PENSATA | Etel Frota
29/04/2022 - 11:25

Thiago y yo

A escritora Etel Frota resgata a história da sua amizade com o poeta Thiago de Mello, morto em janeiro, aos 95 anos

 

“...El tiempo y Thiago de Mello trabajan em sentido contrario. El tempo erosiona y continua. Thiago de Mello nos aumenta, nos agrega, nos hace florear y luego se va, tiene otros quehaceres. El tempo se adhiere a nustra piel para gastarnos. Thiago passa por nuestras almas para invitarnos a vivir.”

 

(Pablo Neruda, 1965)

 

Era enorme e pesado o pacote com que eu embarcava rumo a Manaus, na manhã de 30 de março de 1996. Tivera a infeliz ideia de colocar vidro duplo no quadro que emoldurava o pedaço de cânhamo cor de areia em que bordara estas palavras de Neruda, assim mesmo, em castelhano, talvez por amor aos ipsílones, que resultam tão belos desenhados em linha preta. Capenguei pelos corredores do embarque e do avião, driblando uma dúzia de solícitos funcionários que tentavam me convencer a despachar a estrovenga.

Logo mais, no saguão do Theatro Amazonas, ainda com o quadro embaixo do braço, eu me apresentaria ao homenageado daquela noite, no dia dos seus setent´anos. Já sentada no camarote para o qual me conduziu sua mulher, Aparecida [a quem coubera a guarda e manejo do presente desajeitado, enquanto o poeta se encaminhava para os bastidores, preparando-se para entrar no palco, no gran finale daquele espetáculo], eu permaneceria por quase duas horas em estado de susto, estranha no ninho daquela família que não tinha ideia de quem eu fosse, embora eu os conhecesse tão bem. Um olho marejado no viejo em cena trajado com sua melhor brancura, com o canto do outro eu espiava Isabella, bela bela em seus vinte e poucos, a protagonista de um dos meus poemas favoritos da vida, o “Trisabellário”

 

Pra esperança pequenina da minha

filha Isabella, estendo aqui uma

campina em frente de sua janela:

Isabella, bela, bela, tu vais ver o que virá.

 

Da festa que se seguiu, na casa de Anália, sobrinha do poeta, retenho flashes vívidos, uns legitimamente guardados na memória, outros talvez inventados a partir das fotos que tantas vezes revisitei. No cardápio, o prato preferido do aniversariante. Refogado de carne moída. Passei muitas horas conversando com Aníbal Beça, o tremendo poeta amazonense que viria a se tornar um querido amigo. Trouxe o seu Suíte para os Habitantes da Noite, com a orelha escrita por Thiago

 

Não faço prefácio. [...] Teu verso, vida ao reverso, já é prefácio, anteface, da clara felicidade que só da poesia nasce

 

Conheci a bela música de Célia Vaz, outra amiga que ganhei para sempre, levada à festa por Manduka, o filho mais velho que, madrugada adentro, protagonizou com o pai o inesquecível jogral com a poesia de Zé Limeira que literalmente nos levou todos às lágrimas de tanto rir. Fotografei tudo na minha Olympus. São as fotos que revejo hoje. Há uma em que Thiago Pai abraça o menino Thiago Thiago e Isabella; é a minha favorita. Em duas delas, alguém me registrou, estupefata, enlaçada com meu viejo poeta.

 

ARTIGO OITAVO, A MISSÃO

Esse encontro começara no ano anterior, na tarde em que achei, na caixa de correio, uma carta que levei tempo para abrir. O tremor das mãos atrapalhava-me a precisão e eu sabia que tinha que descolar com todo o cuidado a aba, para não danificar aquele envelope precioso, com o carimbo do correio de Barreirinha / AM e sobrescrito com a letra perfeita, desenhada

 

Poeta

ETEL FROTA

Rua Teixeira Mendes, etc...

Acabo de reler, devagarinho, os seus poemas do Artigo Oitavo. Fique sabendo, faço questão de lhe dizer, que você me fez sentir a felicidade que só a emoção poética pode dar. Estes originais são do seu primeiro livro? Ou já publicou antes outros poemas? Pergunto porque revela, em todo o livro, uma segurança verbal, um domínio na escolha das palavras, que em geral só se consegue com muito e longo trabalho. Você já tem a sua linguagem, um jeito de dizer poético que é o seu: admirável conquista.

