POESIA | Quase dá para chamar de dança 10/06/2026 - 11:48

Por Emily Bandeira


2015

a coisa pequena que cuido e chamo de mim mesma 

2016
Anotação Szymborskiana

A vida: única oportunidade de perder chaves na
grama 

vida: única oportunidade de trancar-se fora de casa

de perceber, então, o que seria casa 

de tomar uma cerveja de bucho vazio 

vida: oportunidade única de escolher permanecer debaixo da chuva 

de criar expectativas, 

esperando alguém que irrompa na frente do bar e 

venha dividir essa cerveja comigo.


2017

Com o céu da boca queimado  
e o coração descompassado  
seguimos sem muito entender 

Cidade estranha, não sei se é você que me habita
mas definitivamente algo se passa  
que não te entendo  

E não me entendo entre tuas quadras
caminho quase sonâmbula  
mas acordada demais, meu deus  

acordada demais 


2024

Leio poemas de uma nova poeta
e me impressiona seu desejo voluptuoso 

me pergunto se meu desejo 
anda volumoso assim 

sinto meus sentidos aguçados 
ao caminhar entre as ruas 
mas ando disfarçada de águas tíbias

– mornidão mansa

 

Emily Bandeira é escritora e tradutora. Nasceu em Caruaru (PE) e mora em Brasília (DF). Os poemas publicados no Cândido são do recém-lançado Quase dá para chamar de dança, pela editora Andrômeda, uma seleção cronológica de seus escritos, produzidos en­tre os 10 e os 29 anos. Publicou de forma independente as plaquetes sardas (2016), cardápio de amar ou coisa assim (2018) e margília (2019). Formada em Línguas Estrangeiras Aplicadas pela Uni­ver­sidade de Brasília (UnB), trabalha como tradutora e intérprete de inglês e espanhol. Em 2024, traduziu o livro Hidrografia Doméstica, do argentino Gonzalo Castro.

GALERIA DE IMAGENS