Para iluminar a cidade
20/11/2018 - 16:20

Há seis anos, o coletivo artístico Selvática realiza montagens que dialogam com pautas incontornáveis  como a violência contra as minorias e o preconceito racial  e repercutem para além dos limites de Curitiba

Marcio Renato dos Santos

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         Fotos: Murilo Ribas

Cabaret macchina é um marco na trajetória da Selvática. Pela primeira vez desde que o coletivo artístico iniciou suas atividades, em 2012, uma encenação reuniu todos os seus 18 integrantes. Até então, o grupo já havia apresentado 40 espetáculos, entre eles As tetas de Tirésias e Medeia. Mas, como explica Gabriel Machado, anteriormente cada montagem trazia apenas parte do elenco. “E talvez a gente não tenha saúde mental para reunir novamente os 18 artistas”, diz Machado, há seis anos na Selvática.

Leonarda Glück, também integrante do coletivo desde 2012, afirma que o Cabaret macchina, elaborado a partir da obra de Heiner Müller, evidencia um modelo e um mundo que deram errado — as tradicionais possibilidades de amar e viver. Mas, salienta, a proposta foi bem-sucedida e levou a Selvática, pela primeira vez, a participar da Mostra Oficial do Festival de Curitiba, em abril deste ano — com duas apresentações na Praça Rui Barbosa, no centro da capital paranaense. Em 2018, eles também apresentaram o Cabaret no Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto.

Essa reinvenção do cabaré, gênero conhecido por misturar linguagens, faz o dramaturgo Cesar Almeida — veterano das artes cênicas no Paraná — definir a Selvática como o grupo mais intrigante da cena curitibana. Cabaret macchina é, de acordo com Almeida, um projeto grandioso, em que toda experimentação é permitida. “Suas referências são de um barroquismo extremamente contemporâneo”, diz Almeida, acrescentando que o coletivo sabe, como poucos, agregar várias linguagens, o que resulta na recriação de um “cabaré com desbunde”.

O jornalista e crítico teatral Valmir Santos analisa que, “em seu formato de intervenção em espaço público e estratégia performativa de ponta a ponta”, o Cabaret macchina revela uma experiência coletiva no auge da capacidade inventiva em termos de dramaturgia expandida (“bem para lá do texto”).

A direção — ‘dar liga às boas ideias’ — foi o calcanhar de Aquiles da estreia do Cabaret macchina durante o Festival de Curitiba 2018, ocasião em que acompanhei a segunda sessão nas dependências da Regional Matriz e no entorno da Praça Rui Barbosa. Possivelmente, um estágio necessário dentro de um processo de criação por natureza multiforme”, observa Santos, colaborador da Folha de S.Paulo e um dos editores do site Teatrojornal — Leituras de Cena.

Por trás da estética do cabaré e da aparente precariedade formal, continua o crítico, o Cabaret macchina apresenta um pensamento poético estruturante em narrativas que tocam na condição de parcelas expressivas e minorizadas da população: “O preconceito de raça preponderante sobre negros e índios, a violência contra a mulher, a intolerância para com as identidades LGBTQI, entre outras pautas incontornáveis do mundo contemporâneo que põem em xeque, como viver juntos, a alteridade”.

Território experimental

O marco zero da Selvática foi a inauguração, em 2012, da sede da companhia, no bairro Rebouças, em Curitiba. “Acham que aqui é um puteiro”, comenta em tom de brincadeira Leonarda Glück, referindo-se possivelmente à fachada rosa do imóvel situado na Rua Nunes Machado, quase esquina com a Avenida Getúlio Vargas — onde garotas de programa e travestis atuam há pelo menos duas décadas.

A Casa Selvática também está situada a poucos passos da Paróquia do Imaculado Coração de Maria — os integrantes do coletivo afirmam que até hoje não tiveram problemas com a instituição. Mas o espaço cultural foi alvo de vandalismo e furtos, a Polícia Civil já esteve no local em busca de um traficante de drogas e vizinhos entraram em conflito com os artistas residentes por causa do volume exagerado do som. “Mas não somos barulhentos e, atualmente, os problemas com os vizinhos estão resolvidos”, diz, em nome da Selvática, Leonarda.

