrado em Reportagem Literária pelo professor Robert Boynton. Morava no Harlem e pegava o 6 train rumo a downtown para assistir às palestras de jornalistas renomados. O principal deles foi o mestre Gay Talese. 

Na sua fala aos estudantes, o octogenário Talese contou que, mesmo em tempos de internet e redes sociais, produz as suas reportagens da mesma forma que produzia nos anos 1950, 60 ou 70: indo para a rua, pegando seu bloquinho, observando, conversando com as pessoas, anotando, etc. Foi assim que escreveu A Mulher do Próximo, uma aula de jornalismo literário sobre as mudanças sexuais dos Estados Unidos dos anos 1960 e 70, época em que surge, por exemplo, a revista Playboy. Também foi assim que escreveu as reportagens que estão publicadas em Fama e Anonimato, como a clássica Frank Sinatra Has a Cold. Na ocasião, Talese viajou de Nova York para Los Angeles para escrever um perfil de Sinatra. Chegando lá, a assessoria informou que não seria possível, pois o músico estava com um forte resfriado. “O que fazer?” — perguntou Talese ao público. “A maioria dos repórteres desistiria. Sem entrevista, sem matéria. Foi então que tive a ideia de entrevistar o maior número de pessoas que estivessem ao redor dele e observá-lo de longe”. Um gol de placa que resultou numa das obras-primas do jornalismo literário.

Na minha estada nos Estados Unidos, além de visitar Woody Creek, entrevistar Anita Thompson, participar da Gonzofest em Louisville, checar de perto o ambiente de Vegas, o Hotel Flamingo, o Circus Circus e seguir os rastros de Thompson conhecendo a casa em que ele nasceu, no Kentucky, rastreando os lugares onde morou em Nova York, também aproveitei a viagem cross-country de San Diego a Nova York de carro para passar por Holcomb, cidade onde ocorreu a chacina da família Clutter nos anos 1950 e que foi a pauta da bíblia universal do estilo que ficou conhecido como New Journalism: A Sangue Frio, de Truman Capote. O curioso é que, estando na propriedade que era da família Clutter, você se sente nas páginas de Capote, pois Holcomb é uma dessas cidades americanas que parecem ter parado no tempo e a casa segue afastada a alguns quilômetros do bairro mais próximo, o que leva qualquer um a concluir que uma nova chacina como aquela seria totalmente possível de acontecer no século XXI.

Feitos esses relatos, volta-se à questão: é possível fazer jornalismo gonzo e jornalismo literário hoje? Não só é possível, como necessário. Pense que nos anos 1940 e 50, John Hersey escreveu Hiroshima, a maior reportagem de todos os tempos, e Joseph Mitchell, Lillian Ross e Joan Didion já bombavam nas páginas dos jornais e revistas americanos. Nos anos 1960 e 1970, Hunter Thompson, Gay Talese, Truman Capote, Norman Mailler, Tom Wolfe e toda a turma do new journalism faziam o mesmo. No Brasil, a lista também é extensa para esse período: Nelson Rodrigues, Antonio Callado, João Antônio, Caco Barcellos, Joel Silveira, Millôr Fernandes, Paulo Francis e toda a turma do Pasquim estavam literalmente botando pra quebrar. Agora imagine o mundo em que vivemos e as aberrações políticas e sociais que ganharam força nos últimos 10 anos. Impossível vislumbrar campo mais fértil para jornalistas literários atuarem. Porém, o que vemos são investimentos muito mais fortes no audiovisual da internet do que em textos ou em livros-reportagens. Eis um belo anúncio, propício para o momento: precisa-se de jornalistas-escritores. O Brasil, os Estados Unidos, o mundo procuram por eles mais do que nunca. Alguém se habilita?

 

Eduardo Ritter é professor adjunto do Centro de Letras e Comunicação da Univesidade Federal de Pelotas. Graduado em Jornalismo, é doutor em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, com estágio doutoral na New York University. Publicou os livros Jornalismo Gonzo: Mentiras Sinceras e Outras Verdades (Insular, 2018) e A Tribo Jornalística de Erico Verissimo (Unijuí, 2016). Atuou em jornais, emissoras de rádio e assessorias de imprensa do Rio Grande do Sul e atualmente mantém uma do jornal Diário Popular (Pelotas).

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