A esfera perfeita
11/06/2019 - 10:20

Ivana Arruda Leite

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   Ilustração: Raquel Matsushita

Meu primeiro amor foi o dr. Kildare, um médico de vinte e poucos anos, residente no Blair General Hospital. Corria o ano de 1961 e eu tinha dez anos quando o anjo loiro de olhos azuis pulou da tela da TV branco e preto para o meu colo e passou a viver ao meu lado, grudado em mim para onde quer que eu fosse. Nas festas familiares, na escola, jogando queimada na rua, nas visitas à casa da avó, ele estava sempre comigo, torcendo por mim, conversando e rindo das bobagens que eu falava. Dormíamos de mãos dadas. Naquela época eu não sabia como se fazia sexo, o que não diminuía em nada o nosso amor. Nos casamos, tivemos dois filhos e vivemos felizes como todo casal apaixonado.

Que me importa se as amiguinhas zoam da minha cara, do meu cabelo, se me acham burra e não me querem por perto, meu amor me adora e me acha linda. Que me importa se a minha mãe me bate e me põe de castigo por coisas que eu nunca fiz, dr. Kildare me consola, me leva para passear e diz que um dia isso passa. Que me importa se os meninos da escola vivem pregando bilhetes com desenhos pornográficos nas minhas costas e me fazem chorar envergonhada. O sorriso do meu amado me faz esquecer as tristezas da vida real. Que me importa se o seriado não passa mais na televisão, dr. Kildare, meu primeiro e único amor, seguirá comigo pela vida inteira.

Mas o tempo passou e me mostrou que os amores não são eternos, nem os puros e verdadeiros. E o dr. Kildare foi substituído pelo Roberto Carlos. Amor igual jamais haverá sobre a face da terra, eu dizia estatelada frente à coleção de fotos que cobriam as paredes do meu quarto. Roberto era o meu tudo, a minha vida, o ar que eu respirava. Agora era ele quem ia comigo para a escola, para os bailinhos, para as festas da família. Na escola, por favor, me deixem sozinha, eu tenho o Roberto para conversar. Como posso perder tempo com meninas idiotas e fúteis como vocês que nem olham para a minha cara, zoam do meu cabelo e colocam chiclé mascado embaixo da minha carteira. Que me importa se os meninos não me tiram para dançar. Danem-se vocês. E que tudo mais vá para o inferno. Eu e Roberto somos a esfera perfeita, em nós o mundo começa e termina. Ele odeia os bajuladores que o cercam com seus risos falsos, eu odeio todos que me ignoram e maltratam. Nós dois somos a completude. O alfa e o ômega. À noite, depois dos shows, ele chega em casa cansado, eu faço massagem na sua única perna, preparo uma sopa com pão quente, um chá e dormimos abraçados. Quando o cansaço não é tanto, fazemos sexo daquele jeito que eu já sei como é, embora nunca tenha feito. Meu corpo é do Roberto e dele será para sempre.

Mas o tempo passou e eu terminei com Roberto por causa do Francisco Cuoco, ou do Tarcísio Meira, não me lembro bem. Foram muitos os galãs pelos quais eu me apaixonei, com quem me casei e tive filhos. Para onde eu fosse, meus amores iam comigo. Que me importa se ninguém queria saber de mim, se todos me achavam esquisita, fora de moda, fora do mundo, uma mulher aérea, nunca estive sozinha na vida.

Quando me casei, tinha ao lado um amor que não era ele. Era outro, tão perfeito quanto os artistas da televisão. O marido de uma amiga, um vizinho, um primo distante, alguém que não soltava da minha mão nem para tomar banho. Meu marido era um homem comum, desses que às vezes te olha, às vezes não te olha, às vezes te faz carinho, às vezes te traz presente, às vezes diz que te ama, mas às vezes tem lá suas coisas para fazer e se distrai com seus pensamentos. Às vezes diz que eu sou chata e me xinga de gorda. Por sorte tenho sempre um amor redondo e sem máculas ao meu lado, alguém que me acha linda, me quer a todo instante, adora tudo que eu falo e dá risada das minhas bobagens. Alguém que não quer me ensinar nada nem se importa com o pouco cuidado que tenho com os meus cabelos. Para ele, eu sou a mulher mais maravilhosa do mundo, assim mesmo, do jeito que eu sou. Padres, professores, comerciantes do bairro, galãs de telenovela. Amores perfeitos como esferas de cristal.

Meu marido morreu há muito tempo, mas os amantes ideais não morrem jamais.

O último foi o dr. House. Vejam vocês, comecei com um médico e terminei com um médico. Amei o dr. House como mulher nenhuma foi capaz de fazê-lo. Era comigo que ele vinha chorar as suas dores. Deitava a cabeça no meu colo e soluçava feito criança. Foram inesquecíveis os anos que passamos juntos. Os melhores da minha vida. Um amor redondo e completo, até que um dia eu olhei para ele e disse, não te amo mais. Ele ficou triste, mas aceitou e partiu.

Desde então estou só. Só, mas feliz. Foram quase setenta anos de amores intensos. Agora chega.

 

Ivana Arruda Leite é escritora. Publicou mais de dez títulos, entre romances, coletâneas de contos e obras infantojuvenis. Falo de mulher, Cachorros e Breve passeio pela história do homem são alguns de seus livros.

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