 

Assim dizia o primeiro parágrafo de uma longa carta em que Thiago de Mello se debruçava sobre os originais que eu tivera a audácia de enviar, alguns meses antes, ao endereço que consegui junto à editora do último de seus livros, em uma complicada e incerta estratégia.

Poema-a-poema, linha-a-linha, ele fazia observações, sugeria acréscimos e cortes, corrigia erros, me botava para trabalhar.

 

§Urro — ou você elimina o verso “à piedade dos piedosos” e deixa somente os dois versos finais; ou trabalhe mais o verso, criando metáfora de mais força.

§Estio — inverta: “múltiplo orgasmo” — mo/mu é aliteração feia sonoramente

 

Sem mais aquela, ao nível das minúcias, os meus versinhos inaugurais e diletantes ganhavam três páginas de observações de Thiago de Mello.

O viejo sempre fora uma entidade na nossa casa. Luiz Frota me apresentou a poesia dele, quando eu era pouco mais que uma adolescente, em um tempo em que necessitávamos de indignação, arroubos cívicos e poesia para sobreviver aos anos de chumbo. Depois que juntamos nossos trapos, livros e elepês, sempre houve uma prateleira com os títulos dele enfileirados e um pôster com “Os Estatutos do Homem” na parede. Nosso filho, aos 5 anos, ganhou a Arte e Ciência de Empinar Papagaio com a dedicatória

 

Jonas,

é para a tua geração que eu trabalho na construção da Esperança. Guarda a ternura do Thiago / 85

 

No dia dessa dedicatória, Thiago assinou também “A Canção do Amor Armado”, para o Luiz. Para mim, “Faz Escuro mas eu Canto”. Naquela manhã de sábado, na Fundação Cultural de Curitiba no Largo da Ordem, permaneci por horas na longuíssima fila que fazia curvas e subia a escada. Quando cheguei na frente do poeta, ante algum comentário deslumbrado que fiz, pousou a caneta, me olhou nos olhos e perguntou: — Você escreve poesia?

Não, eu não escrevia. Nem poesia, nem prosa, nem coisa nenhuma. Quando muito, caprichava na ortografia dos meus laudos médicos. Talvez fosse uma frase que ele usasse para calar fãs mais prolixas e conquistar para sempre os seus corações. Funcionou.

É claro que Thiago não sabia nada disso quando recebeu os poemas que, por falarem da dor da ausência, eu reunira sob o guarda-chuva do Artigo oitavo d’”Os Estatutos do Homem”

 

Fica decretado que a maior dor 
sempre foi e será sempre 
não poder dar-se amor a quem se ama 
e saber que é a água 
que dá à planta o milagre da flor

 

Uma década decorrida, e eu já tinha a pretensão de escrever poesia. Ainda era médica, mas passara a frequentar oficinas de música e literatura, circular pelo Conservatório de MPB de Curitiba, cantar no coral de Marcos Leite, esse outro grande personagem do meu samba-enredo.

Mas aquele era o momento da carta de Thiago de Mello que, sem nada saber dos nossos passados conjuntos de empinadores de papagaios, concluía

 

...reúno, num abraço que leva a luz da floresta, você, o Jonas e a Luisa

 

O JONAS

A partir da minha poesia, Thiago deduzira acertadamente que Jonas e Luisa eram meus dois filhos. Naquele setembro de 1995, eu lambia a ferida aberta pela morte do Jonas, acontecida exatamente um ano antes. Na carta, o poeta me pedia que contasse de mim, de meus filhos, de nós.

Contei. Falei da minha versão do não poder dar amor a quem se ama. Mandei, junto com a carta, um sino de vento, o presente que naqueles dias eu gostava de dar aos que venciam o constrangimento que costuma embaraçar quem se vê diante da figura da mãe enlutada e me acolhiam em um abraço onde cabia tristeza e tudo. Era como se repartisse um pouco da voz do Jonas.

A segunda carta do viejo chegou dia 1º de dezembro.

 

...quero estar perto contigo. Como o Jonas está comigo. Li muitas vezes o teu poema ‘das Dores’, “numa dobra do caminho/ quando andava distraída/ me pegou de jeito a vida”. [ ...] Minha casa na floresta é a sua casa. Vim escrever (a madrugada está chegando na floresta) porque acordei sonhando com você, o Jonas e a sua casa.

