POEMA | Lauro Mesquita
29/09/2021 - 14:02

Um poema que não é 

 

Um poema ainda não concretizado. Um poema que é apenas um projeto. Um poema que é poema até se tornar poema. Um poema que pode ser um móvel, uma construção ou algo mais útil, mas não um poema. Um poema sobre quem não se pode esperar muito. Um poema-losango. Um projeto de poema que se faz poema para aproveitar que quase tudo hoje pode ser vendido como poesia. Um poema que se aproveita das brechas do mercado da palavra escrita. Um poema incompreensível que não é um enigma. Um poema invisível que sobrevive na base da fé. Um poema profecia que não precisa se cumprir e que por isso conforta quem chamou o encanador pela terceira vez na semana para resolver o insistente vazamento da pia. Um poema que apresenta dados estatísticos inacreditáveis sobre coisas que você não se importava e segue sem importar. Um poema que afirma: todas as pessoas de verdade estão mortas. Um poema que defende: todas pessoas de verdade sempre estiveram mortas. Um poema sob situação de perigo. Um poema utilizado para me esconder. Um poema para desviar o assunto. Um poema escrito entre a vida e a morte que não machuca ninguém. Um poema que vai ao último andar e grita: “vou pular”, mas não pula. Um poema rebelde pronto para as estantes. Um poema que coleta impressões e comentários de todos que o leram. Um poema que nem deveria ser um poema de fato, mas o contexto de apresentação o sujeitou a isso. Um poema a quem eu peço desculpas, mas vai ter de ser assim. Um poema que coloca todos seus leitores em uma sala e propõe a eles dinâmicas de grupo até encontrar alguém digno do que estará escrito no poema quando este poema for mesmo um poema. Um poema que se faz depois, a partir das experiências do leitor digno. Um poema que depois rompe com esse leitor, agora indigno, porque fica claro que ele só buscava se banhar nas glórias dos dois poemas anteriores. Um poema que diz não existir dignidade. Um poema que se ressente, abaixa a cabeça, mas segue em frente, porque também não consegue ser outra coisa. Um poema que volta às coisas simples do cotidiano porque isso devia importar. E finalmente um poema que se chateia com a falta de popularidade por ter optado por uma via pouco generosa. Um poema da maturidade que diz que todos seus leitores são dignos, na verdade nobres, por acumularem tamanho conhecimento. Um poema que coloca em dúvida se o poeta maduro não está mendigando atenção. Um poema que desvia o assunto. Olha para lá. Impõe caminhos demais para o leitor. Siga por este lado. E que pouco deixa espaço para a imaginação. Imagino que vocês entenderam. Um poema sobre as forças da natureza em forma de personagens que pouco parecem com as forças da natureza. Um poema que decepciona quem esperava algo mais parecido com um poema. Um poema a respeito de uma situação histórica sobre a qual ninguém tem muita certeza. Um poema em que vocês se revelam muito pouco ambíguos para serem aproveitados em uma obra de arte. Um poema fantasma que pouco parece um poema, mas que em algum momento se revela como tal. Um poema que todos percebem ser um poema e que por isso todos duvidam que seja mesmo um poema. Um poema que inspira um ataque interplanetário e, mesmo assim, não se desculpa. Um poema que deve ficar pronto antes de qualquer possibilidade de plano espiritual. Um poema que pode até emocionar duas ou mil pessoas, mas que dificilmente vai ficar. Um poema terno e humilde que faz com que todos falem que finalmente você aprendeu a escrever um poema. Um poema que não acaba nunca e que poderia seguir assim, para o descontentamento do leitor. Um poema que não é sobre uma espera em um ponto de ônibus, mas que parece com isso, musicalmente falando. Um poema pouco baseado no que seu sobrinho, o que estuda no segundo grau, tem aprendido. Um poema de baixa identificação com nossas aventuras sentimentais. Um poema que, espero, renda uma boa quantia de dinheiro para seu autor. Um poema que abre portas para que o autor tenha uma vida profissional mais confortável. Um poema que serve para compadecermos da vida do pobre poeta. Um poema para tomarmos lado do leitor que já teve o suficiente. Um poema que é melhor ler de novo. Um poema que é só um esquema. Um poema que se aproveita de uma fórmula já desgastada, mas ainda acredita em um brilho individual. Um poema que dificilmente existirá. Um poema que prepara o bote. Um poema que se apaga logo em seguida.

 

 

Lauro Mesquita é jornalista, escritor, editor, músico e produtor cultural. Natural de Pouso Alegre (MG), vive atualmente na cidade do Rio de Janeiro. Publicou neste ano seu primeiro livro, História de Vocês (Editora 7Letras).

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