PENSATA | Os 70 anos de Grande Sertão: Veredas 17/06/2026 - 16:48
Por Luiz Felipe Leprevost
De autoria de João Guimarães Rosa, o romance Grande Sertão: Veredas, que em 2026 completa setenta anos de publicação, é uma obra sobre a qual podemos afirmar ser infinita. Venho lendo este livro desde que, adolescente, descobri e me encantei e me envolvi e me vi totalmente absorvido pela literatura. Logo cheguei à referência do grande mestre e, com ele, sua obra magna. Minha jornada com o livro tem sido um processo gradual de atração e persistência. Lembro que na primeira abordagem não consegui passar aproximadamente da página 80. Na segunda tentativa, cerca de dois anos depois, avancei um pouco mais. A cada novo retorno, eu lia um pouco mais longe e fundo naquele sertão, rastreando as veredas da linguagem rosiana. Eu atravessei o livro. E o livro fez sua travessia em mim. Este livro que, como um de seus estribilhos afirma e reafirma que “viver é muito perigoso”. Este livro em que o sertão se transforma no mundo e o mundo se sabe sertão, em que o sertão é dentro da gente. Este livro em que o regional se universaliza, a partir de uma narração profusa, caudalosa. É Riobaldo, o narrador e personagem central, aquele que expressa um vital saber, que, afinal, por sua humanidade sem fim, dirá respeito às pessoas de qualquer época ou lugar. Este livro que, ao criar um universo com suas próprias leis, fabulares ou não, à imagem e semelhança dos planos geográficos e físicos, é uma verdadeira dádiva da literatura mundial.
Não ignoremos o fato de que, entre as peles do contador de estórias João Guimarães Rosa, habita um pensador empenhado em apreender o inapreensível, que trabalha com afinco “entre o inefável e o conhecível”. De minha parte, para esta crônica com a qual pretendo celebrar os setenta anos da obra, na inesgotável fonte do Grande Sertão: Veredas, entre as várias camadas de leitura possíveis de serem abordadas, optei por colher o tema do amor, uma vez que ele é um dos eixos expressivos de estruturação do romance. O amor que é uma alegria, conforme elaborado por Espinosa (“em razão da fraqueza de nossa natureza, é necessário amar algum objeto e nos unir a ele para existir”), mas que por isso mesmo, pode gerar angústias quando não realizado em sua completude. O amor, essencial para a vida. O amor como vulnerabilidade humana sendo, na verdade, nossa maior virtude, traduzida em desejo, determinação e entusiasmo. O amor como fragilidade que justifica nossa existência. O amor como atração indeterminada, imperativa. O amor contra o qual é impossível lutar, resistir, vencer. O amor que todavia, infelizmente, não é mais forte do que a morte.
No Grande Sertão:Veredas vamos encontrar o amor lascivo, de apelo orgânico; o amorprocriador, representativo da continuidade da espécie e, ao mesmo tempo, da manutenção do poder fundiário; e também o amor platônico — o amor, então, apresentado em três faces distintas da vida do protagonista. Carregado dos sentimentos que nutre por Nhorinhá, Otacília e Diadorim, cada uma delas tendo uma cartografia afetiva e espiritual própria, Riobaldo atravessa, ao longo das mais de seiscentas páginas narradas por ele, a imensidão do sertão geográfico e do sertão de sua própria alma.
Nhorinhá representa a satisfação imediata dos sentidos. Paixão amorosa, que toma o outro, éros. Amor encarnado, corporal. Trata-se de afeto e tesão realizados, livres de culpas morais, embora carregado de contradições. Nhorinhá, prostituta, filha de Ana Duzuza, acolhe Riobaldo em sua humanidade mais básica e despida de missões metafísicas: “recebeu meu carinho no cetim do pêlo.” Com ela, o jagunço encontra o descanso da carne e a simplicidade de um carinho que não exige decifração: “ah, a mangaba boa só se colhe já caída no chão, de baixo… Nhorinhá.”
Otacília é “continuação de amor”, promessa de salvação, acolhimento e recolhimento, ágape. Senhorita da fazenda Santa Catarina, representa porto seguro, calmaria. É pureza idealizada. Desperta em Riobaldo sentimentos, por assim dizer, convencionais e elevados. Não havendo arrebatamentos hiperbólicos ou carnais. É a partir de Otacília que Riobaldo anseia intimamente largar de lado a violência as armas, aceitando a redenção de uma vida simples e pacífica: “vontade vã de ser dono de meu chão, meu por posse e continuados trabalhos, trabalho de segurar a alma e endurecer as mãos. Estas coisas eu pensava repassadas.” Ela é possibilidade de futuro, terra firme, estabilidade, reintegração social após a travessia da jagunçagem. Otacília seria o sertão enfim domesticado, a salvação da alma por meio da ordem e da fé. Otacília então, para quem Riobaldo, não podendo oferecer para Diadorim, acaba dando de presente uma pedra de topázio. Otacília que virá a ser sua esposa: “de mim, pessoa, vivo para minha mulher, que tudo modo-melhor merece, e para a devoção. Bem-querer de minha mulher foi que me auxiliou, rezas dela, graças. Amor vem de amor. Digo. Em Diadorim, penso também – mas Diadorim é a minha neblina.”
