PREFÁCIO | O lugar que ocupamos 11/06/2026 - 10:35

O Cândido publica em primeira mão o prefácio de Cida Bento para o livro Questões de classe: o lugar que ocupamos, de bell hooks, lançado neste mês, uma coedição da editora Elefante com a Oficina Palimpsestus

 

Cida Bento

 

bell hooks nasceu em 1952 em Hopkinsville, então uma pequena cidade segregada do Kentucky, no sul dos Estados Unidos, e morreu em 2021, em Berea, também no Kentucky, aos 69 anos. Com uma prolífica carreira como professora, escritora e intelectual pública, passou pelas universidades de Wisconsin, da Califórnia e Stanford, e lecionou nas universidades Yale, do Sul da Califórnia, Oberlin College e New School, entre outras. Em 2014, fundou o bell hooks Institute. É autora de mais de trinta obras sobre questões de raça, gênero e classe, educação, crítica cultural e amor, além de poesia e livros infantis, das quais a Editora Elefante já publicou Olhares negros, Erguer a voz e Anseios (2019); Ensinando pensamento crítico (2020); Tudo sobre o amor e Ensinando comunidade (2021); A gente é da hora, Escrever além da raça e Pertencimento (2022); Cultura fora da lei e Cinema vivido (2023); Salvação e Comunhão (2024) e A vontade de mudar (2025).

bell hooks
bell hooks | Foto: Arquivo Berea College

 

O lugar que ocupamos

Hoje em dia está na moda falar sobre raça ou gênero. Classe é o assunto que ficou de fora da conversa; é o assunto que nos provoca tensão, nervosismo e dúvida em relação ao lugar que ocupamos. Em menos de vinte anos, nosso país se tornou um lugar onde  as pes­soas ricas de fato governam. Houve uma época em que a riqueza proporcionava prestígio e poder, mas não determinava sozinha os valores da nossa nação. Apesar de a ganância sempre ter feito parte do capitalismo estadunidense, foi só recentemente que ela estabeleceu o padrão de como vivemos e interagimos no dia a dia. 

Muita gente que mora neste país, inclusive eu, sen­te medo de pensar sobre classe. Pessoas liberais abastadas que se preocupam com a vida precária de quem nada  possui são diariamente zombadas e ridicularizadas. Elas são culpabilizadas por todos os  problemas do Estado de bem-estar social. O cuidado e o compartilhamento passaram a ser vistos como traços de fraqueza idealista. Nossa nação está se tornando uma so­ciedade cada vez mais segregada por classes, em que a precariedade de quem não tem dinheiro é esquecida e a ganância de quem acumula grandes fortunas é  mo­ralmente tolerada e aprovada. 

Como sociedade, temos medo de dialogar sobre classe, muito embora a desigualdade cada vez maior entre a riqueza e a pobreza já tenha estabelecido o cenário para a  constante e prolongada luta de classes. Como uma cidadã que mudou da classe trabalhadora para o mundo da abundância, eu sofri durante muito tempo para compreender a classe em minha vida, para aceitar o que significa ter tanto enquanto  tantas pessoas têm tão pouco. Minha família e minhas amizades estão entre essas pessoas. Assim como a vasta maioria das mulheres neste país, eu acredito no cuidado e  no compartilhamento. Quero viver em um mundo onde haja o suficiente do básico e do necessário para todo mundo. Mas a aplicação dessas crenças na experi­ência cotidiana não é um tópico fácil nem simples.

Estes ensaios sobre classe abordam questões de responsabilidade nacional e pessoal. Eu escrevo sobre os problemas de classe que mais afetam intimamente a minha vida e a de muita gente que está tentando encontrar maneiras de ser responsável, que acredita na justiça, que deseja se posicionar. Escrevo sobre a minha trajetória no mundo da classe trabalhadora para a cons­ciência de classe, sobre como o classismo solapou o fe­minismo, sobre solidariedade com as pessoas pobres e sobre como enxergamos as pessoas ricas. É claro que estes ensaios abordam o consumismo e as  formas com que o desejo por abundância cria uma política da ganância. 

Mulheres de todas as raças e homens negros estão rapidamente ocupando os níveis mais baixos na escala da pobreza. Quebrar o silêncio — falar de classe e aceitar o lugar que ocupamos — é um passo necessário se quisermos viver em um mundo onde a prosperidade e a abundância possam ser compartilhadas, onde a justiça possa ser percebida em nossa vida pública e privada. A hora de falar sobre classe, de saber como nos posicionamos nesta sociedade de classes, é agora — antes que seja tarde demais, a ponto de não conseguirmos mais sair do lugar nem tenhamos a possibilidade de mudar nossa classe ou o destino da nossa nação.

 

Questões de classe - bell hooks
"Questões de classe: o lugar que ocupamos", de bell hooks, traduzido por Larissa Bontempi (Elefante, 2026)

 

---

 

Cida Bento é ativista, psicóloga e escritora. Nasceu em São Paulo em 1952, doutora pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP) e cofundadora do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT). Um dos nomes mais relevantes do movimento negro brasileiro da atualidade, foi eleita pela The Economist uma das cinquenta pessoas mais influentes do mundo no campo da diversidade em 2015. É autora de O pacto da branquitude (2022).

GALERIA DE IMAGENS