Poemas | Jorge Barbosa Filho

Andara D’or I

P/ Kátia Regina do Morro do Formiga

65 dias internado
sem cirurgia, operação ou namorada
o café-com-leite da monotonia
o nescau do tédio
esses marasmos em pó
nascem meio ao tesão-de-mijo
e o sol debaixo do lençol.

o remédio sempre pontual
as enfermeiras não ousam
como nos filmes americanos
as camareiras enrolam
o resto dos meus sonhos
e as da limpeza
varrem as migalhas
da eternidade...
preciso urgentemente
de uma cama-de-casal.



na fumaça de meu cigarro
moscas, baratas e mosquitos
enjoam-se
de suas espetaculares funções
e as manhãs tardes noites
misturam minhas preocupações
às nuvens do mundo
nas janelas de fundo do
hospital.
quebrei meu braço
em dois lugares
não sei mais se voltarei
a abraçar com toda a força
tudo o que então amara
novamente
tenho vontade de fumar
mas o gás do isqueiro acabou
não há ninguém para me ascender
e não sei se amarei mais
a dormência de minha mão
isquierda.
todos os dias
os pastores evangélicos vêm
ortopedicamente me rezar
mas prefiro instintivamente
manuel e suas fraturas
suas erráticas bandeiras
ou a moça da limpeza
que vá me salvar.

hoje ela irá à Igreja de São Jorge
comerá feijoada
tomará um porre
roubará o cavalo do santo
e como Godiva enfeitiçada
gritará nua meu nome
à galope
de Quintino à Lapa
da Vila Mimosa ao Irajá.

Omofobia

OMO ludens
OMO sapiens
OMO fabers
OMO eretus
OMO habilis
OMO sexualis
dá o branco
que sua família merece

 

Meu anjo da guarda me pegou cagando

para Vanderlei Weschenfelder, a escultura

 

meu flato fanho assobia
uma melodia gasosa
com suas flores amorfas.
e em sua epifania
(nem de ontem ou agora),
a gula viva de outrora
anuncia minha intestina
agonia infinita.


véspera de hecatombes
onde, entre os homens,
borbulho o que sinto
e invejoso me vingo
de seus horizontes.
o ar de suas alegrias, definho
sem jeito, como ou aonde,
solto mil bois divinos.


infesto a eternidade
com odor duvidoso
de tênue bondade,
mas cobiço as beldades
e os tesouros dos outros.
quando pensam que doo
a lei da gravidade,
flutuo, explodo,


espalho meus vícios
por todos os poros
e se a alma expio,
relaxo com reforços.
se existe o difícil
(é disto que eu gosto),
desloco o impossível
por isto me borro.


a comédia divina
percorre minhas vísceras
em onírica soberba.
como reza a bíblia,
sem eira e nem beira,
da cósmica poeira chega
e fina o que se destina,
a merda em suas bigas


no cu do mundo,
na casa do orvalho,
o jardim das delícias, fundo
e afundo no ato falho,
alhos com bugalhos.
meu desejo confundo
ao todo confuso,
lúbrico no sanitário


esqueço onde estava
e pelo espaço errando,
caíram minhas máscaras
no vaso urrando
só, na ira, não podia nada,
isto foi quando
meu anjo da guarda
me pegou cagando.

Jorge Barbosa Filho, também conhecido como Jorge do Irajá, nasceu no Rio de Janeiro, em 1960. Morou em Curitiba durante o início dos anos 2000. Autor, entre outros, dos livros de poemas Mais (1985), Mequetrefes (1990) e Buquês de alfafa (2005). Manteve uma coluna sobre poesia chamada “Diversos”, de 2007 a 2008, na revista Ideias. Atualmente, trabalha na Galeria de Artes Maria Tereza Vieira, no Rio de Janeiro, onde vive.