Conto | Pablo Ramos

Tudo pode acontecer

Tradução: Mariana Sanchez



Mais um dia de chuva. Contemplo a tarde da sacada de minha casa. Uma moça acaba de pisar na faixa amarela dupla da Avenida San Martín e agora é surpreendida pelo semáforo. Parada no meio da arrancada, parece confusa. Os carros são um rio interminável: não há lugar por onde avançar, não há forma de recuar ou de se arrepender. Tenho a certeza de que algo vai acontecer neste instante. Olho os carros estacionados, as pessoas que caminham distraídas; olho as lojas, os resquícios do verão nas vitrines desorganizadas. Tudo continua igual: um cartão-postal em movimento que resiste ao tempo.

A moça dá um passo atrás e um motoqueiro que não consegue frear inclina a moto com seu corpo para não acertá-la em cheio. Passa perto demais, talvez empurrando-a um pouco, porque a moça cai e o motoqueiro, por sua vez, também cai e desliza no asfalto mais de vinte metros. O semáforo muda e os dois têm sorte de os carros pararem. Ele levanta e caminha, arrastando a moto, até onde está a moça — quase sentada no meio da avenida. As pessoas se amontoam. Posso reconhecer uma meia-dúzia daqui de onde estou, sentado na sacada de minha casa como no palco de um teatro. Alguém pede aos gritos que não toquem nela e afasta a multidão, empurrando com força. Depois uma sirene, uma ambulância, o carro da polícia.

Continuo no mesmo lugar — na sacada de minha casa. Ainda assustado, embora a rua, pouco a pouco, tenha voltado a ser a de sempre. Ando até a cozinha e ponho água para o mate. Ainda guardo na mente a última imagem da avenida e então de repente, a troco de nada, essa imagem é substituída por outra imagem: a de um sapato. Uma imagem real, quase perfeita: um sapato, com certeza de mulher, jogado no meio da avenida.
Saio da cozinha, cruzo a sala e vou para a sacada. O sapato está ali, exatamente em cima da faixa amarela dupla, salvo por pouco dos carros que vêm e vão. Saio do apartamento e em duas pernadas desço a escada até a portaria. Saio para a rua, espero uma oportunidade e atravesso para buscá-lo. É o sapato esquerdo, com o cadarço perfeitamente amarrado e uma meia soquete azul e branca na parte de dentro. Parece algo montado, uma brincadeira de mau gosto. Como o sapato pôde ter saído dessa forma? Como o pé pôde sair sem levar junto a meia? Volto ao apartamento e o deixo na cozinha. O sapato agora está ali: molhado sobre a bancada de mármore. Enquanto preparo a erva-mate, me agacho para cheirá-lo. Tem o cheiro que deve ter: de couro molhado. Nada que o relacione à moça do acidente, nenhum cheiro feminino, nenhum perfume. Apenas couro molhado e uma soquete de algodão suja de barro. Olho para ele mais uma vez, depois o deixo, me esqueço, o dia termina e vou dormir.

É a tarde do segundo dia do sapato na minha casa. Sempre no mesmo lugar, agora seco e enrijecido pelo calor da cozinha. Volto a olhá-lo de perto, a cheirá-lo. A meia está pendurada na lavanderia, limpa e úmida, junto com a roupa recém-lavada. Estou descalço, parado sobre o piso de cerâmica. Sento na bancada, desato o nó e tiro o cadarço. Depois tento calçar o sapato. Impossível, é pequeno demais para o meu pé. Mesmo assim não tiro, desço da bancada e caminho assim, com o sapato meio calçado. A altura desigual e a pressão nos dedos me impõem um passo desajeitado, escandaloso. Fazem eu balançar o quadril como uma velha manca.

Vou até a geladeira, abro a porta e tomo um gole de leite. Depois vou até o quarto. Atravesso a casa toda em direção à sacada. Paro na sala para me ver refletido no espelho que ocupa quase toda a parede de fundo. Caminho de perfil e me olho, primeiro do lado do pé descalço, depois do lado do sapato. Continuo fazendo minhas coisas como se nada. Vou ao banheiro e escovo os dentes, preparo um mate. Volto para a sala (quando passo em frente ao espelho me olho dissimulado), pego um livro da biblioteca e sento na poltrona. Cruzo as pernas a esquerda sobre a direita —, vejo pender dos meus dedos o sapato sem cadarços. Não tenho intenção de ler e então me levanto. De novo até a cozinha, de novo ao banheiro, mancando e arrastando o sapato pela casa toda. De repente me sinto desanimado, envergonhado não sei de quê; sentado na bancada de mármore como se tivesse cumprido meu objetivo, tiro o sapato e o abandono. Deveria jogá-lo fora, penso. Mais tarde, digo, quando tirar o lixo.

