Em busca de Curitiba | Fernando Koproski

Um poeta deve matar


a poesia não está no que os poetas dizem
a poesia não está no que os poetas falam em suas poéticas
a poesia não é o que eles pensam
que os poemas pensem


Não posso ficar parado que já começo a pensar. Depois de quarenta minutos de trânsito, finalmente desço do ônibus. Até que enfim o terminal do Guadalupe, esse mictório onde desemboca todo o intestino de Curitiba... Traficantes, prostitutas, assaltantes e alunos de letras, toda a marginália num raio de três quadras converge pra cá. E arrasta em seu curso as senhorinhas honestas, as diaristas, as moças de família, os porteiros, os representantes comerciais, os vigias noturnos, os estudantes de outros cursos e toda sorte de cidadão honesto que precisa pegar um ônibus se quiser uma hora voltar pra casa.

Depois de três quadras, começo a andar pelo calçadão. A reitoria está aqui do lado, mas antes de chegar lá preciso fazer uma coisa. Agora só faltam umas quinze ou vinte quadras pra te encontrar, Morte. E não estou armado, não ainda.



a poesia muito menos
é o que as musas sentem
a poesia muito mais
do que os poetas pressentem

após passar a noite,
o que mais meu verso invente
bebendo poemas como se fosse blues
quem disse que é poesia esse bafo de luz
que por onde passam, as musas mentem?




Não posso andar que já começo a pensar. Isso sempre acontecia comigo quando andava pela XV. Passava meia-hora andando de casa até a universidade e não via ninguém. Muitas vezes um conhecido dizia depois que havia me
cumprimentado, mas eu nem respondia. O pior é que era verdade, sempre fui distraído. Me distraía a cada momento que passava no calçadão. Às vezes porque estava simplesmente olhando uma cena, às vezes porque estava escrevendo de cabeça um poema, mas nem sempre eu pensava em poesia, nem sempre eu escrevia. Muitas vezes era só a poeira girando dentro da minha cabeça, provocando algum pensamento afogado na inércia daquele mar de neurônios condenados à neura da repetição... Como eu disse, muitas vezes era só a poeira girando dentro da minha cabeça, se levantando, pairando e depois lentamente se assentando novamente.

Mas se nessa hora em que as micropartículas de pó levitassem, de repente abrisse uma réstia de luz na minha cabeça, e uma lasca de sol entrasse sem ser convidada, eu já sabia: era poesia. Por um instante, eu podia até pensar que era uma epifania, tipo um acúmulo de nuvens douradas guardadas no fundo do crânio, mas no íntimo eu sabia que isso jamais existiria, ou se existisse, francamente não resistiria. Porque no fundo da cabeça era simplesmente poeira, dourada ou não, mas ainda poeira e talvez o início de uma poesia.

De qualquer forma, sempre que isso acontecia entrava num impasse: ou escrevia o que me vinha ou ignorava a magia. Mas você já fez isso algum dia, você já ignorou a poesia?

O dia em que ignorei a poesia: 21 de maio de 2009.

, ela estava comigo naquele dia. Seis da tarde. Ela tinha acabado de sair da aula de dança flamenca. Suas pernas brancas mal se continham dentro da meia-calça roxa. Os sapatinhos de boneca realçavam ainda mais a delicadeza dos pés. A sainha preta ficava agitada diante de minha presença e se rebelava ao vento, inaugurando belezas imprevistas na linha de cintura que a suavidade de seus gestos não compreendia, só intuía entre os seus passos de quase dança e os canteiros improvisados de pétalas de ipês amarelos caídas ao chão.

Mariana tinha 26, um pai alcoólatra, uma mãe doente, um irmão carente e uma série de tios e tias ausentes. Ela fazia música na faculdade de artes, queria ser pianista, tocava desde os quatro anos. A dança era mais uma transpiração do que uma ocupação. Era como a poesia pra mim: um suor da alma. Era algo tão natural e certo e irremediável que parecia não exigir dela nenhuma espécie de esforço para acontecer. Ela dançava não porque ambicionava isso, mas porque a dança era simplesmente sua moradia nas coisas que ela sabia e seu caminho para tudo que ela desconhecia. Sim, quando vinha na minha direção naquele fim de tarde, ela dançava pra mim belezas imprescindíveis de jasmim.

Mas a caminhonete importada avançou o sinal naquele instante. Poderia ter sido um minuto depois ou um minuto antes. Mas não. Tinha que ser naquela hora em que ela se virou pra sorrir pra mim, anunciando com os olhos verdes o seu abraço de jasmim. A caminhonete prensou seu corpo frágil violentamente contra o poste, esmagando pétalas de ipês, e roubando de mim para sempre aquele abraço delicado.

Eram seis da tarde quando meu mundo caiu. Sem boleros de Maysa, sem falsa poesia, sem chance de chegar à enfermaria.