 

Dois meses depois, em uma tarde de sábado, passadas algumas semanas depois de ter a minha filha Clara chegado inesperadamente em casa, eu labutava com o rés-do-chão desse primeiro milagre acontecido no rumo da nossa ressurreição. Luisa, nos seus cinco anos, que já vinha dando o seu jeito pra driblar com metáforas a sombra que ameaçava a sua infância, deslumbrava-se com a novidade da irmã caída de paraquedas. Às voltas novamente com a manutenção da vida — fraldas, ciúmes, mamadeiras, choros, cólicas — não pensava absolutamente em poesia, quando o telefone tocou. Em uma ligação picotada e cheia de interferências, a voz inconfundível de Thiago de Mello me pedia para escutar o poema que tinha acabado de escrever

 

Pois de repente descubro

que já não viajo sozinho:

um menino vem comigo.

Quem? Ora, quem, o Jonas,

companheiro meu de vida,

de poesia e de esperança,

que já conhece outras águas

muito mais verdes que as minhas.

 

Mal pude balbuciar umas coisas desconexas. O viejo, com voz embargada, me mandou as bênçãos da floresta e desligou. Alguns dias depois enviou-nos, por fax, o poema manuscrito

em sua letra encantadora, até hoje e para sempre na parede de casa, lado a lado com Os Estatutos do Homem. Luiz Frota mandou-lhe um telegrama.

 

...choro neste momento, mas de alegria, sabendo que nosso Jonas viaja com você. E sorrindo!

 

Assim foi que, nessa sucessão de milagres, a convite do poeta, embarquei para Manaus e vivi uma das grandes aventuras da minha vida. No voo de volta, já no dia seguinte, rascunhei a ‘Lira de teus setent´anos’ que, é claro, acrescentei ao repertório do Artigo Oitavo, que viria ao mundo cinco anos depois.

 

Assim, entre os teus sentada penso em tua caminhada penso em minha caminhada estranhas trilhas do amor. No belo e tão vasto oceano que atravessei quase a nado pra te trazer uma flor.

 

NÃO MERECI A FÉ

Em agosto, fui novamente me encontrar com eles na Bienal de São Paulo. Enquanto o poeta atendia à multidão de leitores, Aparecida e eu, no espaço de uma tarde, nos tornamos amigas.

Encerrada a tarde de autógrafos, saímos, os três, do pavilhão no começo da noite e fomos jantar na casa de Ciro Figueiredo, que me presenteou, na saída, com seu livro Como Se Fôssemos os Primeiros. No prefácio, assinado por Thiago, a

 

...declaração pública da alegria, senão do amor, que me nasceu no peito quando encontrei, pouco tempo depois do meu retorno do exílio, esse jovem e poderoso poeta.

Não lembro quem foi, durante o jantar, que puxou o fio do assunto das transcendências. Pela primeira vez ouvi de Thiago sua profissão de não-fé. Talvez eu tenha contraposto minhas metafísicas, em um tempo em que andava cheia delas. Não podia entender como materialista alguém que tinha vindo me trazer as mais concretas notícias do paradeiro do Jonas.

Contrapus-lhe ao anticlericalismo Thomas Merton e os teólogos da libertação, que andava lendo. Meu ponto era que sua rejeição não podia incluir religiosos que combatiam o bom combate. Enquanto emendava a monja francesa que conhecera havia pouco tempo, cristã apostólica romana, com quem uma amiga agnóstica-raiz travava embates épicos e filosoficamente deslumbrantes, Thiago me apartou. Freiras gostam mesmo é de foder, Etelvina. Eu viria a aprender que era assim, por nocaute, que o viejo encerrava os assuntos que enveredassem para chatices acadêmicas ou filosofentas.

Thiago tinha argumentos muito mais definitivos; não os usou talvez para me poupar o vexame de expor minha ignorância sobre sua obra. Seu magnífico longo poema em decassílabos perfeitos, “Tenebrosa Acqua”, por exemplo — fortemente alicerçado em citações bíblicas — foi dedicado, em 1954, a Dom Justino e a Dom Timóteo, monges beneditinos meus amigos.

 

[OS BARCOS]

...pois dos mastros

as velas vão surgindo, vão crescendo

como cresce uma folha de palmeira,

às manobras da brisa sempre dóceis.

