CONTO | Natalia Timerman
30/03/2021 - 01:54

Ratos 

 

Desligo o telefone, certo de que, em breve, nos livraremos deles. 

Faz duas noites que os vejo. Comecei a ter insônia, então saio para fumar no quintal. Da primeira vez eles não têm tempo de se esconder, pelo menos não todos: meu olho é atraído por algo que se move perto da vasilha de ração dos cachorros. Por instinto, não me mexo. Seguro a fumaça do cigarro no peito enquanto os vejo sumir em um buraco na mureta do jardim até começar a tossir. Olho em volta, procurando algum estrago: tudo segue no lugar, o saco de ração meio aberto (eu atribuía isso à minha displicência em fechá-lo), os cachorros deitados, cochilando, acostumados àquela movimentação. Eles vêm sempre, então; são eles os autores dos barulhos estranhos que eu sempre finjo não escutar, com medo de sentir medo.  

Não conto para a Marina no dia seguinte, quero poupá-la até entender a dimensão do problema. Quantos são? Têm uma toca, uma residência na minha residência, obscura, secreta, inteira deles? Imagino uma cidade escondida, subterrânea, todo um mundo sobre o qual vivemos sem suspeitar. Espero ansiosamente a próxima insônia: quero flagrá-los, desafiá-los, destruí-los, invasores nojentos. Mas se eu sair para o quintal, eles vão se esconder de mim, não sairão; preciso ficar dentro de casa, em silêncio, deixá-los agir como sempre.  

Depois que a Marina dorme, me levanto, vou até a sala sem acender a luz e coloco uma cadeira perto da janela. Daqui tenho uma boa visão ― por enquanto, nenhum. Tenho tempo de reparar em tudo o que, há anos, precisa de algum remendo. A tinta do muro descascada, imunda da água da chuva desta cidade. A lâmpada queimada. As garrafas e embalagens acumuladas no canto direito, esperando por um uso que nunca virá. Vasos e ferramentas de jardinagem, lembrança de quando tínhamos planos de plantar árvores frutíferas no jardim. Quando estico o pescoço para alcançar o pequeno gramado, se é que aquele lamaçal pode ser chamado assim, percebo, com o canto do olho, uma movimentação. São eles. Escuto meu coração bater no ouvido. Um, outro, mais outro. Antes que eu possa me perguntar de onde vêm, já são vários. É difícil contá-los, se movem muito rápido: entram e saem do saco de ração, entram na vasilha, andam pela mureta, inquietos, intrusos, à vontade. Dez? Quinze? A mistura de repulsa, raiva e fascínio não me permite dizer ao certo. Saio em direção a eles, que fogem mais rápido do que ontem. Quando acendo o cigarro, percebo minha mão tremer. 

O homem vestido de uniforme azul coloca umas caixas pretas espalhadas pelo quintal, escondidas, fora do alcance dos cachorros. No dia seguinte pela manhã, quando saio para colocar ração na vasilha, vejo um deles no chão, cinza, estatelado. Chego perto.  

Imóvel. Está morto.  

Reflito um tempo sobre como posso tirá-lo dali sem precisar encostar nele. Decido por uma vassoura velha, com a qual, percebendo que é inevitável olhá-lo, o arrasto até conseguir que entre num saco. Levo aquele peso imediatamente para fora e o largo em cima do lixo que já estava lá.  

No dia seguinte, aparecem outros dois. Um deles enorme, o outro, menorzinho. Pego a mesma vassoura velha e mais um saco, que levo, longe do meu corpo, segurando com o dedão e o indicador, para fora.  

No outro dia, um de manhã e três à tarde.  

No outro, cinco. Cinco ao longo do dia. O primeiro nem acho que é: de longe, parece uma folha morta, é pequeno e está meio esmagado. 

No outro dia, um logo de manhã e sete no fim da tarde. Como cabem tantos?, a Marina diz, estarrecida. Eu os coloco, um a um, com a vassoura velha, no saco que deixei encostado em um canto lá fora.  

Lavo as mãos, ainda que não tenha encostado neles: eu sempre fico com a sensação de estar com as mãos sujas.  

Quando volto ao quintal para fumar depois da janta, noto que algo se move. Acendo a luz do celular e aponto para aquela direção. Um pequeno rato, iluminado pelo facho, olha para mim, enquanto suas patinhas se apoiam no saco onde jaz sua provável família. Se não fosse um rato, eu poderia dizer que está triste.  

Em alguns dias, talvez horas, ele também morrerá. 

 

Natalia Timerman é médica psiquiatra, mestre em Psicologia e doutoranda em Literatura. Publicou Desterros: Histórias de um Hospital-Prisão (Elefante, 2017), Rachaduras (Quelônio, 2019) — finalista do Prêmio Jabuti — e Copo Vazio (2021). Vive em São Paulo (SP). 

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