ESPECIAL | Literatura indígena reafirma narrativas sobre ancestralidade e resistência 19/06/2026 - 15:57
Inspirados pela tradição oral, autores originários ganham destaque na cena literária contando suas próprias histórias e registrando sua cultura
Isa Honório
Curitiba, 3 de junho de 2026. O frio dava uma trégua, mas nada que fizesse o sol aparecer. As araucárias se destacavam na neblina, gatos e cachorros vinham dar uma espiada, todos bem alimentados e sem vergonha das visitas. As casas se organizam ao redor de uma pracinha e uma escola, onde acontecia a inscrição para o vestibular da Universidade Federal do Paraná (UFPR). A equipe do Cândido visitou a Aldeia Indígena Kakané Porã, primeira aldeia urbana do Sul do Brasil, localizada no bairro Campo de Santana. Quem nos recebe é o casal de escritores Jovina Renhga e Olivio Jekupé, que comentam sobre a diversidade da literatura nativa.
Jovina, da etnia Kaingang, vive na aldeia desde a sua fundação em 2008 e é uma das lideranças da comunidade. Incentivada por Olivio, começou a escrever sobre suas memórias e as experiências da mulher indígena. "Ele me disse ‘você tem que escrever, sua história é muito bonita, uma história de luta'. E aí eu comecei a valorizar mais quem sou eu e quem é o povo kaingang. É muito importante falar da nossa história, sobre onde eu nasci e a minha atuação como mulher indígena na linha de frente", conta a artista, entre as cestas e miçangas coloridas que decoram sua casa.
Algumas de suas publicações são A Marcha das Mulheres Indígenas (2023) e Uma mulher kaingang (2025). Com coautoria de Olivio também assinou as obras Casa de passagem (2022) e Coronavírus nas aldeias (2023), sobre as dificuldades enfrentadas pelos povos originários durante a pandemia, e História de Kairú (2025), ficção inspirada em como o casal se conheceu. O escritor, da etnia Guarani, começou a se interessar por literatura ainda na infância. Em 1985 escreveu seu primeiro romance, O breviário de um índio, que foi publicado quase quarenta anos depois, em 2024. Também é idealizador da editora Jekupé, focada em literatura nativa, e autor de 35 livros, incluindo infanto-juvenis.
Em ascensão no cenário literário, as narrativas produzidas pelos povos originários têm atraído cada vez mais a atenção de editoras e festivais. Daniel Munduruku se consolida como um dos maiores nomes do país, vencedor diversas vezes do Prêmio Jabuti, e Ailton Krenak, autor do best-seller Ideias para adiar o fim do mundo (2019), foi o primeiro indígena eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL), em 2023. No ano passado, o Museu das Culturas Indígenas (MCI) realizou o Festival Literário Ayvu Nhevaitim, primeiro do país dedicado exclusivamente a autores indígenas, em São Paulo.
Olivio explica que apesar do aumento do número de espaços para divulgação da literatura indígena, como a sua própria editora, o interesse do público é recente e resultado de um trabalho árduo realizado por ele e outros autores nas últimas décadas. "Foram muitos anos na luta para divulgar no boca a boca, em viagens. Foi uma época difícil, porque as pessoas não tinham muito interesse nessas questões. Mas passou muito tempo e a gente foi lutando, foram surgindo outros escritores e as portas foram se abrindo".
O autor lembra que o primeiro livro publicado por indígenas no país foi Antes o mundo não existia, de Umúsin Panlõn Kumu e Tolamãn Kenhíri, do povo Desana, que saiu somente em 1980. Cinco anos antes, Eliane Potiguara lançou o poema "Identidade Indígena", considerado o primeiro texto literário publicado por uma mulher indígena em língua portuguesa. A autora também é uma notável defensora dos direitos humanos, sendo criadora de uma cartilha de alfabetização indígena com o apoio da Unesco e da rede de comunicação GRUMIN. Seu livro A terra é a mãe do índio (1989), foi o primeiro publicado por uma mulher indígena no Brasil.
A escritora explica que no caso das mulheres originárias, a inserção no mercado editorial foi ainda mais difícil: "Antes da publicação existia uma produção muito forte entre as mulheres indígenas, mas ela não era reconhecida. Nossa literatura sempre existiu através da oralidade, narrativas ancestrais, cantos, rituais, da memória transmitida pelas avós e mães dentro das comunidades e também nos contextos urbanos para onde muitos indígenas foram expulsos. O que não existia era espaço editorial, legitimidade institucional e escuta".
Seu livro mais famoso é Metade cara, metade máscara (2004), uma mistura de poesia, denúncia, autobiografia e reflexão política. O texto dialoga com a própria experiência da autora, que nasceu e cresceu no Rio de Janeiro, ouvindo as histórias do povo Potiguara contadas por sua avó, o que foi essencial para o reconhecimento de sua identidade e ancestralidade.
"É uma obra muito íntima e, ao mesmo tempo, profundamente coletiva. Ela fala sobre fragmentação identitária, racismo, deslocamento, ancestralidade e resistência indígena no contexto urbano. O título já revela muito dessa experiência que é a necessidade que muitos indígenas tiveram de usar ‘máscaras' para sobreviver numa sociedade racista e colonial. Mas também existe ali a busca pela verdadeira face, pela memória ancestral e pelo reencontro com a identidade", comenta Eliane.