De caminhos de barcos sabe o mar.

Os ventos é que sabem dos destinos.

 

[AS ÁGUAS]

... a grande quilha

movia-se, infinitamente grave,

sobre si mesma e em em torno de seu fulcro.

As águas já nasceram navegadas

pela cara de Deus, barco primeiro.

 

[OS VENTOS]

...Já sopravam

respiros em repouso, no recôncavo

do espírito pairante. Desde sempre.

Chegaram concedidos, em derrame

as narinas de Deus recém-movido...

 

[O BARQUEIRO]

Nasce o barqueiro quando o barco afunda.

Nasce e não morre nunca mais.

A viagem, quem a faz é o barqueiro, a vera viagem,

cumprido por si mesmo, e tão comprida

que o tempo se dissolve, deslembrado

 

[A CARAVELA]

...Era preciso

primeiramente padecer o mar,

ter os remos e os rumos destroçados,

para afinal sentir-lhe o sortilégio:

vogar é revogar: ter é reter.

Quem, presunçosa, da missa não sabia a metade era eu.

 

Thiago y Luiz

Thiago veio para cá no ano seguinte, para o lançamento do seu primeiro último livro, De uma Vez por Todas, que contém o poema para o Jonas.

 

Etelvina e Luiz,

vocês estão dentro do livro e do meu coração. Thiago

 

Era um evento literário da Fundação Cultural. Curitiba, sendo Curitiba, presenteou-o com uma frente fria inesperada. Luiz Frota prontamente emprestou-lhe um casaco que, se não era branco era quase, de maneira que não desornasse muito da alvura das suas vestimentas.

Thiago e Aparecida, hospedados em hotel pela FCC, quiseram estar em casa, conosco, todo o tempo disponível entre seus compromissos. Procuro agora, sem encontrar, a mais bonita foto que tenho da Clara, pequenininha, estendendo a mãozinha para a mão do poeta.

Nossa casa viveu dias de glória. Entre as celebridades que circularam por lá, lembro de Jairo Guzmán, um dos criadores do Festival de Medellín, um testemunhadejeová da poesia, que andava invariavelmente carregando sacolas de livros e revistas de poetas colombianos, distribuindo-os às mancheias. José Castello foi entrevistar o poeta para o Estadão. Para a então idônea Gazeta do Povo, Rodrigo Browne, neto de Adão Pereira Nunes — o exemplo luminoso — companheiro de exílio no Chile a quem Thiago dedicou Vento Geral.

[Rodrigo e eu nos conhecemos naquela tarde e seguimos, até hoje, trabalhando em parceria em projetos de poesia e música. Acalentamos — e postergamos por anos a fio, em um tempo em que a gente achava que tinha todo o tempo do mundo — o projeto de ir ao Amazonas visitar o poeta, estivesse ele em Manaus ou em Barreirinha. Veio a pandemia. Chegou este janeiro.]

Quase um ano depois, o viejo voltou para uma visita à reserva de Salto Morato, em Guaraqueçaba; levou-me a tiracolo. Novamente a japona do Luiz o salvou do vento gelado e úmido que nos castigou na travessia da Baía de Paranaguá, em pleno julho. Eu nem sequer desconfiava estar conhecendo o que viria a ser — 20 anos depois — um dos cenários principais do meu primeiro romance. Nem tampouco meu mais recente pouso seguro nas mansas tardes de escrita abençoada pela baía, os biguás e o casal de golfinhos que volta, todas as tardes, para nadar no rasinho.

Uma historiazinha prosaica acontecida nesses dias. Thiago nos contou de sua dificuldade para encontrar sapatos brancos que fossem ao mesmo tempo bonitos e confortáveis. Fiz o contorno do seu pé em papelão e encomendei ao Santiago, sapateiro artesão que à época tinha seu ateliê na Rua David Carneiro, um calçado branco de finíssima pelica. Gostava de imaginar os pés de barro do meu ídolo calçados nele, em suas andanças pela floresta. E pelo mundo, durante o tempo em que as pernas ainda lhe chegassem para tanto.

Alguns meses depois, Luiz morreu em um acidente de carro.

Comunicar isso ao viejo foi um dos momentos mais lancinantes daquela madrugada.