É então que eu o vejo: um papelzinho cor de rosa jogado no chão da cozinha. Pego-o e noto que está dobrado. Também está escrito: “J. A. García 1249”, diz. É um endereço, e a poucas quadras de minha casa.
É evidente que o papelzinho estava dentro do sapato. Mas quem teria a ideia de colocar um endereço no sapato como se fosse uma agenda ou algo parecido? Será uma pegadinha que espera terminar com a correspondente entrega a domicílio? Ou será que essa mulher, doida de pedra, pôs uma etiqueta com seu endereço no sapato esquerdo simplesmente porque quis? Desdobro o papel e comprovo que também tem algo escrito dentro. “Tudo pode acontecer e vamos estar sempre felizes e nos amando”, diz. A frase não está assinada, e a letra (tenho certeza) não é da mesma mão que anotou o endereço. A frase tampouco tem sentido assim, solta, escrita num papel que minutos atrás estava dentro de um sapato.

Não posso imaginar o porquê, mas estou na rua. Levando o sapato com a meia dentro de uma sacola plástica. Caminho apressado. O chuvisco ameaça virar chuva torrencial a qualquer momento e chuva torrencial, neste bairro, significa inundação. Por isso caminho apressado. Me sinto incomodado, como se todo mundo soubesse que estou devolvendo meio par de sapatos velhos.

Chego ao lugar e descubro que é um local abandonado: uma porta de enrolar com hastes de ferro, forjada em losangos, impede a passagem. Atrás dela, uma porta vaivém destruída, duas vidraças quebradas e pintadas com cal e um buraco na parede do fundo por onde entra um pouco de luz. No centro, pode-se ver uma espécie de impressora antiga. Não há campainha nem ninguém à vista que possa escutá-la. Não bato. Meto a sacola por um dos losangos da porta de enrolar e jogo-a com força, tentando enfiá-la pelo buraco de um vidro quebrado. A meia sai e cai lá dentro, a sacola engancha e fica pendurada. Está feito, digo.

Agora chove. Olho pela última vez a sacola com o sapato dentro e começo a caminhar. Me concentro nas calçadas, na cor das lajotas. A primeira calçada é amarela, caminho uns passos e ela vira vermelha, com as lajotas estriadas na direção da rua. A próxima é cor de cimento e está bastante estragada. Depois outra amarela, que continua ao virar a esquina. Um mal-estar inexplicável me aperta a boca do estômago. Mais quatro quadras e tenho certeza do que é, mas tento ignorar. O esforço dura duas quadras vermelhas. Paro, dou a volta e caminho até o local. Olho a sacola plástica pendurada na ponta do vidro quebrado, o sapato está ali dentro, pequeno demais para o meu pé. Procuro alguma coisa para alcançar a sacola: um galho, um pedaço de madeira. Encontro um papelão duro e o retorço. Meto o papelão e o braço inteiro por um dos losangos da porta, mas mal consigo alcançar o vidro. Não sei se quero pescar o sapato ou jogá-lo lá para dentro. Dou batidas no vidro com a ponta do papelão, que se dobra como se fosse de manteiga.

O que posso fazer agora? Está chovendo a cântaros. Posso procurar uma pedra. Procuro uma pedra. Estou nervoso, tenho medo que alguém me veja. O que iriam pensar? O que eu poderia dizer? “Não está vendo, senhor, que estou devolvendo um sapato?” Jogo a pedra, o vidro se espatifa e a sacola cai do outro lado. Então eu vou embora, primeiro animado, depois com a sensação de ser um idiota, de ter me molhado à toa.
Estou novamente em casa, tomando mate, com uma toalha nas costas, olhando pela janela da sacada. A chuva agora se deixa ouvir com força. Parece que o vento vai varrer a avenida. O sapato não está aqui e é uma ausência estranha. “Tudo pode acontecer e vamos estar sempre felizes e nos amando”, digo, e escuto a chuva que, como o perfume de alguém querido e ausente, invade a noite.


Pablo Ramos nasceu na Grande Buenos Aires, em 1966. Publicou os romances El origen de la tristeza, La ley de la ferocidad e En cinco minutos levántate María, além do volume de contos El camino de la luna, todos pela Alfaguara. Com o livro Cuando lo peor haya pasado, do qual foi extraído este conto, Ramos venceu o prêmio do Fundo Nacional das Artes da Argentina, em 2003, e o Casa de las Américas de Cuba, em 2004. No Brasil, foi publicado pela Arte & Letra (revista Estórias) e integra a antologia Contos em Trânsito (Alfaguara, 2014). Vive em Buenos Aires (ARG).

Mariana Sanchez é jornalista com especialização em tradução literária pela Universidade Gama Filho e em cinema pela Faculdade de Artes do Paraná. Idealizadora do programa de rádio Orelha do Livro, nasceu e vive em Curitiba (PR).

Ilustrações: Marília Costa