CRÔNICA | Os chupins e o boi de matadouro 10/06/2026 - 11:42
Por Cristina Bresser
Você nasceu na família certa. Filho de milico, neto de milico, sobrinho de milico, você não se tornaria um milico também. Filhos de milicos geralmente são revoltados. Você nunca foi revoltado, você é folgado demais até pra se revoltar contra os castigos que o psicopata do teu pai tentava te infringir.
"Onde já se viu raspar a cabeça do moleque porque ele repetiu de ano? Não vai tirar a televisão que eu dei a ele de Natal somente por ter ficado de segunda época. Ele não vai trabalhar de embalador em mercado nenhum, não é justo!" Naquela família, ser o primeiro e único neto varão sempre foi garantia de privilégios oferecidos pelos avós, e pela tia mais nova também. Pra que talento, disciplina e comprometimento com o que quer que fosse, se um pintinho pendurado entre as pernas era suficiente!?
A tia projetava em você os desejos que um dia tivera pro filho ausente. Não importava que fosse feito de um material muito menos nobre e pouco resistente que o infante perdido. A esperança, no caso dela, já tinha morrido, e a ilusão era o que a empurrava da cama todas as manhãs exibindo um olhar manso.
Você foi crescendo e teus prêmios, aumentando. "Se passar no vestibular, ganha um carro!". Passou numa faculdade em que bastava pagar a inscrição pra ter direito à vaga, já que quem tinha vergonha na cara não se matriculava lá. Vergonha na cara pra que, se você tinha avós que compravam tudo o que você queria? Só não te compraram caráter, porque isso nunca cogitaram que te faltava.
Pra um avô que já tinha comprado policial, delegado e juiz pra não prender os filhos bêbados que espancaram um vizinho, o que era comprar um carro novo, depois de você já ter destruído duas motocicletas? Sem contar o aborto pago, e nunca mencionado, da filha da empregada, e os guardinhas subornados quando você ainda não possuía carteira de habilitação.
A tia, carente de recursos financeiros na época, mas carregando a marca a ferro da família no lombo, transbordava de dedicação a você. Além de levantar de madrugada pra te alimentar, egresso faminto da farra, resignada acompanhou a moça à clínica pra interromper a gravidez – era o melhor pra menina, coitada. Plácida, a tia ficou quarenta dias internada contigo no hospital durante teu segundo acidente de moto. Sem contar os pequenos mimos, que você, berne encravado, sugava dela diariamente.
E a tua vida continuou tranquila entre um presentinho aqui, uma encostada ali, uma chupinzada acolá. Você sempre escolheu teus amigos pelo tamanho do barco, pela marca do carro e pelo título do clube que eles frequentavam. O que falar das namoradas, então? Sempre mais de uma ao mesmo tempo, que a vida é curta, e as mulheres, tontas.
Um dia encontrou a mais tonta delas. Aquela que era sempre esquecida na mesa durante os bailes do clube, a que tinha acabado de tomar o fora de um sujeito, roto como você, mas com a pele num tom escuro a mais do que família dela gostaria. O vovô já tinha morrido, a vovó ficou apenas com a pensão, já que a casa ele tinha dado pros dois filhos homens – a tia tinha aberto mão da parte dela, claro, e a tua mãe já tinha herdado a casa onde a tua família vivia. Agora, era hora de se espertar. O pai da moça, além de posses, tinha status, o que pra você é quase tão importante quanto, né?
Começou te arrumando um bom emprego, depois te deu um apartamento em bairro nobre, pra morar com a filha dele. Bancava os almoços e jantares de fim de semana em restaurantes da moda e as viagens de férias pra Miami. Quando teu filho nasceu – demorou, mas ao menos veio macho –, teu sogro te deu de presente um imóvel comercial no centro da cidade, pra você montar um negócio e não ter que se sujeitar mais à estupidez de patrão. A lanchonete funciona até hoje. Todo dia tua mulher dá duro entre o balcão e a chapa do hambúrguer, ouvindo grosseria de cliente, e suportando essência de gordura como uma segunda pele, enquanto você passa lá pra buscar o caixa e pra dar esporro nos funcionários, aquelebandodevagabundos!