Na semana seguinte, despachei para Barreirinha uma caixa com o sapato artesanal e a japona quase branca, que já era quase dele.

 

POLIFONIA

No ano seguinte, em São Paulo, o viejo lançou Campo de Milagres, seu segundo último livro. [Pelas minhas contas, o definitivo último livro só acontecerá em 2015, o Acerto de Contas]. Encontramo-nos para almoçar, antes da tarde de autógrafos. Ele trazia embaixo do braço, pronto e assinado, o meu exemplar.

 

para Etelvina, minha companheira de poesia, na bênção de sua amizade, a ternura do Thiago

 

Para além da dedicatória, a orelha trazia

 

Algumas palavras sobre Thiago de Mello, à guisa de uma biografia polifônica,

 

a coletânea de citações que eu tinha compilado para o material de divulgação da FCC no ano anterior. Ainda hoje, vez por outra volto aos parágrafos de Otto Maria Carpeaux, Sérgio Milliet, Alceu Amoroso Lima, Manuel Bandeira, Pablo Neruda, Paulo Freire, Carlos Heitor Cony (entre

outros), como testemunho cronológico da caminhada do homem que atravessou sete décadas diuturnamente a serviço da poesia. Nesse dia, Thiago voltou a me cobrar a publicação dos meus poemas.

Apenas em 2000 voltamos a nos encontrar, no Rio de Janeiro, quando começávamos a gravar o CD que viria a ser encartado no meu — finalmente! — Artigo Oitavo — poesia escrita, falada e cantada. Thiago gravaria comigo a faixa em que meu “Lira de teus Sentent´anos” dialoga, tributário, com alguns artigos d’”Os Estatutos do Homem”.

Somente dois anos depois, na lerdeza das produções independentes, viria a acontecer o meu baile. Lancei o livro + CD no dia dos meus cinquent´anos. Thiago e Aparecida estavam lá. Em “Palavras Escritas na Água”, meu viejo padrinho afirmava

 

...não escondo que escrevo comovido. Tocado por essa alegria que é uma espécie inefável de felicidade que só a beleza da arte pode dar,

 

no prefácio que, dizia,

 

...não passa de um punhado de escamas esmaltadas, que recobrem a pele destas águas.

 

Cinderelei.

 

LÍRIO E RIO

Aos onze dias da morte de Thiago de Mello, recebo a notícia da partida — prematura — de Daniel Taubkin. Foi impossível não unir os dois pontos.

Conheci Daniel em São Paulo, no SESC Pompeia, assistindo a um show de amigos comuns, em 2003. Disse a ele da minha admiração pelo seu BRAzSIL, CD de 1998, que eu ouvira recentemente. Dei para ele um exemplar do Artigo Oitavo que eu levava na bolsa; nossos trabalhos tinham em comum uma faixa com a voz de Thiago de Mello. Mencionei, então, que na manhã seguinte eu embarcaria para Manaus, para dali seguir a Parintins e, finalmente, a Barreirinha, onde Thiago e Aparecida me esperavam.

Naquela madrugada Daniel levou o BRAzSIL ao hotel onde eu estava hospedada, para que eu o entregasse a Thiago.

Fui de avião até Parintins, com uma demorada conexão em Manaus. No aeroporto, me esperava Ribeirinho, cearense de Sobral vivendo no Amazonas havia 27 anos. Recomendada por Thiago, de quem era devoto — como as dezenas de outras pessoas que eu viria a encontrar nos dias seguintes —, me mostrou, em menos de 24 horas, uma Parintins que, desconfio, eu não teria enxergado a não ser através dos olhos dele. Era o dia da festa da padroeira, dia seguinte à festa do boi. Caprichoso de coração, me conduziu por uma cidade dividida entre o azul de seu boi, sem deixar de me apresentar o vermelho do rival Garantido. Levou-me ao galpão onde descansava da farra da véspera a estatuária singularmente bela. Levou-me às feiras e me indicou a quermesse montada rente ao muro do cemitério.

