RESENHA | O "livro estrada" de Eric Rodrigues – viagem por entre ausências 19/06/2026 - 09:50

Por José Carlos Fernandes


Permitam-me a primeira pessoa.

O livro Comadre São – memória familiar e oralidade (Letras e Versos, 2026), de Eric Rodrigues, me é íntimo. Vi-o nascer, ao longo de quase um ano, período em que o autor – então graduando de Jornalismo da Universidade Federal do Paraná (UFPR) – produziu-o como trabalho de conclusão de curso. Para mim, poderia ser rotina – afinal, são quase 30 anos de magistério e um sem número de orientações. Mas foi tudo, menos repetição. Explico.

Em si, Eric Rodrigues se mostrou previsível, uma espécie de orientando modelo. Comparecia a todos os nossos encontros, cumpria de forma quase monástica cada etapa do cronograma. Na escolha do tema, dialogava com questões contemporâneas – a memória, a es­crita de si, a "guinada subjetiva". Tinha a seu dispor uma farta bibliografia, que devorou com apetite e disposição atlética. Os fatos da vida é que deram de ser desobedientes, obrigando o autor, que tinha planilhas per­feitas para enfrentar a escrita de um livro, a seguir o curso de rios nada brincalhões com ele. Nem comigo.

Do alto de tantos TCCs – com folga a atividade mais prazerosa do ensino superior – caí de bunda. Explico. Há uma tendência natural, nos casos em que a realidade se torna impertinente, de aplicar a regra da "resolução". Em bom português, "quem não tem cão, caça com gato". Cai por terra uma possibilidade, busca-se outra. Só que Rodrigues não quis remendos. Em vez de procurar saídas fáceis a cada nova prova de obs­táculos, ele as incorporava ao livro, distanciando-se solenemente dos truques próprios dos livros-reportagem e das reportagens que flertam com o jornalismo literário. Na contabilidade final, em se tratando das métricas acadêmicas, Comadre São veio ao mundo como um livro inclassificável.

Bem que tentei lhe dar um rótulo. E acredito que outros devem fazer o mesmo, assim que se aventurarem pela leitura dessa obra que – e isso é uma unanimidade – nos suscita o desejo do abraço. Alerta máxi­mo: não se trata de fofura, de encantamento comer­cial. Longe disso. Eric, inclusive, vacinou-se para não cair na tentação da pieguice, desobrigando o leitor de se emocionar por decreto. E adianto que se dispor a não manipular o público, neste caso, foi difícil pra caramba. A comadre São do título é Maria da Conceição, mãe do autor, e se despede da vida durante a escritura do livro. Lembro de lhe perguntar se queria continuar, assim que passaram as exéquias. Temia que uma depressão braba o arrastasse para debaixo das cobertas. Mas que nada. Se era essa a verdade do livro – a de uma protagonista ausente – que valesse a verdade.

Ainda que tenha sido a maior e a mais dolorosa, a partida de Conceição não foi a única ausência com a qual Eric teve de lidar. Tal e qual o prólogo do também inclassificável documentário Santiago, de João Moreira Salles – uma das muitas obras singulares com as quais Comadre São dialoga – o autor também fez mapas mentais, prevendo como contaria a história. Mas nada sai como o planejado. Cartas, álbuns de fotografias, certidões, documentos, objetos passados de geração em geração... Nenhum desses aparatos burgueses, onipresentes nos encantadores estudos sobre memória, existem de forma expressiva numa família negra, que migrou de Minas Gerais para o Norte Velho do Paraná. A própria ideia de família foi derretendo ao longo do road movie de Rodrigues, sertão paranaense e mineiro adentro, na busca de amarrar as pontas biográficas de um grupo social enquadrado como "pessoas comuns".

Em vez de rastros, encontrava restos.