Quem é esse Guarani?
"A literatura entrou na minha vida como sobrevivência. Eu escrevia cartas para a minha avó, para que ela pudesse se comunicar com o nosso povo que ficou no Nordeste. A escrita foi uma continuação da oralidade ancestral. Meu texto nasce muito da escuta. Escuta da terra, dos ancestrais, das mulheres indígenas, dos que foram silenciados pela história oficial".
– Eliane Potiguara
Além do trabalho insistente dos autores pioneiros, a aprovação da Lei nº 11.645/2008, que torna obrigatório o ensino da história e cultura indígena e afro-brasileira nas escolas, representou um ponto de virada para a literatura nativa no país. As editoras começaram a olhar com mais interesse para os escritores e o número de publicações aumentou. Para os autores, o marco legal também foi importante para que, pela primeira vez, os povos originários pudessem falar em primeira pessoa e quebrar estereótipos.
A literatura brasileira sempre contou com histórias inspiradas pelas culturas indígenas. No século 19, o movimento indianista surge como uma corrente do romantismo, e traz obras como o poema "I-Juca-Pirama", de Gonçalves Dias e os romances O Guarani (1857) e Iracema (1865), de José de Alencar. O problema dessa abordagem é que os personagens eram retratados a partir da perspectiva do colonizador, com um olhar idealizado, contribuindo para a disseminação de preconceitos.
Jovina Rehnga lembra da infância, quando antropólogos visitavam sua aldeia para fazer entrevistas e publicar livros sobre a comunidade, mas nunca mais voltavam. A escritora comenta que a literatura indígena contemporânea representa a realização de seu desejo antigo de escrever sobre a própria história: "Eu vi a diferença porque muitas vezes eram contadas mentiras sobre nós. A história dos povos indígenas é muito profunda e dolorida. É uma história de morte, de muito sangue derramado e do extermínio pelos europeus. A nossa história é a realidade".
Olivio Jekupé brinca: "O José de Alencar veio e ganhou a fama, mas o que ele fazia não era a nossa literatura. Estamos até hoje procurando o 'Guarani' sobre o qual ele escreveu para tentar descobrir de que planeta ele veio, porque da nossa aldeia não é". O escritor ainda ressalta que falar em primeira pessoa é também um instrumento de luta – uma forma de expor críticas, propor discussões para a sociedade e mostrar que os povos originários não são apenas parte de uma história que já passou.
No caso das mulheres indígenas, um dos grupos que mais sofre com a marginalização no país, escrever também é uma forma de romper com o silenciamento e com um ciclo de violências simbólicas. "Durante muito tempo, a mulher indígena foi descrita pelo olhar colonial, masculino e exotizante. Quase nunca tivemos o direito de falar sobre nós mesmas. Nós trazemos para a literatura nossas dores, afetos, espiritualidade, maternidade, violência sofrida e também nossa força ancestral. Eu escrevo para afirmar que existimos, pensamos, criamos e resistimos", compartilha Eliane Potiguara.
Histórias para despertar os curumins
"Na cidade, as pessoas contam a história para as crianças dormirem. Eu nunca imaginei isso. Na aldeia, o pajé conta as histórias para a gente ficar acordado. Os brancos vão para a missa com as crianças pequeninas e fazem de tudo para elas dormirem. Na aldeia, vamos participar dos rituais à noite e elas ficam ali junto brincando e bagunçando. Elas escutam as histórias e ficam pensando nelas para ficarem acordadas.
– Olivio Jekupé
A literatura infanto-juvenil está entre os gêneros mais explorados por autores indígenas. O formato é ideal para abordar temas que fazem parte da cosmovisão dos povos originários, como saberes ancestrais, respeito pela natureza e lendas sobre os seres da floresta. Além disso, apresentar a literatura nativa desde cedo é uma forma de ensinar sobre diversidade cultural e diferentes formas de ver o mundo.
As histórias inspiradas em narrativas ancestrais chamam a atenção das crianças e adolescentes. Na Bienal do Livro 2025, sediada no Rio de Janeiro, dois dos cinco livros mais vendidos foram escritos por indígenas: Sou indígena!, de Cláudia A. Flor D'Maria, com ilustrações de Raquel Teixeira e Tuiupé e o Maracá mágico, de Auritha Tabajara e Paola Tôrres com ilustrações de Tai, ambos lançados pela Companhia das Letrinhas em 2024.
Para o educador e escritor Daniel Munduruku, um dos nomes de maior relevância do gênero, o interesse pelos livros surgiu ainda na infância. Mais tarde, em sua atuação nas salas de aula, começou a usar a contação de histórias para aumentar o interesse dos alunos pela disciplina de Filosofia e responder suas dúvidas sobre os costumes dos povos originários. Fundador do Instituto Uka, instituição de educação intercultural e selo editorial especializado na temática indígena, já publicou mais de 60 livros, em sua maioria infanto-juvenis.