Agora vocês já sabem porque estou aqui, porque peguei um ônibus em São José dos Pinhais quarenta minutos atrás, porque passei pelo Guadalupe mais uma vez, porque não fui direto pra reitoria, porque andei vinte quadras no calçadão da XV pra comprar aquela pistola na Cruz Machado. Por causa disso: um poeta deve morrer, mas antes um poeta deve matar. Sim, um poeta deve matar.

sonho com você dançando,
o sol em mais uma explosão solar,
os girassóis estourando com o calor,
a verdade absurda
de tuas coxas durinhas
dançando entre os canteiros dourados
improvisados pelas pétalas caídas dos ipês

sonho com você dançando, Mariana
e esse poema arrebentando a tarde
sem você perceber


Já não tem mais sol quando chego na universidade. A escadaria da reitoria está suja e escura como sempre. A cantina, sempre clara e branca, insuportavelmente branca como aquela sala branca, pálida e silenciosa no final do 2001 do Kubrick. Pure white nothingness, o puro e branco nada. Vejo ele no canto, já tinha saído da sua aula de francês. Ele, o cara que atropelou Mariana a 160 quilômetros por hora numa via urbana. Ele, o cara que matou o meu amor e que saiu ileso dos dois processos que abri contra ele. Ele era um cara muito sensível, fazia Letras francês na Federal, pintava quadros, fazia exposições e volta e meia se engajava em alguma causa igualitária em prol das minorias, tão sensíveis e oprimidas quanto ele.

Agora ele estava ali, esperando sentado pela morte. Quem sou eu pra desapontar o infeliz? Entre as mesas brancas, eu ando devagar e todo o barulho dos estudantes de repente se cala. Quando chego na frente dele, saco a pistola gelada em meu casaco e nem hesito: três, quatro, seis, sete, oito tiros no peito. E no final, um na cabeça. De saideira.

O último nem precisava, mas nunca fui de dispensar uma saideira.

Depois que apaguei o infeliz, demorou dez minutos pra aparecer um guardinha. Embora a guarita estivesse ao lado da cantina, ele não teve coragem de ver o que acontecia. Quando ele chegou na cena, eu já estava longe. Já estava longe daquela branquidão. Finalmente, consegui arrancar aquele silêncio de dentro da cabeça. Depois de duas quadras, andava pelas ruas e tudo estava tão calmo. Olhei minhas mãos e elas estavam douradas. Um líquido quente e dourado escorria entre meus dedos.

Entrei com pressa no terminal e fui direto pro banheiro. Lá deu pra ver melhor, e não era nada bom. O dourado vinha da minha nuca e descia rápido pelos ombros, pingando pelos cotovelos, escorrendo pelos braços e por fim se denunciando em minhas mãos.

A bala deve ter entrado bem na base do crânio, enquanto eu descia a escada da reitoria. Por isso eu já esperava, alguém covardemente me cuspindo uma morte pelas costas. Tanto a bala, quanto uma morte ou duas já eram esperadas. Só não esperava todo aquele dourado escorrendo da minha nuca. Aquilo, confesso, é o que me incomodava agora.

O tempo todo em que fiquei em tratamento psiquiátrico naquela clínica, onde me internaram depois da morte de Mariana, todos diziam que as nuvens douradas eram alucinação da minha cabeça, que eu só precisava ficar ali mais uma semana e tudo iria se resolver. Era só ter paciência e descansar mais uma semana e mais uma semana e mais uma semana.

Com certeza, os psiquiatras não acreditavam no dourado, apenas fingiam que ouviam quando eu falava sobre as nuvens douradas depositadas no fundo de meu crânio, pressionando a nuca e me dando aquela contínua dor de cabeça. Diziam que isso era um simples efeito colateral da fluoxetina, devido ao excesso de serotonina liberado em meu cérebro. Mas não era com eles que isso acontecia. Não eram eles que tinham aquela insuportável dor de cabeça todo dia às 4 da madrugada, me fazendo acordar e escrever. E então era só isso o que eu fazia: eu escrevia e escrevia e escrevia até que as nuvens douradas se aquietassem dentro da cabeça. Era o cúmulo eu um homem crescido com todos aqueles cúmulos-nimbos dourados varrendo poeira da cabeça e versos das minhas veias.

Mas agora a bala já estava fazendo efeito. A bala conseguiu realizar o que as drogas e as sessões de terapia falharam. Ela tirava aquele excesso de céu dourado da minha cabeça.
Olhei no espelho uma última vez e saí.

Agora estava tudo branco naquela noite escura. Mesmo sob as lâmpadas queimadas do terminal, tudo estava claro. A claridade me atingiu primeiro na perna, depois no braço esquerdo, duas vezes no pulmão. Respirar com tanta claridade estava ficando difícil. Pus a mão no casaco à procura de meus óculos escuros, mas eles deslizavam de minhas mãos. Estavam escorregadios e completamente ensopados de dourado.

Mesmo assim, ainda consegui pôr meus óculos. Mariana, você precisava estar aqui pra ver essa noite. Estou pingando pétalas de ipês pelos cotovelos. O dourado dos ipês me esquenta como teu beijo e o sangue do girassol. Ah, Mariana, essa noite pode até escurecer até eu te alcançar, mas depois as nuvens douradas vão fazer sol.

Fernando Koproski é escritor e poeta. Traduziu e organizou antologias poéticas de Charles Bukowski e de Leonard Cohen. É autor de Nunca seremos tão felizes como agora (7 Letras), entre outros livros.

Ilustrações: Felipe Rodrigues