A cada novo hiato da trama – ou "espaço vazio", como se diz nos estudos de recepção – impossível não pensar, e até se ressentir com quem operou o sequestro da história dos simples. Longe da obra promover um acerto de contas com essa sacanagem de escala federal, iniciada com a chaga da Escravidão. Mas a ferida está lá, pairando em meio aos encontros de Eric com seus anônimos em estado bruto. Não os objetifica, como é de praxe em algumas práticas jornalísticas, mas mostra que cada um tem o hálito da vida. A essa altura, o leitor já está abraçado ao texto.

Nas muitas tentativas que fiz de produzir leituras cruzadas, que me ajudassem a encontrar vocabulário capaz de expressar a força de Comadre São, lembrei de Janet Malcolm. Cínica, desbocada, arrogante, não importa. Eu a amava. Essa mestra entendia das sombras. Cultivo, em particular, um texto dela que me persegue: "Reflexões sobre autobiografia de uma autobiografia abandonada", incluído na coletânea 41 inícios falsos – ensaios sobre artistas e escritores (Cia. das Letras, 2016). Recomendo.

Nas entrelinhas desse acerto de contas, penso, Janet acusa o jornalismo de tê-la viciado em realidade, inibindo a capacidade de imaginar. A imprensa teria matado a ficcionista – e lhe parecia tarde demais para "mudar de pele", como diz. Pois é. Só que paira uma suspeita – Malcolm está blefando, mais uma vez. Sim, ela prefere a realidade – e nem poderia ser diferente, porque a realidade é um tesão. Creio que Eric Rodrigues fez percurso semelhante. Não se intimidou diante dos "zilhões" de conceitos que problematizam o real, a objetividade, e os assumiu como barro do qual o jornalismo é feito. Ao tirar para dançar cada um dos vazios, cada uma das perdas que encontrou entre Curitiba, de onde partiu, e Mato Grande (MG), onde chegou, imprimiu a vida, essa aventura imperfeita, injusta e magnífica mesmo quando nos joga na fogueira.

Comadre São é, sim, um livro-reportagem, de caráter autobiográfico e coisa e tal. Mas é sobretudo uma espécie de água-forte, com água tinta, gravuras que pedem traços feitos com coragem, entregues ao ácido, mas que quando impressas dizem de onde veio. Goya? Goya. Mesmo as linhas obscuras nos entregam uma poética que ficcionista nenhum de gabinete seria capaz de produzir. Janet sabia disso. Eric também. Por isso, Comadre São não é livro de chorar a mãe perdida, a história repleta de lacunas. É "livro estrada", pede que a gente saia de onde está e arregale os olhos. O lugar comum reservado aos anônimos – em determinados estratos do jornalismo – não vestem as pessoas que agora moram dentro dessa obra instalação. Tinha de ser assim. Ou seria mentira.

 

comadre são 1
Nas pedras da borda do Setúbal, onde as mulheres lavavam as roupas no passado


Confira um trecho de Comadre São

 

Perguntas sem respostas

É na cozinha que as coisas acontecem. Nas visitas de fim de semana, entre cafés matinais, almoços e lanches da tarde, as prosas vão longe e atravessam o cotidiano, a intimidade e as menções aos conhecidos. Foi perto do Natal de 2022 e em um cenário assim que minha mãe gastou os neurônios para buscar respostas sobre o seu passado, sua terra e sua verdadeira mãe. Após trinta anos de convivência, eu e ela percebemos, naquele instante, que a nossa memória familiar era, até então, sensível e limitada.

Conversas como a que tivemos naquele dia são frequentes nos grandes encontros familiares e sempre acontecem em torno de mesas cheias de comidas típicas de Minas Gerais. As bocas comem e bebem enquan­to falam de tal comadre que mandou um abraço, do com­padre que viajou, dos filhos e enteados que cresceram, das mudas de chá para curar as dores e de outras coisas mais sobre a vida. Esses rituais ficam guardados na memória. Porém, tendem a mudar suas essências. O sotaque mineiro, por exemplo, é uma dessas marcas que se diluíram ao longo do tempo e espaço. O que an­tes soava "mineiro baianizado" da terra natal, hoje se mescla com a atmosfera do interior do Paraná.

