Biblioteca Afetiva

Eu nem estava resfriado como Sinatra quando li Fama e anonimato, de Gay Talese, mas fiquei de cama como se estivesse doente. Não é o melhor livro que li, mas talvez seja a maior descoberta que já tenha feito em uma leitura: eu não esperava conhecer uma Nova York através dos tipos de gatos, por exemplo. Sempre me impressionou. Talese transforma a realidade em algo a mais ao botar tanto afeto no ofício de escrever algo verdadeiro; aquilo é ficção sem ficção, seja lá o que isso signifique.

Diogo Guedes é jornalista e mestre em Mídia e Estética pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). É repórter de literatura do Jornal do Commercio, com passagens pelo Suplemento Pernambuco e pela Revista Continente. Vive em Recife (PE).

A invenção da solidão e seu autor, Paul Auster, apareceram para mim na volta do enterro do meu sogro à época. Ao voltar para a casa dele, logo após deixar o cemitério, encontrei o exemplar à sua cabeceira. No livro autobiográfico, ao mesmo tempo memória e ensaio literário, Auster desenvolve um dos mais contundentes tratados sobre a memória, a linguagem e a busca da identidade. Nos meses que se antecederam à morte daquele meu sogro, eu havia tido com ele uma relação quase paternal. Transferi de tal forma o sentimento filial àquele homem, que só a partir da morte dele elaborei questões fundamentais ao luto pela morte do meu próprio pai, ocorrida 15 anos antes.

Rômulo Zanotto é ator por formação acadêmica e acabou encontrando nas letras sua arte. É autor do romance Quero ser Fernanda Young (2012) e trabalha em agência de publicidade, mas queria mesmo era escrever sobre cultura e comportamento. Catarinense, vive em Curitiba (PR).