CRÔNICAS VERTIGENS | Xamã de Instagram 17/06/2026 - 17:16

Reza a científica lenda astrofísica cheia de misticismo holístico de imanência transcendente que somos, na real radical, apenas ondas, vibrações de energia concentrada geradas pelo caos primordial, pela substância sem começo nem fim que se transmuta, transmuta, transmuta em metamorfoses fascinantes, ali­men­tando um infinito  que, explodindo em eros, lança mutações sedutoras pelo universo, essa besta-fera da indiferença cósmica, da indiferenciação absoluta. Energia concentrada gerada pelo caos criador, destruidor, transformador, inexorável de tudo em tudo até a aniquilação detonadora de êxtases terríveis e vertiginosos rumo a ressurreição, mutação, rumo a outra qualidade de pulsação das tais vibrações de energia que de repente se concentram e a tal substância sem começo nem fim dá um tempo num relógio, num organismo humano, numa árvore de Natal incendiada, numa poça de lava, num vento boreste, numa flatulência de búfalo, num desmaio de gozo inesperado da atriz pornô, numa faísca de dentes rangendo, na língua de um assassino cobrador lambendo o furo de bala na vítima devedora.  

Reza a outra lenda holística, mística, transcendental, científica que, em última instância, somos a popular equação E=mc², ou seja, a matéria sacudida na ve­locidade da luz ao quadrado some, dissolve-se liberan­do uma explosão de energia antes oculta dentro dessa matéria. Uma pequena porção de matéria pode liberar uma quantidade absurda de energia. Nossos corpos ocultam quanta potência explosiva? 

O caos está consignado dentro de nós cobrando eterno pedágio das nossas tentativas de civilização. 

 

Crônicas vertigens
Foto: Man Ray

 

A transmutação molecular, cósmica, biológica, química, que deu origem ao ser humano provocou o aparecimento da autoconsciência, e autoconsciência é, principalmente, saber que vai morrer. Autoconsciência antinatural cheia de tara artificial. Artifícios da imaginação, da engenharia, da memória, da linguagem. Uma aberração da evolução se espalhando em duas dimensões: um buraco moral (também conhecido como natureza humana) onde se debatem afetos e desafetos, onde se debatem todos os medos, tristezas, de­ses­peros, esperanças, desamparos, gulas, júbilos, êx­tases, prazeres, desejos, vaidades, ganâncias, covar­dias, espertezas, grandezas de generosidade e cruel­dade, sintomas, mesquinharias, patologias, delírios de pertencimento, história e geografia como capas  sentimentais, delírios de amor, delírios de ódio, delírios de poder, prazer da tirania, tesão da caridade, desencontros com o mundo, irracionalidades, racionalizações assassinas, condicionamentos, ânsias de poder, deleites de submissão, inquietações patológicas, quietudes patológicas, ódio e amor misturados, ressentimentos, astúcias, perspicácias, argúcias, sabedorias, vícios, virtudes, demências, estupidez arrogante, boçalidades, orgulhos cretinos, bestialidades, dores sociais entranhadas, revoltas pessoais sem alvo preciso, tumores subjetivos, mágoas tão mágoas, ressentimentos, agonias, australopitecos e sapiens sapiens em fim de carreira. Buraco moral e uma nostalgia do indiferenciado, do inominável, da infinita substância geradora de criaturas, formas, seres, matéria, antimatéria, visível, invisível jogados na extensão da besta-fera chamada cos­mos. Caos consignado provoca nostalgia do infinito, do indescritível que pressiona as mentes, os corações, os corpos que influenciam as mentes, que influenciam os corpos, que desafiam com seus sentimentos gregários e civilizatórios a morte que é sua ligação verdadeira e íntima com o indiferenciado. 

Em virtude da nostalgia do indiferenciado, do caos consignado estar presente pressionando os corpos, esses organismos cheios de mentes movidas pela interação de nervos com vísceras, com ossos, com artérias, com bactérias, com hormônios gerando afetos que levam a sensações comunitárias e a atitudes colaborativas e competitivas adubando sociedades, bem, em virtude dessa pressão do inominável fazemos uma gigantesca mal criação gerando civilizações e legados visando mandar a morte tomar no cu. Mas também ten­tamos chegar junto do caos consignado com espiri­tu­alidades, fé, rituais de dissolução do ego ou de tentati­vas de aumentar a potência dos tais feixes de energia, que, de acordo com lendas de autoajuda assim bem espirituais, vibram infinitamente enquanto a substância primordial dá um tempo na matéria humana. O pro­blema é que vamos sempre bater na trave obtendo êx­tases lisérgicos ou yogues ou sensitivos ou descobri­ndo outros estados de consciência rumo a uma condi­ção anfíbia onde conseguiríamos administrar nossas potências vibratórias, nossos feixes de energia caótica consignada e ao mesmo tempo viveríamos nossos cotidianos medíocres de sobrevivência e interações sociais, etc. Mas a verdade é que já existem alguns desses anfíbios humanos-mais-que-humanos escondidos por aí. E também é verdade que são raríssimos pois não te­mos equipamento orgânico ou mental para aguentar o tranco da besta-fera cósmica explodindo no nosso plexo e nos ligando ao inominável, ao indescritível, ao infinito mutante, ao caos gerador, destruidor de tudo. Podemos flertar com ele através dos tais exercícios espirituais ou que nome tenha qualquer reza, oração, ladainha, dança, sacrifício, ação ou contemplação que acione adrenalinas, citosinas, endorfinas, dopaminas e outros hormônios motivadores provocando uma saída do cotidiano num enlevo descomunal. Chegar perto da fronteira com a morte para dar continuidade ao processo. Despertar o que não se sabe no nosso assim chamado corpo. Podemos flertar, mas não aguentamos a carga, digamos, cósmica absoluta. Batemos na trave. E já é muito. Quem tenta desafiar essa precariedade acaba mal. 