No dia seguinte embarquei rio acima para Barreirinha. Comprara uma rede. Embora a viagem fosse relativamente curta, cerca de quatro horas, eu não queria deixar de viver a experiência de fazê-la à maneira da terra. Mal tinha amarrado a minha a uma das estacas, o filho do dono do barco veio falar comigo. Era eu a mulher que estava indo para a casa do poeta? Pois o pai tinha recebido recomendação expressa para que me colocasse à disposição a suíte do capitão, um quartinho com cama, lençóis limpos e ventilador. Foi um pouco embaraçoso declinar de tal prerrogativa, mas a viagem a bordo da rede me recompensou com horizontes inacreditáveis, o barulho do rio e da floresta e um único boto que veio se mostrar a mim, a ocupante estrangeira do barco. Possivelmente, mais uma das encomendas do viejo, para me alimentar o deslumbramento.

Aparecida me esperava no trapiche. A casa deles, na Rua da Frente, ficava a dezoito passos da barranca do rio Amazonas; contei. Mais à noitinha, na sala com janelas abertas para o murmúrio da correnteza, compartilhei com um emocionado Thiago sua primeira audição de "Lírio — Uma Pequena Suíte Cabocla", a faixa do CD de Daniel Taubkin.

 

Ser capaz, como um rio que leva sozinho

a canoa que cansa, de servir de caminho para a esperança.

 

Nesses dias em Barreirinha, andei a um palmo do chão. Passeei pela cidade a espiar para dentro das casas pelas janelas baixas; conheci a biblioteca do Porantim, construção do poeta em favor da cidade; na mesa da cozinha, comi peixes deliciosos com Thiago e Aparecida. O indefectível uísque nosso de cada noite era embalado por histórias — sempre hilárias — acontecidas na companhia de Zé Lins, Bandeira, Neruda. Era surreal demais estar ali, ouvindo fofocas sobre pessoas que eu nem tinha a certeza de terem realmente existido, como se isso fosse a coisa mais natural do mundo.

Mas nem só de literatura se faziam esses afagos. Contei para eles que, durante minha escala em Manaus, em vez de almoçar, tinha ficado na sorveteria provando todos os sabores das frutas que desconhecia, com destaque para a jaca que, embora conhecesse — e amasse — nunca antes tinha experimentado em forma de sorvete. Foi a senha para que, no dia seguinte, uma jaca rescendendo de madura se materializasse na prateleira principal da geladeira, à disposição da minha gula a qualquer hora do dia ou da noite.

Thiago quis me mostrar os lugares das aparições do Jonas. Subimos o rio Andirá a bordo de uma voadeira pilotada pelo viejo, ele mesmo, no mais belo pôr de sol de toda a minha vida. Na boca da noite, atordoada de rio, pássaros e floresta, ouvi a voz do sino de vento a me anunciar

que estávamos chegando. Ali estava Flor da Mata, a casa de Lúcio Costa, a enorme varanda equilibrada sobre esteios de madeira, com o rio a correr por debaixo

 

...quem eu vejo debruçado

no parapeito da casa? Quem?

Ora, quem, o Jonas,

com jeito de quem espera...

 

Comemos, bebemos, lavamos a louça com areia da beira do rio, ainda uma vez rimos desbragadamente com as histórias do viejo, nadamos no Andirá, zombaram do meu medo das arraias. O resto do tempo lemos em silêncio, nas redes penduradas no varandão.

Vivi, ainda, o encantamento de reencontrar meu quadro de ponto de cruz — trabalho manual de comadre — lado a lado com a galeria de obras de arte que Thiago colecionava na edícula ao lado da Flor da Mata.

Desses dias trouxe, ainda, para o resto da vida, a alegria da Joanice, a fiel escudeira responsável pelo gosto dos peixes inesquecíveis, cabocla bonita que até hoje me honra com o tempero da sua amizade.

 

MANDUKA

Nesse mesmo ano, aos 52, morreu Manduka, batizado Manuel como o padrinho Bandeira. O primogênito, a quem Thiago saudara com os

 

...adultos olhos secos

já quase afeitos à treva,

de repente se iluminam

ante a luz das alvoradas

que te despontam das mãos.

 

A dor de Thiago era dilacerante. Naqueles dias, pensei que o viejo se iria logo em seguida. Jamais pensei que pudesse sobreviver a esta perda por mais de 17 anos. Sobreviveu, mas não tenho dúvidas de que parte de sua alegria ficou enterrada ali.

