Poemas | Ian Curtis
26/06/2020 - 13:17

Seleção e tradução: André Caramuru Aubert

ian
Ian Curtis (1956-1980) foi o letrista, vocalista e líder da banda inglesa Joy Division. Foto: Divulgação

 

EXERCISE ONE (1978)

When you’re looking at life

In a strange new room

Maybe drowning soon

Is this the start of it all?

Turn on your TV

Turn down your pulse

Turn away from it all

It’s all getting too much.

When you’re looking at life

Deciphering scars

Just who fooled who

Sit still in their cars

The lights look bright

When you reach outside

Time for one last ride

Before the end of it all.

 

EXERCÍCIO UM

Quando você olha para a vida

Num quarto que não conhece

Talvez prestes a se afogar

Será isso o começo de tudo?

Ligue sua TV

Desligue sua pulsação

Desligue-se de tudo

Está tudo ficando demais.

Quando você olha para a vida

Decifrando cicatrizes

Apenas quem enganou quem

Sentados em seus carros, imóveis

As luzes parecem brilhar

E quando você chega lá fora

Há tempo para uma última volta

Antes que tudo isso termine.

 

NEW DAWN FADES (1979)

A change of speed, a change of style

A change of scene, with no regrets

A chance to watch, admire the distance

Still occupied, though you forget

Different colours, different shades

Over each mistakes were made

I took the blame

Directionless so plain to see

A loaded gun won’t set you free

So you say

We’ll share a drink and step outside

An angry voice and one who cried

“We’ll give you everything and more

The strain’s too much, can’t take much more”.

Oh, I’ve walked on water, run through fire

Can’t seem to feel it any more

It was me, waiting for me

Hoping for something more

Me, seeing me this time, hoping for something else.

 

A AURORA DESVANECE

Mudança de velocidade, mudança de estilo

Mudança de cena, sem arrependimento

Uma chance de olhar, de admirar a distância

Ainda ocupado, você se esquece

Das diferentes cores, das diferentes sombras

Sobre as quais os erros foram cometidos

Eu assumi a culpa

Sem rumo, tão fácil de ver

Um revólver carregado não te libertará

Assim você diz

Beberemos juntos e iremos lá pra fora

Uma voz irritada e uma outra que berrou

“Te daremos tudo e ainda mais

É muito esforço, não vai aguentar muito mais.”

Oh, eu caminhei sobre a água, eu corri sobre o fogo

Não parece que possa mais sentir isso

Era eu, esperando por mim

Ansiando por algo mais

Eu, olhando para mim nesses tempos, ansiando por algo mais.

 

INTERZONE (1978)

I walked through the city limits

Someone talked me in to do it

Attracted by some force within it

Had to close my eyes to get close to it

Around a corner where a prophet lay

Saw the place where she’d a room to stay

A wire fence where the children played

Saw the bed where the body lay

And I was looking for a friend of mine

And I had no time to waste

Yeah, looking for some friends of mine

The cars screeched hear the sound on dust

Heard a noise just a car outside

Metallic blue turned red with rust

Pulled in close by the building’s side

In a group all forgotten youth

Had to think, collect my senses now

Are turned on to a knife edged view

Find some places where my friends don’t know

And I was looking for a friend of mine…

Down the dark streets, the houses looked the same

Getting darker now, faces look the same

And I walked round and round

No stomach, torn apart

Nail me to a train, had to think again

Trying to find a clue, trying to find a way to get out!

Trying to move away, had to move away and keep out

Four, twelve windows, ten in a row

Behind a wall, well I looked down low

The lights shined like a neon show

Inserted deep felt a warmer glow

No place to stop, no place to go

No time to lose, had to keep on going

I guess they died some time ago

I guess they died some time ago

And I was looking for a friend of mine…

 

INTERZONA

Caminhei até as bordas da cidade

Porque alguém me convenceu

Atraído por alguma força que havia ali

Precisei fechar os olhos e me aproximei

Virando a esquina onde estava um profeta

Vi o lugar onde ela tinha um quarto

Um alambrado onde crianças brincavam

Vi a cama onde o estava o corpo

E eu estava procurando por um amigo meu

E eu não tinha tempo a perder

Sim, procurando por alguns amigos meus

Os carros soltavam guinchos, eu ouvia o som na poeira

Ouvi um barulho e era só um carro lá fora

Azul metálico, que ficou vermelho com a ferrugem

Levado para junto da lateral do prédio

Numa turma, todos os jovens que foram esquecidos

Eu precisava pensar, organizar os meus sentidos,

Afiados como o fio de uma faca

Encontrar lugares que meus amigos não conhecem

E eu estava procurando por um amigo meu...

