Novela | Copi

O uruguaio seguido de A internacional argentina, de Copi

Tradução: Carlito Azevedo

Trecho de O uruguaio seguido de A internacional argentina, reunião de duas novelas do argentino Copi (1939-1987), a ser publicado este ano pela Rocco na Coleção Outra Língua — série de autores cujo aspecto comum é a língua única que exploram, o espanhol multiforme das Américas em suas expressões mais singulares.



Olá, imbecil. Esta manhã um iate de turistas argentinos atracou na costa e eles me perguntaram se eu precisava de algo, respondi que não. Quando se foram me dei conta de que poderia lhes ter dado esta carta, mas agora é tarde demais. O mar avançou quase um quilômetro. Tive que correr para não ser alcançado pelas ondas. Os frangos flutuam sobre elas e parecem mais felizes, muito menos apressados e histéricos que ontem. O mar demorou três dias para se retirar calmamente, levando consigo toda a areia; e a cidade de Montevidéu ainda estava ali, coberta de cadáveres. Ontem à tarde ouvi o ruído de um motor, saltei de minha cama e olhei pela janela: era um caminhão da Prefeitura (Municipalidad) que vinha recolher os cadáveres. Aterrorizou-me a ideia de ser colocado no caminhão junto com os outros e passei o resto da noite escondido embaixo da cama apesar de em nenhum momento os ter ouvido entrar na casa. Quando finalmente adormeci, tive um sonho estranho que contarei mais tarde, pois o despertar é que foi muito mais interessante. Meu quarto tinha sido literalmente invadido por militares, alguns estavam sentados em minha cama, outros caminhavam para lá e para cá entre o lavabo e o armário, chocando-se às vezes contra as paredes, havia até quatro deles sentados sobre o armário e dois em seu interior; todos fumavam havanas enormes e não paravam de falar, todos ao mesmo tempo. Timidamente, saí de debaixo da cama e então se calaram. Tinham vindo apertar a minha mão, um depois do outro, alguns até me deram beijos na face. Uma menina de uns 6 anos entrou com meu cão empalhado nos braços e o deu para mim. Quando o tomei, eles todos foram embora em silêncio. Não compreendi absolutamente nada da cerimônia, nem como encontraram o cadáver de meu cão, nem por que vinham entregá-lo a mim. Em todo caso, pareciam tão cordiais que pensei que não devia me inquietar; coloquei meu cão empalhado sobre a lareira, fui ao banheiro e saí para a rua como todos os dias. Isso não mudou tanto comparado com o tempo anterior à catástrofe, excetuando que toda a gente está morta e empalhada. Você vai me dizer que essa é uma diferença notável, mas como nunca tive verdadeiras relações com eles, ao fim de cinco minutos me habituei perfeitamente com isso. Devo lhe dizer que a maneira como estão dispostos é bastante grosseira (logo eles que eram tão meticulosos na escolha de seus lugares!), veem-se, às vezes, montanhas de cadáveres na esquina de uma rua, alguns jogados sobre os tetos dos automóveis, cheguei a ver alguns presos nas árvores, e os que estão pendurados na janelas estão às vezes postos de cabeça para baixo, o que quer dizer que tudo o que se vê da rua são suas pernas e sapatos. Dir-se-ia que esse trabalho foi feito com pressa e sem convicção. Ao chegar à loja (a mulher negra estava empalhada, debruçada sobre o mostrador) tive a surpresa de encontrar a menina que havia poucos instantes tinha me dado o cão, a qual, vendo-me ali, foi tomada por uma crise de riso louca e se escondeu atrás do balcão. Peguei um pacote de gauloises e deixei um franco e cinquenta (três pesos e dez) sobre a barriga da mulher negra, depois saí dali e fui à praia (fazia um tempo esplêndido). Ali, encontrei meus amigos militares desta manhã ocupados em medir o poço dos frangos (o que tinha sido o