Na primavera, você começa a buscar na internet a próxima viagem de navio. Como o avô não vive mais nem na tua memória, e o sogro é apenas uma fotografia desbotada na estante empoeirada da sala, agora somente sobrou a tia pra você se encostar. A mesma tia que, numa felicidade bovina, limpava, arrumava e cozinhava pra você e pros seus amigos de férias na casa dela. Aquela, que antes ainda de ser explorada pelos sobrinhos, passou a vida atendendo aos caprichos da irmã mais velha – tua mãezinha.
A tia não precisa de toda a pensão que o vovô deixou pra ela. Não era como a tua mãe, que vivia arrumadinha com roupa de boutique, bolsa de grife e perfume importado. Tua mãe precisava de dinheiro pra pagar cabeleireiro, manicure, massagista, fisioterapeuta, hidroginástica, limpeza de pele, bronzeamento artificial. A tia não liga pra essas coisas.
Sorridente, ela usa as roupas que eram da irmã, como fazia quando eram solteiras. Aliás, ela até já se esqueceu da surra que tomou do vovô quando tua mãe contou pra ele que ela estava fumando. E nem se lembra da viagem pra Europa com as amigas que ela perdeu, porque tua mãe convenceu o vovô do absurdo que seria, sozinha no estrangeiro naquela idade! A tia fez questão de dividir a pensão com você e com tua irmã. Quem herda aos seus, leva vantagem e ri por último, não é
A tua tia continua abastecendo naquele posto de gasolina adulterada, que por pouco não fundiu o motor do carro dela. Mas ela é cliente há tanto tempo, ganha pão de queijo quando enche o tanque e cupom de desconto na pizzaria da esquina. A tia é assim, comprou uma bicicletinha pra dar de presente outro dia e veio com defeito, não acendia as luzinhas. Mas ela não foi devolver, porque o homem da loja tinha dado abatimento de vinte reais e "não aceitamos devolução", por conta do desconto.
Esses dias tua tia recebeu uma nota falsa de troco, mas nem voltou pra reclamar na padaria. Devia ter visto na hora que o dinheiro era falso, mas a catarata atrapalhou. Vai operar assim que a fila do SUS andar, dezoito meses, no máximo. Médico particular custa caro, mesmo fazendo em vezes, como a tua irmã sugeriu. Tua tia não tem como pagar.
Sem falar nos joelhos dela. De tanto subir e descer as escadas do apartamentinho no quarto andar, desgastou a cartilagem. Vai precisar de prótese nas duas pernas pra voltar a caminhar sem muletas. Mas isso vai custar muito dinheiro, nem pensar. Entretanto, o que não dava pra pensar era que, escalando as escadas como se fosse a prancha do caminhão que a transportaria ao matadouro, o coração da tia ia falhar, não é mesmo, José?
Cristina Bresser de Campos é designer gráfica pela Universidade Federal do Paraná, cursou Creative Writing na Universidade de Edimburgo (Escócia). Publicou os romances: Quase tudo é risível (Benfazeja) e Hand Luggage (Czykmate, Canadá). Autora do livro de crônicas Pra rir & pra chorar — 11 anos de histórias de proteção animal e da publicação de contos Tempo de jabuticaba (Editora Urutau). Vencedora do Concurso Literário da Degustadora de Histórias – com o romance Instantâneos de Anas, publicado em dezembro de 2024 e finalista do prêmio o Melhor de Curitiba 2025, pelo Jornal Plural. Seu romance Raízes Aéreas (Editora Mondru, 2025), foi lançado na Academia Paranaense de Letras. Além de ter recebido premiações em outros países, publicou também no Canadá, Austrália, Estados Unidos, Inglaterra, França, Grécia e Índia.



