A felicidade na ruptura
06/07/2018 - 15:00

Aos 50 anos de carreira, Denise Stoklos troca a celebração pela autocrítica e se renova em um espetáculo colaborativo

Helena Carnieri

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Fotos: Marcelo Elias

Denise Stoklos, 67 anos, está sempre mudando o cabelo para que ele fique igual — fiel à persona criada ainda nos anos 1970, com sua sugestão de loucura e juventude. Seu vigor e raiva também continuam os mesmos no palco, bem como sua generosidade fora dele. Mas a criadora do teatro essencial (método em que o ator é o centro da obra, inclusive em sua autoria) agora trabalha, pela primeira vez em muito tempo, com uma equipe ao seu redor.

Para desenvolver seu mais novo espetáculo, Denise Stoklos em extinção, ela se cercou de um trio psicanalistas (para colaborar na dramaturgia) e de uma dupla de diretores, entre outros profissionais com quem sempre se identificou. O resultado dessa experiência estreou no Festival de Teatro de Curitiba, no início de abril, ocasião em que a atriz conversou com a reportagem da Helena. Em plena celebração de seus 50 anos de carreira, Denise falou sobre o projeto atual, a arte na maturidade, o avanço do conservadorismo, a discussão acerca do feminino, a relação com a cidade natal (Irati, a 150 quilômetros de Curitiba) e a condição de avó, entre outros temas.

 

Ao longo de 50 anos de carreira, como você conseguiu se manter fiel à ideia de ruptura, de renovação?

Esse aniversário de 50 anos de teatro é um momento em que, em vez de celebrar, resolvi fazer uma espécie de autocrítica, embora esteja, em termos, totalmente ligada com o que já fiz. Mas coloco meu próprio trabalho como exemplo da extinção de que fala o livro de Thomas Bernhard [Extinção, de 1986, que inspirou o novo espetáculo]. Senão a peça não teria sentido. A sensação é muito boa. Não de exposição, mas de despojamento, de entrega, como se fosse um banho de cachoeira. E que fiquem os 50 anos como história bem preservada. Mas que a gente possa ir para a frente. A celebração seria admitir apenas o que foi, só o que esses 50 anos construíram.

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O que você deseja extinguir com esse novo trabalho, em você mesma e ao seu redor?

Eu pensei, durante os ensaios: “Será que quero extinguir alguma coisa da minha estrada?”. Então vi que é apenas uma teatralização, para quem, na plateia, precisar extinguir suas coisas. Para quem se identifique com esse grito de ‘vambora!’. Quem me sugeriu o livro foi o escritor e psicanalista Ricardo Goldenberg, que a partir daí fez a dramaturgia. Como ele [Bernhard] propõe no livro a extinção de tudo, a gente faz isso também no palco, porque não pode ser um convite para os outros e a gente ficar narcisisticamente sem se envolver. Então é uma extinção de toda a história da gente também, pessoal e artística. Para que venha esse novo, que nem se sabe o que é. Há uma atitude forte, de crítica, comprometida, de não aceitar os valores estabelecidos, que a gente sabe que, nesse momento, são baseados em capitalismo, consumo, artificialismo. Ele fala disso tudo e nós traduzimos para o espetáculo. Assumimos o tema dele da nossa forma, dentro da história da gente.

 

O próprio fato de você convidar outros artistas para trabalhar junto foi uma ruptura, não?

Foi um passo rumo ao novo convidar dois diretores para dirigir junto comigo, eu que sempre fui solo. Não desisti do teatro essencial, em que o ator é a base de tudo, mas alarguei a experiência. Chamei o Francisco Medeiros e o Marcio Aurélio porque são da minha geração e também eram maravilhados pelo [Antônio] Abujamra [1932-2015], como eu — para mim é necessário estar sempre perto da linguagem do Abu. O cenógrafo J.C. Serroni também já havia trabalhado comigo, em Orgasmo adulto escapa do zoológico, que o Abu dirigiu [em 1982].

 

Fica um pouco mais seguro fazer teatro em equipe?

O encontro com outros criadores de cena que admiro foi uma forma de enriquecer, mas sempre preservando meu modo de fazer. Teatro nunca fica mais fácil, fica sempre mais difícil. A cada montagem há o medo, o receio da estreia. A gente só tem dúvidas, não tem nenhuma certeza, até que se encontra com o público e vê se consegue a comunicação prevista, imaginada.

 

O que Denise Stoklos em extinção renova em seu teatro essencial?

Antes eu trabalhava no conceito de corpo, voz, pensamento, intuição, memória. Mas acho que dá para radicalizar cada elemento. Só voz. Só corpo. Só memória. Estou experimentando mais a voz neste trabalho recente. Talvez por causa do Abujamra, que me promovia muito. Ele falou que “a melhor voz do teatro brasileiro tinha voltado [do exílio] mímica”. Então me deu vários textos do Dario Fo para fazer… Mas sempre disse que gostaria de, um dia, chegar no palco e não falar nada, não me mexer. E ainda ser teatro. Seria pura energia. Então, de certa forma, enxuguei muito, tentando algo assim, onde a voz é o principal. A coisa do teatro essencial não está ali como algo criticado, como algo que devo extinguir, mas minha persona toda está na berlinda. A gente se expõe para isso.