Daniel conta que sua literatura é pensada para alcançar principalmente crianças não-indígenas, que muitas vezes são educadas de forma preconceituosa. "Os meus livros trazem o mundo indígena em uma linguagem para as infâncias, com informação e humanização para aproximar a criança não-indígena do universo indígena. Nós entramos pelo campo do afeto, memória e identidade, que são componentes importantes para a construção de cidadãos", explica.
Daniel completa agora 30 anos de sua primeira publicação, Histórias de índio (1996). Desde então, lançou sucessos como Kabá Darebu (2002), Vó coruja (2014) e Estações (2025), vencedor da categoria Infantil do Prêmio Jabuti. A obra discute o tempo da natureza, lembrando como somos um só com o mundo ao redor. "As crianças da cidade podem ter condições de entender a partir da literatura indígena que há muitas leituras possíveis do mundo. O mundo não é apenas o que o lado ocidental nos oferece. A ideia é que as crianças brasileiras cresçam sabendo quem são e quais são suas origens e que elas possam aceitar essa origem, respeitar e proteger", comenta o escritor.
As novas vozes da floresta
Hoje existe um movimento muito claro que mostra que os povos indígenas possuem saberes avançados e muito refinados para a vida em comunidade e o convívio equilibrado com a nossa casa comum que chamamos de planeta – o bem viver e todos os outros conhecimentos que fizeram com que esses povos se mantivessem por aqui por milhares de anos.
– Aline Franca
A nova geração chega com força, com autores de diferentes etnias e territórios. Os temas também são diversos e vão desde manifestos políticos até reflexões pessoais e intimistas. Segundo informações de Daniel Munduruku para a Agência Brasil, o Encontro de Escritores e Artistas Indígenas, que começou com 12 autores em 2003, contou na edição do ano passado, com 150 escritores, somando mais de 400 obras publicadas.
Nos últimos anos, a literatura nativa também se beneficiou da internet e das redes sociais como plataforma de divulgação. É através do site e do Instagram que a Livraria Maracá (@livrariamaraca), primeira especializada em literatura indígena do país, mantém suas atividades desde 2018. O projeto surgiu da vontade de Aline Franca, bibliotecária e idealizadora da livraria, de facilitar o encontro de escritores indígenas e leitores. No catálogo, os interessados podem encontrar nomes famosos e desconhecidos, e obras para todos os gostos e públicos.
"Hoje podemos celebrar conquistas significativas para a área, como o crescente número de pesquisas sobre literaturas indígenas, a presença dos escritores em eventos literários de renome dentro e fora do Brasil, em academias literárias e as premiações nacionais e internacionais também. Esses marcos são relevantes coletivamente, mas o mais importante é que as pessoas possam conhecer essas obras e acessá-las e desfrutá-las no seu cotidiano leitor", conta Aline.
Nas redes, além dos convites para festivais e a inclusão no catálogo de livrarias, escritores iniciantes e independentes podem se conectar diretamente com a audiência e outros artistas através de seus perfis. Surgem iniciativas como o Leia Mulheres Indígenas (@leiamulheresindigenas), das administradoras Trudruá Dorrico, da etnia Makuxi, e Jamille Anahata, da etnia Mura. Com o objetivo de divulgar a literatura produzida por mulheres originárias, são feitas indicações de leitura e rodas de conversa.
Márcia Kambeba é escritora, contadora de histórias e palestrante, e utiliza seu perfil no Instagram para apresentar seu portfólio e obras publicadas. Sempre aparece entre as indicações do Leia Mulheres Indígenas e se destaca por sua poesia, com versos livres e longos, marcados por rimas. A autora se tornou um dos nomes mais proeminentes da literatura nativa contemporânea e pretende apostar em um formato híbrido para o seu novo projeto, Rasgos da memória, ainda em fase de produção.
A ideia é misturar sua história de vida com cartas e reflexões, passeando entre gêneros literários e construindo uma obra experimental e madura: "Ele é um pouco autobiográfico, mas não do jeito que se costuma fazer. O texto vem misturado com uma 'moral da história', com o que a minha história pode ajudar outras pessoas e como ela pode se relacionar com o leitor. Também é uma contribuição à pesquisa, para quem estuda memória, oralidade e identidade. Eu penso em todos os públicos", explica Márcia.
Além de sua atuação na literatura, Márcia é uma voz ativa no combate à violência contra mulheres indígenas. É inclusive um dos nomes da literatura nativa da nova geração indicados pela veterana Eliane Potiguara, que vê o cenário atual com alegria: "O mais bonito é perceber a diversidade dessas vozes indígenas contemporâneas. Não existe uma única literatura indígena. Existem muitas literaturas indígenas. Também fico muito feliz em ver jovens escritores indígenas surgindo em diferentes regiões do Brasil. Isso mostra que nossa literatura está viva, em movimento e fortalecida pela ancestralidade".
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Isa Honório nasceu em São José dos Campos (SP, 2002) é formada em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Repórter do jornal Cândido, também é compositora e freelancer. No tempo livre, atua com produção cultural na cena de música independente em Curitiba. Se interessa por arte produzida por mulheres, política e meio ambiente.










