túmulo de meu Lambetta) com cordas. Receberam-me com manifestações de alegria e me ofereceram cigarros. Recusei de forma polida e parece que isso os divertiu, pois começaram a rolar de rir no chão, sobretudo quando me viram acender um gauloise. Quando se acalmaram um pouco, perguntei: “Por qué catástrofe?” apontando para o poço. Ficaram brancos como a neve. Finalmente, um deles deu um passo para frente e sussurrou em minha orelha: “Yo soy el Presidente de la República Oriental” e, me pegando pelo braço, levou-me na direção do mar. Ao chegar à beira, desnudou-se cuidadosamente, dobrando suas roupas e colocando-as sobre a areia. Pareceu-me que devia fazer o mesmo. Quando ficamos os dois nus, os outros, que se mantinham prudentemente a distância, puseram-se a aplaudir e a gritar “viva el diálogo”, imediatamente batemos continência e entramos no mar. A cada onda, o presidente gritava “viva la mar” e pareceu-me que devia fazer o mesmo. A cada exclamação nossa, os outros aplaudiam lá na beira da praia. Quando deixamos para trás as ondas (o presidente nadava como uma foca, fazendo com a boca um ruído muito desagradável), me disse no tom mais natural do mundo: “Usted presidente?”, respondi “no presidente”, então me olhou fixamente com seus olhos de foca: “Por qué?”, me disse. “Não basta querer para ser presidente”, respondi. “Macanas!1”, disse ele em tom peremptório. Esse diálogo me pareceu perfeitamente estúpido e voltei às pressas para a beira da praia, e foi quando ouvimos o barulho de um avião. Levantei a cabeça. E em menos tempo do que eu levo para contar isso, o avião lançou uma bomba sobre os militares que tinham ficado na praia. O mar produzia ondas em sentido contrário que quase nos arrastaram longe demais para poder regressar. Alcançamos a areia quase sem ar, e ali encontramos um monte de cadáveres carbonizados sobre a areia negra. O presidente parou diante de cada um deles, pronunciando a palavra “militar” em tom solene, e batendo continência, depois se vestiu do melhor jeito possível, pois suas roupas estavam meio queimadas (as minhas também, mas pareceu-me que a situação era mais embaraçosa para um presidente do que para mim), finalmente me disse, colocando a mão em meu ombro: “Racconta-me tutto.” Fiz o melhor que pude, começando pela narrativa de meu cão cavando o poço na areia. “Quién culpable?”, perguntou-me quando terminei de falar. “Nosé”, respondi. “Bravo!”, gritou, beijando-me o rosto quatro vezes seguidas. Depois disso entrou com roupa e tudo no mar e começou a nadar; não tinha se afastado nem cem metros quando ouvi o barulho do avião, levantei a cabeça e pouco depois bum! em cheio sobre a cabeça do presidente, de quem não sobrou mais do que uma grande mancha vermelha no mar. Nesse momento, comecei a me fazer perguntas, ou melhor, uma só pergunta: por que eu era o único sobrevivente do Uruguai? Aparentemente havia também a garota, mas logo esse ponto foi esclarecido: ao entrar em minha casa encontrei-a estripada em minha cama. Até amanhã, Mestre.



Copi o é pseudônimo de Raúl Damonte, um “argentino de Paris”, como ele mesmo se apresentava. Escritor, dramaturgo, ator e cartunista nascido em Buenos Aires em 1939, mudou-se para a França em 1962 e por lá passou a vida, falecendo em 1987 em decorrência de complicações relacionadas à AIDS. Integrante da trupe teatral fundada por Alejandro Jodorowsky, Fernando Arrabal e Roland Topor, desenvolveu vasta obra dramatúrgica e cartunística caracterizada por César Aira como um “barroco de nosso tempo”. No Brasil, teve cartuns publicados pela revista Status nos anos 70, além de reunidas as peças teatrais Eva Perón, Loretta Strong e A geladeira em um volume (7Letras, 2007).

Ilustração Bianca Franco