 

A começar pela escolha do texto, que diz muito.

O texto é um libelo contra esse tipo de coisa e tudo mais que destrói a vida do indivíduo em suas vivências micropessoais. Em alguns momentos, o texto explica o quanto isso mexe em questões pessoais, ao mesmo tempo em que pegamos uma frase do primeiro-ministro britânico [Benjamin] Disraeli [1804-1881]: ‘Não se justifique’. Assuma-se, seja, sem muita explicação. Não precisa traduzir muito. A equipe me estimulou a ver alguns comediantes americanos que faziam suas anedotas sem se justificar, de forma rebelde, como o Lenny Bruce [1925-1966], que criticava negros e judeus igualmente, sendo judeu. Eles me diziam: “Você tem que enlouquecer!”. Quando um texto é tão veemente como esse, a gente vê que nunca fez nada tão radical.

 

Para uma artista madura, como é manter um teatro tão físico? Você se resguarda mais?

Não me resguardo. Mas a gente vai se adaptando às condições. Estou montando uma peça a cada dois anos. Certamente há uma decrepitude natural da idade e que vai sendo acompanhada a cada peça, vai correspondendo ao corpo que está ali naquele momento. Sou muito privilegiada, porque ainda está sendo possível fazer com as minhas definições. Não é a decrepitude que determina. Estou me sentindo super bem.

 

Como você tem encarado o risco da restrição da liberdade do artista, nessa nova onda conservadora?

Esse é um ponto que todo mundo deve ter postura para rejeitar. Não é possível que alguém com exercício intelectual aceite essas posições de direita. O Bernhard também cita isso, porque é um movimento natural. A direita está atenta e lança bases de extinção onde há liberdade e pensamento. Quer atacar o que há de melhor na sociedade: a criatividade. Ouvi um sociólogo dizer que a direita faz muito “auê”, mas não tem nenhuma proposta política por trás. E que a esquerda deveria aprender a fazer “auê” também, para contrabalançar.

 

Acredita que a discussão sobre o feminino veio muito tarde, apesar de ainda ser necessária? Qual dos seus trabalhos trouxe isso de forma mais potente?

Essa questão sempre esteve latente e é importantíssimo poder trazer à tona a diversidade. Para citar apenas um espetáculo, eu diria Elis Regina [1982]. Mas também incluiria Maria Maria, uma gravação de 8 minutos em que eu fazia uma mulher correndo no mesmo lugar, e ela era vista em suas diversas posições: empregada doméstica, mãe, tudo que eu podia representar. E as pessoas gostavam, tanto que um congresso de mulheres, numa ocasião, me convidou para apresentar aquilo.

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Você mudaria alguma coisa em seu processo do passado?

Fui muito privilegiada por começar a fazer teatro em Curitiba, no Teatro de Bolso. Tinha público e dava para pagar o aluguel do teatro, veja só! Depois, trabalhar com o [Oracy] Gemba, a experiência de fazer as peças do Arena de São Paulo, Arena conta Zumbi e Arena conta Tiradentes. Depois fui para o Rio e fiz Missa leiga. Mas tive a sorte muito grande de ter trabalhado muito pouco com personagem. Meu teatro sempre foi de ideias. Textos de teatro já determinam o que tem de ser, então tenho feito adaptação de livros. Desobediência civil, de [Henry David] Thoreau, Carta ao pai, do Kafka, Vendo gritos e palavras, a partir do Cortázar, e, mais para trás, Mary Stuart. Todas adaptações, sem uma limitação à criação de personagem. Se você fala de ideias, posturas, políticas, a coisa fica muito mais ampla, há mais liberdade, até para a gente escolher aquelas que oferecem ruptura sempre. A gente sabe que é na ruptura que está a felicidade, porque ali a gente tira tudo que está viciado em termos de comportamento, de atitude, e abre-se uma outra possibilidade. Existe vida quando a gente se propõe essas ideias de renovação.

 

Qual sua conexão com Irati hoje em​ dia?

Sempre que posso estou lá, meu irmão mora lá. E lá também está meu acervo [a cargo da Unicentro] de fotos, críticas, reportagens, prêmios. Vai haver, ao que parece, uma exposição do Sesc em São Paulo com esses elementos. E o primeiro Festival Internacional Denise Stoklos de Solo Performance deve ocorrer na última semana de novembro, lá mesmo, no teatro que leva meu nome. Irati está muito dentro do meu mapa, adoro a cidade. É bom identificar a cidade de onde a gente é.

 

Seu trabalho está mais sereno agora?

Quero acreditar que está mais vulcânico. Se estou mais serena, deve ser pela condição de avó, de crianças de 9 e 7 anos. É muito bom, é mais uma renovação.

 

Helena Cranieiri é jornalista. Foi setorista de teatro na Gazeta do Povo. Atualmente trabalha como repórter freelancer.

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