Diadorim é o amor maior de Riobaldo, amor que desafia as leis do cangaço, a moral patriarcal e as convenções. Exerce fascínio, poder hipnótico e dominador. Esse amor está marcado de forma indelével pela ambivalência da identidade de Diadorim, por isso mesmo, impossível, secreto e trágico. O sentimento do protagonista por Diadorim nasce na juventude, durante a travessia de canoa pelo rio São Francisco, ali se opera a entrada de Riobaldo no reino misterioso da amorosa sensibilidade humana. Desde aquele primeiro encontro, algo desperta nele e não sossega nunca mais, estendendo-se por toda a vida como força arrebatadora. Ao longo do livro, assim como a dúvida insolúvel a respeito da existência do Diabo e o fato de se ter operado mesmo ou não pacto de Riobaldo com o Demo, também a incessante busca pela tentativa de definição do amor por Diadorim está em cena: gostava de Diadorim, dum jeito condenado; nem pensava mais que gostava, mas aí já sabia que gostava em sempre.”
O impossível, o não realizável, ou seja, a tragédia da relação, reside na repressão, no silenciamento forçado: “Diadorim era o meu amor, e eu não podia dizer a ele". Riobaldo ama um homem marcado pelo signo do enigma: “como é que se pode gostar do verdadeiro no falso? Amizade com ilusão de desilusão. Vida muito esponjosa. Eu passava fácil, mas tinha sonhos, que afadigavam. Dos de que a gente acorda devagar. O amor? Pássaro que põe ovos de ferro. Pior foi quando peguei a levar cruas minhas noites, sem poder sono. Diadorim era aquela estreita pessoa — não dava de transparecer o que cismava profundo, nem o que presumia.” Tal amor alimenta em Riobaldo angústia e culpa pecaminosa, além do medo constante da desonra. Ele deseja tocar Diadorim, mas é contido pela barreira do gênero. Diadorim, por sua vez, carrega o peso de um juramento de sangue. Abdicou de sua identidade feminina (Maria Deodorina) e adotou a persona de um jagunço para vingar o assassinato do pai, Joca Ramiro. Esse segredo intransponível é que faz da convivência dos dois um constante jogo de aproximações e recuos. Portadora dos mais secretos e complexos sortilégios, a figura de Diadorim projeta-se na interioridade de Riobaldo evocando o mistério e a sombra intuída do Diabo.
Talvez possamos dizer que por não ter jamais havido conjunção carnal entre Riobaldo e Diadorim, o amor não se realizou por completo. Mas também é possível que, em certa medida, enquanto philía, amizade compartilhada, entusiasmo e alegria (potência de agir e existir), no sentido espinosiano, em algum nível nessa relação o amor se cumpriu. O convívio entre os dois, no entanto, tem um final intensamente doloroso. Riobaldo vence a guerra contra o bando de Hermógenes, mas acaba perdendo o grande amor de sua vida. O enigma se esclarece pelo sangue e pela perda. É no leito de morte que a face oculta de Diadorim se revela. O corpo ensanguentado está sendo lavado e ali se sabe que Diadorim era uma mulher. O choque é devastador para Riobaldo. No exato instante em que descobre que seu amor podia ter se realizado carnal e moralmente, ele o perde para sempre. Riobaldo, desde o primeiro encontro, quando ambos eram meninos e navegaram pelo rio São Francisco, amou em razão. O amor sendo a primeira graça. Diadorim personifica a própria essência do potencial humano que, mesmo que se concretize, encontra seus limites, permanecendo a falta que o idealiza e o concebe. Daí que da morte de Diadorim, Riobaldo reste para sempre inconsolável.
Luiz Felipe Leprevost é escritor, diretor da Biblioteca Pública do Paraná e membro da Academia Paranaense de Letras. Com formação em Artes Cênicas pela CAL (Casa de Artes de Laranjeiras), já publicou romances, contos, poesias e peças teatrais. É autor da coluna "Esquetes de Curitiba", no jornal Diário Indústria & Comércio. Também atua como colunista no Jornal Plural e no programa ID Paraná, da TV Paraná Turismo. Tem se destacado como cronista ao longo dos últimos anos. Em As Crianças (ed. Toma aí um poema, 2025), seu mais recente livro, o autor revisita a infância e as relações familiares com delicadeza e profundidade, reforçando seu estilo lírico e intimista.