Nos meses que se seguiram à morte do Jonas, muito antes que Thiago entrasse na nossa vida, alguém tinha me mostrado o “Acalanto para as Mães que Perderam o seu Menino” de Bandeira, que passou a fazer parte do meu acervo-de-consolo para momentos críticos, ao lado de outros dois poemas, de Cecília Meirelles e Fernando Pessoa. Nesses dias subsequentes à morte do Manduka, escrevi a letra-colagem “Acalanto de Manuel”, a partir desses versos do seu padrinho, sobre melodia de Davi Sartori.

 

Adolescente para sempre, hoje ele te diz

de todas as idades que viveu

Te traz a aurora da primeira vez que te sorriu

te traz o esmalte do primeiro dente seu

Ele te nina e essa dor já vai passar

Agora dorme, que essa dor já vai passar

 

Thiago e eu nos tornávamos parentes na dor sem cura e sem sentido de testemunhar a partida do filho.

 

NOVENT´ANOS

Noves fora alguns e-mails e telefonemas, só voltei a encontrar Thiago na festa dos seus 90 anos, em São Paulo, na Biblioteca Mário de Andrade. Fui convidada por Fernanda de Almeida Prado, militante da poesia, filha de Antônio Lázaro de Almeida Prado. Na apresentação de Poesia Sempre, livro de Antônio Lázaro, o viejo escrevera

 

Quero fazer um gesto de amor para um poeta que chega cantando na minha vida. [...] me deu a felicidade inefável, que só a verdadeira poesia sabe inventar.

 

Para essa noite, reciclei e ofereci ao meu poeta, passados vinte anos, a “Lira dos teus Setent´anos”.

Guardo o sorriso largo e o espanto deleitado do seu olhar quando subi ao palco [a lista de convidados era uma surpresa para ele] e o abraço amoroso com que me retribuiu. Logo depois atendia à multidão dos seus leitores. Apresentei-lhe Lucélia Reis, que naquele momento escrevia Penélope pelo Avesso, uma dramaturgia que viria a ser montada pela Comparsaria Cênica no ano seguinte, baseada nos poemas do Artigo Oitavo e suas epígrafes, de autoria de Thiago. A atriz lhe pedia autorização. O viejo abençoou o trabalho com um largo e estreito abraço que nos envolveu a ambas. Foi a última vez em que estive com ele.

Em 2018, Fernanda me contou que o Prêmio Jabuti homenagearia Thiago de Mello pelo conjunto de sua obra. Decidi-me por não ir, quando soube que o viejo, com a saúde debilitada, não estaria lá. Hoje, ao mesmo tempo que me arrependo, penso que o que me deteve foi um travo de ressentimento pelo fato de que ele nunca tenha recebido a premiação em sua vigília atuante de mais de seis décadas de poesia. Da mesma forma, a Bienal de 2021 usou como mote o seu verso “Faz Escuro Mas Eu Canto”, em um momento em que já escurecera a potência do seu canto.

Flores em vida. Pero no mucho.

 

MEUS SENTIMENTOS

O resto foi a postergação da ida a Manaus e a pandemia. Acordei, há um mês, com a notícia da morte de Thiago. Alentou-me saber que morreu em casa. Tive, sobretudo, uma estranha e muito egóica sensação de consolo quando comecei a receber, às dezenas, mensagens de amigos que se lembraram de mim ao receber a notícia.

Tenho ouvido e lido por aí que a poesia militante de Thiago de Mello carimbou a sua produção. Capaz que seja. Há, no entanto, aquelas sete décadas de poesia a serem revisitadas. Sem ferramentas para esta conversa, mergulho novamente com coração e vísceras nos meus poemas favoritos; penso outra vez que a obra de Thiago foi um bocadinho mais do que “Os Estatutos do Homem”.

Na definição certeira de Claudio Leal, Thiago de Mello foi um homem que “habitava sua linguagem”. Viveu cada um dos episódios de sua longa vida em estado de poesia. Ele próprio, aliás, já em Silêncio e Palavra, o primeiro livro, em 1951 deixara resolvida a equação

 

Somente sou quando em verso.

Minha faces mais diversas são labirintos antigos

que me confundem e perdem

 

É também desse livro o "Romance de Salatiel" que — me ensina o Google — é, no Antigo Testamento, um arcanjo que está dia e noite orando pelo bem entre os homens. Desconheço se o personagem de Thiago é anjo ou gente, vai saber. O fato é que a morte de Salatiel deu ao poeta inaugural o mote para o exercício da sua reflexão particular sobre a morte e prenunciava a qualidade de suas transcendências, a espécie de panteísmo mezzo caboclo mezzo erudito que praticou.