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Ricardo Nolasco, Leonarda Glück, Gabriel Machado e Simone Magalhães são alguns dos integrantes do coletivo Selvática.

Em agosto deste ano, 57 artistas argentinos, colombianos, mexicanos e de outros países da América Latina passaram 20 dias na Casa Selvática participando de um projeto de residência artística — inclusive, dormiram no local.

Os 18 integrantes da Selvática, ou artistas residentes, como preferem se autodenominar, não moram na sede. Eles usam o espaço, entre outras finalidades, para conviver e dialogar, o que — salientam — não é sinônimo de consenso. “Incentivamos as diferenças. Para nós, discordar é importante. Afinal, somos um coletivo, não uma igreja”, afirma Ricardo Nolasco, desde 2012 no grupo.

O sobrado, de 120 metros quadrados, é da família de Semyramys Monastier, integrante do coletivo. Para pagar o aluguel e outras despesas, eles promovem, na própria sede e em outros locais, exposições, performances, mostras e cursos. Leonarda Glück conta que a Selvática já foi contemplada em editais públicos para diversas ações culturais, menos para a manutenção do espaço.

O crítico teatral Valmir Santos, observador da produção brasileira desde 1992, diz que o coletivo e a Casa Selvática combinam arte e ativismo de modo inspirador na produção cênica de Curitiba. O especialista analisa que a atuação do grupo dialoga com variações do teatro político do Oficina, em São Paulo, em sua fase de contracultura (entre os anos 1960 e 1970), e também com o desbunde do Asdrúbal Trouxe o Trombone, no Rio de Janeiro, a partir da década de 1980. “Vejo essas trabalhadoras e esses trabalhadores da arte como um corpo social do qual o véu da hipocrisia é rasgado, explicitando a matéria do desejo de que se faz o humano”, teoriza Santos.

Coragem para suportar

Leonarda Glück diz que a mensagem, ou o leitmotiv, da Selvática é a liberdade. E isso vale para diversas, se não todas, possibilidades existenciais. O coletivo viabiliza aos integrantes, entre outros benefícios, conta corrente e nota fiscal de pessoa jurídica, itens praticamente obrigatórios para receber cachê de projetos das iniciativas público e privada. Todo artista residente também pode atuar, e atua, em outros grupos locais.

De acordo com Gabriel Machado, insistência e resistência são sinô- nimos da Selvática. Dos 18, apenas sete artistas residentes são curitibanos: Francisco Mallmann, Leonarda Glück, Matheus Henrique, Renata Cunali, Ricardo Nolasco, Semyramys Monastier e Victor Hugo. Isso indica que os selváticos nascidos em Curitiba não precisam, por exemplo, migrar para outras cidades, como Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte ou Porto Alegre, em busca de oportunidades artísticas. Mas há outro viés na questão. O coletivo também atrai brasileiros de outros estados para a capital do Paraná, onde eles — como Ricardo Nolasco ressalta — fazem questão de insistir e resistir.

Insistência, observa Leonarda Glück, também significa seguir em frente apesar de incompreensões generalizadas. Entre os equívocos ditos e repetidos a respeito da proposta do grupo, está a afirmação de que, se há cena de nudez, certamente a montagem é da Selvática. “Já apresentamos montagem com elenco sem roupa. Mas o nu, inclusive, está ultrapassado. Nossas propostas não incluem, obrigatoriamente, nudismo”, argumenta Leonarda.

Relacionar a Selvática apenas à “festa” é outro ponto de vista que, na avaliação de Gabriel Machado, não corresponde à realidade: “Até porque nossas propostas são densas. Há ainda quem diga que somos herméticos. Mas não somos apenas festivos, apesar de gostarmos, sim, de festas”.

Apesar de certa recepção local distorcida, compartilhada às vezes na surdina ou em redes sociais, a Selvática insiste, resiste, pesquisa e experimenta em Curitiba. O coletivo faz questão de dialogar, por exemplo, com o legado do escritor Wilson Bueno (1949-2010), autor, entre outros livros, de Mar paraguayo e Mano, a noite está velha, o que resultou na montagem Pinheiros e precipícios, além de ressignificar a trajetória de uma travesti mendiga que perambulava pela capital paranaense sobretudo nos anos 1970, tema de Momo — Para Gilda com ardor.