Descendo as ruas escuras, as casas pareciam iguais

E agora, escurecendo, os rostos parecem iguais

E eu dei voltas e mais voltas

Sem estômago, em pedaços

Me dependurei num trem, precisava pensar

Tentando encontrar uma pista, tentando dar um jeito de escapar!

Tentando ir embora, precisava sair e ficar longe

Quatro, doze janelas, dez em sequência

Atrás de uma parede, olhei bem para baixo

As luzes brilhavam como um show de neon

Bem lá dentro, senti um brilho cálido

Sem lugar pra ficar, sem ter pra onde ir

Sem tempo a perder, precisava seguir em frente

Eu acho que eles morreram há algum tempo

Eu acho que eles morreram há algum tempo

E eu estava procurando por um amigo meu...

 

THESE DAYS (1980)

Morning seems strange, almost out of place

Searched hard for you and your special ways

These days, these days

Spent all my time, learnt a killer’s art

Took threats and abuse till I’d learned the part.

Can you stay for these days?

These days, these days

Used outward deception to get away

Broken heart romance to make it pay

These days, these days

We’ll drift through it all, it’s the modern age

Take care of it all now these debts are paid

Can you stay for these days?

 

NESSES DIAS

A manhã está esquisita, meio deslocada

Dei duro atrás de você e de seu jeito diferente

Nesses dias, nesses dias

Gastei todo o meu tempo, aprendi a arte de matar,

Fui ameaçado e abusado até aprender

Você poderia ficar por uns dias?

Nesses dias, nesses dias

Usei fraudes lá de fora pra escapar

E um romance de coração partido pra pagar

Nesses dias, nesses dias

Vagaremos através disso tudo, é a época moderna

Cuidaremos de tudo, já pagamos por isso

Você poderia ficar por uns dias?

 

THE ETERNAL (1980)

Procession moves on, the shouting is over

Praise to the glory of loved ones now gone

Talking aloud as they sit round their tables

Scattering flowers washed down by the rain

Stood by the gate at the foot of the garden

Watching them pass like clouds in the sky

Try to cry out in the heat of the moment

Possessed by a fury that burns from inside.

Cry like a child, though these years make me older

With children my time is so wastefully spent

A burden to keep, though their inner communion

Accept like a curse an unlucky deal

Played by the gate at the foot of the garden

My view stretches out from the fence to the wall

No words could explain, no actions determine

Just watching the trees and the leaves as they fall.

 

O ETERNO

O cortejo segue, a gritaria acabou

Ficou pra trás o louvor à memória dos que se foram

Falam alto, conversam em volta das mesas

Flores espalhadas, varridas pela chuva

De pé junto ao portão da entrada do jardim

A observá-los, passando como nuvens no céu

Tentando chorar no calor do momento

Possuído por uma fúria que queima por dentro.

Choro como uma criança, ainda que estes anos tenham me envelhecido

Com crianças, meu tempo é tão desperdiçado

Um peso a carregar, ainda que suas íntimas comunhões

Aceito como uma maldição, como um acordo ruim

Entretido pelo portão da entrada do jardim

Minha visão se estica da cerca até o muro

Nenhuma palavra explicaria, nenhuma ação determinaria

Apenas olho as árvores e as folhas que caem.

 

IAN CURTIS (1956-1980), em seus 23 anos de vida, ficou conhecido como o letrista, vocalista e líder da banda inglesa Joy Division. Desde pequeno, foi poeta e leitor voraz. As letras de suas canções nasceram, na maior parte das vezes, como poemas.

ANDRÉ CARAMURU AUBERT é escritor, poeta e tradutor. É autor, entre outros, do romance Poesia Chinesa (2018) e dos versos de se / o que eu vi (2019).