E é por isso que repórteres, policiais, forças armadas, cientistas, população em geral cercam um canto de praça onde dezenas de pessoas flutuam numa espécie de redemoinho. Algumas com o peito sangrando, aberto, sangrando. Pulmões e coração saltando para fora como as asas e a cabeça de um pássaro aprisionado. Outras com os nervos literalmente saltando como espinhos abrindo caminho na flor da pele. Outras rodopiando até a cabeça sangrar pelos olhos e pelos ouvidos. Ninguém consegue chegar perto pois o campo de força gerado pela ventania é impossível de ser atravessado. 

Mas o que aconteceu? 

 

Crônicas vertigens
Foto: Man Ray

 

Um xamã de Instagram, desinfluencer espiritual, coach da autoajuda mística conseguiu convencer centenas de pessoas (que pagaram literalmente caro por isso) de que seria possível uma integração absoluta e instantânea com o Cosmos, com o princípio de tudo e que haveria um atalho para outras dimensões a dois mil anos-luz da Terra. Pertinho, bem ali na esquina cós­mica. Era só tomar um líquido chamado kripto-anitta que todos se ligariam ao funk das galáxias, sentiriam a vibração, o ritmo do inominável, do indescritível, do indiferenciado, do caos consignado em nossos corpos e que seria finalmente acionado na sua plenitude atômica de vibrações energéticas pulsantes e descomunais provocando uma elevação dos espíritos rumo ao que não tem começo nem fim. Centenas tomaram a kripto-anitta e deu no que deu já que não temos capacidade orgânica pra aguentar de forma plena a explosão, a fervura de imanência da besta-fera caótica consignada em nossos corpos. Corpos que são peculiares e bizarras colagens de vísceras, hormônios e bactérias animadas por sombras de espíritos. Pode até acionar, mas aguentar pra alcançar um ápice de cósmica união nunca vai rolar.   

O xamã de Instagram foi preso em flagrante mas não deixou sua peteca mística cair e declarou: "Vocês não sabem de nada! Eles se entregaram às mutações e vão virar outra coisa na barriga da besta-fera cósmica rumo a outras dimensões. Eles se mandaram numa explosão de prazer indescritível, de êxtase furioso, de a­tômica volúpia do funk das galáxias seus otários aco­modados. O que vocês estão vendo é apenas uma xe­pa, um resto de reação corporal terrestre porque eles já foram pra outra dimensão a dois mil anos luz daqui viajando nas vibrações aceleradas da kripto-anitta. Esses corpos girando, flutuando no redemoinho, são como o brilho das estrelas no céu, luz viajante de estrelas que já morreram. Esses corpos se desfazendo pertenciam a pessoas que se foram rumo ao âmago da besta fera conhecida como universo. Vocês jamais sentirão esse êxtase furioso, essa pulsação de forma avassaladora. Continuarão apenas flertando com ela de forma minguada. Tenho dito". 

A besta-fera, a besta-fera.

 

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Fausto Fawcett transita entre literatura, música e cinema. Publicou mais de oito livros, entre eles, Santa Clara Poltergeist (1990), Básico Instinto (1992), Copacabana lua cheia (2000), Favelost (2002), Pororoca rave (2015) e Pesadelo Ambicioso (2022). Nome expoente do rap rock e da literatura cyberpunk no Brasil. Trabalhou com artistas de diversas áreas como, Fernanda Abreu, grupo Chelpa Ferro, Samuel Rosa, Arnaldo Antunes, Deborah Colker, Luiz Zerbini, Maria Bethânia, Marcelo Dantas, entre outros e outras. Par­ticipou da primeira turma de alunos do grupo carioca Asdrúbal Trouxe o Trombone, ao lado de Fernanda Torres, Cazuza e Bebel Gilberto.

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