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Realizações da companhia ocupam palcos curitibanos, mas também entram em cartaz em outras regiões. Coágulo circulou por cidades paranaenses, como Antonina, Maringá, Matinhos e Jacarezinho. SN50 foi apresentada no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, durante uma edição do Festival Música e Performance, em 2015. Já Iracema 236 ml teve breves temporadas em Fortaleza e no Rio de Janeiro. E El mostruoso escaparate de los monstruos foi exibido em Madri, na Espanha.

“Nosso plano é conquistar o mundo”, diz meio em tom de brincadeira, mas com não pouca convicção, Leonarda Glück, a respeito do desejo da Selvática de atingir, cada vez mais, públicos variados.

Doces bárbaros

Orçamentos reduzidos, prazos curtos que não atraem técnicos e outras adversidades obrigam os integrantes da Selvática a atuar nos bastidores. Eles são responsáveis, por exemplo, pela iluminação, sonoplastia e outras demandas das montagens que realizam. Isso também pode ter contribuído para a criação de uma linguagem coletiva. “Construímos uma linguagem, uma assinatura artística, que é a marca da Selvática”, diz Ricardo Nolasco.

Essa dicção peculiar, reconhecida pela crítica e aplaudida pelo público que acompanha o coletivo, tem relação com uma proposta multilinguagem. De acordo com Leonarda Glück, teatro, dança e performance são as expressões mais evidentes nos projetos da Selvática. Mas, a artista acrescenta, outras manifestações são incorporadas a partir do repertório dos integrantes.

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Música, por exemplo, surge pela contribuição de Simone Magalhães, desde 2014 à frente do espetáculo Por que não tem paquita preta?, e Jo Mistinguett, DJ, produtora musical e uma das integrantes da banda Horrorosas Desprezíveis. Já a presença do escritor Francisco Mallmann aproxima, ainda mais, o coletivo da ficção e da poesia.

Uma das ambições do grupo é ganhar dinheiro. Todos os 18 integrantes trabalham, direta e indiretamente, com atividades relacionadas à arte, por exemplo, ministrando aulas e cursos. “Somos envolvidos formal ou informalmente com educação”, destaca Ricardo Nolasco. Alguns deles também são contratados para atuar em projetos culturais realizados por outros grupos curitibanos. Mas, Nolasco salienta, o ideal seria sobreviver exclusivamente das propostas da Selvática.

Outra meta é abrir as portas da Casa Selvática todos os dias, ininterruptamente — o que, até hoje, eles ainda não conseguiram fazer. “Para isso acontecer, é necessário acertar as agendas, articular eventos e, principalmente, planejamento. Mas não é algo impossível”, afirma Gabriel Machado.

O grupo não tem projetos para longo prazo. O importante, ressalta Ricardo Nolasco, é continuar. Ou, a exemplo do mantra selvático, insistir e resistir. “Se a companhia acabar? Paciência. Mas a Selvática já implementou uma maneira coletiva de fazer arte. Isso é uma conquista, não tem volta”, diz Nolasco.

Inspirados no Couve-Flor Minicomunidade Artística Mundial, coletivo artístico curitibano que surgiu em 2004, os integrantes da Selvática sabem, na prática, o que significa horizontalidade e autogestão. Feminismo, combate ao preconceito racial e à gordofobia, entre outras questões, estão na pauta desses sujeitos que não se interessam por rótulos e defendem que a pessoa é aquilo que declara ser. Em nome da Selvática, Leonarda Glück diz quem são os 18 artistas do coletivo: “Selváticos, artistas residentes em Curitiba”.

 

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Eventos de aniversário da Casa Selvática. Fotos: Fernando Payaka e Miriama Lopes
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Sala principal da Sala Selvática  Foto: Larissa Marques
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Frete de vedete − Invasão Selvática no Novelas Curitibanas. Foto: Fabia Regina
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Cabaret Macchina (FIT − Festival Internacional de São José do Rio Preto) Foto: Victor Natureza
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Marcio Renato dos Santos é escritor e jornalista. Publicou, entre outros livros, Outras dezessete noites e A certeza das coisas impossíveis.

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