 

[O VELÓRIO]

Se foi triste, se não foi,

se gostou de olhar o azul,

se sofreu por desamor,

se digeriu a contento,

se procurou Deus (achou-o?),

não conta mais. Salatiel

já é matéria sem ganga

que se oferta, horizontal,

aos olhares e aos pêsames...

[...]

 

[O SEPULCRO]

Na clareira de treva

em que o tempo não conta

e onde o brilho de luas

afoga-se em argila,

os vermes já circundam

a carne recém-vinda...

[...]

 

[EPÍLOGO]

[...]

Salatiel não-sendo, desconhece

a exata perfeição do que não é,

e integra-se à paisagem absoluta

onde nem sombras há das três colunas

suportes do planalto que assegura

o repouso dos deuses fatigados:

constante prolongar do dia sétimo.

[...]

é substância de nuvem: sem sabê-lo,

azula a arquitetura do vazio.

 

Tardiamente, compreendo a presença do Jonas na proa do barco de Thiago, maravilha pagã isenta de qualquer intermediação divina.

 

A CASA E O PAI

Em 25 anos, eu nunca conseguira dizer em voz alta, em público, o poema “O Jonas Viaja comigo”. Em março do ano passado, Fernanda — sempre ela, benzadeus! — promoveu, em seu “Chama Poética”, uma láive na celebração dos 95 anos de Thiago de Mello. Pela primeira vez vocalizei os versos. Reencontrei, naquela noite, Ciro Figueiredo e Thiago Thiago.

Deve haver por aí dezenas de histórias parecidas com esta minha. Quantos e quais aspirantes a poetas terá Thiago de Mello botado para trabalhar? Para quantos livros, como os de Aníbal, Ciro, Antônio Lázaro e o meu, lidos no silêncio da floresta, terá escrito prefácios e apresentações, ainda que poesia de mesmo não tenha precisão dessas ajudas? Com quem mais terá repartido sua vida em abundância?

Pois neste momento, enquanto azula a arquitetura do meu céu, Thiago segue atuando na minha vida. Durante o confinamento da pandemia, finalmente me atraquei a sério com velhos guardados, tentando acomodar o caos do passado em pastas. Dia sim, dia não me martirizei pela incapacidade de jogar coisas fora. Hoje, aberta esta gaveta cheia de tempo e afeto, manuseio fotos, cartas, recortes de jornal, o voucher da reserva do hotel em que Thiago e Aparecida se hospedaram em 2002, anotações manuscritas nas beiradas de programas amarelados, o velho LP da parceria com o irmão Gaudêncio, o encarte do CD de Daniel Taubkin,

e me reconcilio definitivamente com a guardadeira contumaz que me possibilita recuperar esta história, em níveis sensoriais.

Amadeu Thiago de Mello se foi, enquanto dormia. Escreveu, tecido de silêncio, seu verso definitivo. Thiago Thiago de Mello, o filho menor, esteve a seu lado, cantando para adormecer o velho barqueiro. Neste mês de ressignificados, escrevemos juntos a canção "Casa e Pai".

 

Tomo a embarcação

cais que me constitui

chão, Barreirinha

vida que flui:

barrancas de meu pai

Olhos na imensidão

dos céus que tem por lá

povo, floresta

Rio Andirá:

as águas de meu pai

 

Fica, no sedimento das águas, a gratidão — essa palavra tão desgastada quanto insubstituível — pelo dia em que, como um rio, Thiago de Mello pasó por mi alma para invitarme a vivir.

 

Curitiba, 14 de fevereiro de 2022

 

 

Etel Frota nasceu em Cornélio Procópio (PR), em 1952. Estudou Medicina e atuou como clínica geral por quase duas décadas. Começou a escrever depois dos 40 anos. Em 2002 lançou Artigo Oitavo, livro / CD de poesia escrita, falada e cantada. Sua produção como letrista de canções abrange uma enorme gama de gêneros musicais — do erudito à música caipira. Em 2017 lançou seu primeiro romance, O Herói Provisório. Ocupa a cadeira 22 da Academia Paranaense de Letras. Vive em Curitiba (PR).