Minha mãe é assim: mineira de certidão e paranaense de criação. Seu nome é Maria da Conceição Rodrigues Barreiro, mas os membros da família a cha­mam de Comadre São. Nasceu no nordeste de Minas Gerais, em Mato Grande, área rural de Minas Novas, em 20 de agosto de 1969. Foi registrada dois anos depois; porém, meu avô, o "falecido" Izalino Rodrigues Barreiro, sempre garantiu que o mês e o dia estavam corretos no documento. Quando perguntam a idade, minha mãe responde com a qual lhe deixa mais jovem — parece ser uma forma de enganar o tempo.

O caminho do sertão mineiro até os Campos Gerais do Paraná passa de 1,5 mil quilômetros. Nas malhas rodoferroviárias inauguradas pelo presidente Jus­celino Kubitschek e consolidadas pelos militares que tomaram o poder em 1964, minha mãe tomou rumo para o Sul em 1973. Ela e outros 31 mineiros embarcaram num ônibus em busca do 'Brasil do futuro'. A pequena retirante nunca mais voltou. Das memórias dessa diáspora, lembra-se de pouco, mas jamais esqueceu da farinha de milho enfiada goela abaixo para enganar a fome. Sua mãe biológica ficou em Minas Gerais com os filhos que conseguiu segurar nos braços. Nunca mais a viu. Essas cenas eram, até aqui, os limites divisórios da sua lembrança; até onde dava pé. Daí em diante, a vida existe; para trás, é um breu. Memórias fo­tográficas, documentos… tudo isso é quase nulo na história da sua vida. Resta a oralidade.

Em um certo momento, nas nossas conversas iniciais da pesquisa, minha mãe compartilhava que o ato de recordar se ofuscava aos poucos. A busca pelas memórias cansava e, muitas vezes, escapava do consciente. É incomum esquecer das coisas aos 50 anos, mas a cabeça estava abarrotada de preocupações do presente-futuro, sobretudo quando um câncer eclodiu no mes­mo órgão que me trouxe à vida. Foi um baque. A má notícia chegou dias após meu aniversário, em janeiro de 2024.

Apesar dos pesares, combinamos de trabalhar juntos nesta empreitada. O tema da pesquisa seria o meu trabalho de conclusão de curso de Jornalismo na Universidade Federal do Paraná e já estava definido desde o primeiro semestre de 2023. A ideia de mergulhar nas recordações familiares ganhou força a partir das nossas conversas e, devido à doença inesperada, desvendar esses mistérios tornou-se uma sina entre nós dois.

À medida que as pesquisas do livro avançavam, minha mãe resistia às sessões de radioterapia, quimioterapia e braquiterapia. O tratamento era intensivo e estava programado para durar cerca de 45 dias. De segunda a sexta, recebia uma rádio; a quimio e a bráqui eram aplicadas uma vez por semana. Os efeitos colaterais — enjoo, fraqueza, diarreia — apareceram nos primeiros dias. No meio disso tudo, ela encontrou moti­vos para celebrar a resistência dos cabelos castanhos — a parte de si mesma de que mais gostava.

Mergulhados no mundo novo da doença, nossa família se viu perdida com tantas perguntas sem respostas na seara da saúde. E assim, alguns remédios desconhecidos passaram a integrar nossas rotinas: um cortava o vômito, outro controlava a dor no corpo, a­quele dava um jeito na pressão arterial, e mais esse que estimulava a alimentação. No fim das contas, nenhum deles conseguiu evitar a perda de oito quilos em trinta dias, nem a falta de disposição para ficar em pé.

No meio desse processo, houve vezes em que comentei sobre a dúvida da continuidade do projeto. Ela não me deixou desistir e sempre respondia de pronto que era uma questão de honra prosseguir. Mesmo não sendo uma leitora de livros, imaginava que este material seria uma forma de se conectar ao seu passado. Além disso, como mãe, poderia mostrar aos chegados que o seu filho se tornou um jornalista escritor — o pri­meiro graduado da família.

 

José Carlos Fernandes é jornalista profissional e professor do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

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