O ódio, o "Fla x Flu" e você
18/09/2017 - 14:00

O acirramento da polarização entre esquerda e direita praticamente reduziu a zero o espaço para a ponderação no debate público, especialmente na internet. Mas novas pesquisas apontam que as pessoas já estão se cansando de oposições e posicionamentos automáticos

Alex Antunes

 

Muito se fala em uma escalada da polarização, do assim chamado “Fla x Flu” contaminando todo e qualquer tema que se destaque na mídia e nas redes sociais. Evidentemente, o centro do embate é a política institucional — mas essa polarização se instala, irresistivelmente, mesmo em temas mais inocentes e/ou irrelevantes. Um exemplo, para aproveitar a deixa da data em que concluo este texto, é o do Dia dos Namorados, com suas próprias trincheiras de postagens “contra” e “a favor” (risos). O ambiente psicopolítico carregado não poupa nenhum gatilho.

Também se fala em uma “escalada do ódio”, e se torna comum o uso do termo “fascista” como uma espécie de xingamento genérico aos perfis com qualquer demanda de autoridade (voltaremos a essa questão). Mas o fato é que nesse território crítico, que poderia ser chamado de esquerda, de progressista, ou mesmo de humanista, há também uma enorme rigidez de percepção. Em uma espécie de negação autoritária do autoritarismo, que se confunde com uma noção de justiça social, claro — mas isso também se aplicaria ao outro lado (ainda que com outra visão do que é justiça).

No Brasil, como chegamos a esse acirramento? Em 1936, Sergio Buarque de Holanda cunhou o termo “homem cordial” (na verdade o pinçou do escritor Ribeiro Couto) e, nas subsequentes edições de Raízes do Brasil, enfatizou seu sentido negativo. Ele diria respeito à nossa máscara de sociedade conciliadora, afetiva, ocultadora de relações bastante cruéis. Evidentemente, essa aparência de cordialidade se baseava num controle profundo que as elites (econômicas, políticas, intelectuais) detinham, podendo dar-se ares cultos e agradáveis. Na verdade, lidamos até hoje com esse arquétipo do “coronel literato”.

Assim, um primeiro elemento de análise possível emerge. Por uma combinação de um processo de inclusão social (cujo início, dependendo da nossa orientação política, pode ser datado dos governos Fernando Henrique ou Lula — mas aqui não vem ao caso) com a horizontalidade das conexões em rede, liberaram-se “energias sociais” estranhas a essa tradição de elite. Que viriam, na forma de uma certa selvageria cultural da classe C ascendente, embater-se contra o mito do Brasil guanabarino, do desenvolvimento com “bom gosto”.

Note que esse gosto, num período duro da nossa história, incluía até um simpático esquerdismo zona sul. Nesse sentido, o oposto de um Chico Buarque (que podia ser gostado até pelas filhas dos generais, como diz a letra de “Jorge Maravilha”) é o funk ostentação, o rolezinho. Essa favela que esfrega na cara uma sexualidade desagradável, dura, como duros são todos os aspectos da sua experiência com drogas, com polícia, com sobrevivência psíquica e física. O que o homem cordial passou décadas varrendo para baixo do tapete, voltou como uma lufada de resíduos tóxicos. Não é exagero apontar esse como um fator psicossocial de tensão, de “perda de território”, que é recebida com agressividade — e não creio que seja apenas uma disputa de classe (como quer a esquerda), mas uma disputa cultural.

 

Ilustração_Augusto Meneghin
   Ilustração: Augusto Meneghin

 

Lacração

Um segundo fator seria de ordem global. Dele, de certa forma, trataram Andy Warhol e Umberto Eco — é o da horizontalização. Warhol, que declarou que no futuro (hoje) todos teriam direito a 15 minutos de fama, pode ser considerado o pai da “lacração”, da “causação”. Seus superstars da Factory incluíam desde herdeiras de fortunas até travestis de rua. Warhol antecipou a cultura de celebridades, em que as pessoas são conhecidas por serem conhecidas (e não por alguma suposta autoridade, de qualquer tipo). No Brasil, a direita acusa essa cultura da lacração de ser uma tática do “marxismo cultural”, um complô gramsciano.

Na verdade, o termo lacração vem do meio travesti; a expressão completa é “lacrar o c* das inimigas”. Não creio que Gramsci tivesse pensado em algo assim como estratégia. E causar viria a ser o oposto do ideal marxista, que sempre pretendeu organizar uma classe para a revolução, e não causar constrangimento social com atitudes hedonistas e/ou individualistas. A explosão exibicionista das redes se parece mais com um surto tardio de um fenômeno de meados dos anos 1970, quando a onda contracultural se diluiu nas classes médias, com resultados comportamentais e estéticos um tanto descompensados.

Já Eco declarou mais recentemente que “As mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel. O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”. É curioso como essa frase converge com algumas de Nelson Rodrigues, de mais de 40 anos atrás, por exemplo: “Antigamente, o silêncio era dos imbecis; hoje, são os melhores que emudecem. O grito, a ênfase, o gesto, o punho cerrado, estão com os idiotas”. Nelson também colocava a culpa no marxismo.

Ou seja, o que acontece hoje é também uma espécie de embate entre quem se acha autorizado a patrulhar e causar (em nome de alguma novidade identitária) e quem se acha herdeiro do velho bom-senso — e se põe a gritar e contrapatrulhar em nome dele. O resultado é que o território da ponderação desaparece. Como dizia Nelson, a inteligência mais sutil tende a se calar. Diante da gritaria, abdica do seu papel de buscar alguma compreensão e consenso. Concretamente, o espaço para colunistas ponderados diminuiu na mídia, a ponto de quase desaparecer.

A aferição de credibilidade se faz cada vez mais pelos acessos virtuais — acessos que dependem da capacidade de se inserir no ruído, nos embates, em tempo real (antes que a polêmica seja ultrapassada pela próxima) —, e não de produzir inteligência. Pensar com clareza e equilíbrio, com a negação da polaridade, é um artigo que já não se paga. É difícil parecer contundente sem usar o truque fácil de se opor a “um dos lados”; se opor a tudo ou a coisa nenhuma (um exercício crítico necessário) não atrai tanta adesão automática.

E aí voltamos ao marxismo, que Nelson Rodrigues responsabilizava pela burrice. E ao suposto fascismo, que até obras meio simplistas/oportunistas, como a da filósofa Márcia Tiburi, Como conversar com um fascista, pretendem combater. O fato é que não se tratam nem de marxistas (ou comunistas), nem de fascistas reais, mas de xingamentos recíprocos. Esse fascista-xingamento é a banalização de um conceito de Adorno, o do “fascista em potencial”. Do ponto de vista da arrogância de esquerda, qualquer um que não compreenda que a humanidade caminha linearmente para o bem (e o bem segundo sua própria concepção) é o fascista, é o mal.

 

Qual esquerda?

Um problema é que essa esquerda ainda não superou as concepções (e os traumas) do século XX. Se usarmos um pouco de terminologia esotérica, não superou também a “era de peixes”, a do cristianismo, que trata a busca do bem como uma busca coletiva. Mas ao mesmo tempo tem de lidar com uma emergência do hedonismo, do personalismo da era da lacração. E então temos uma estranha acoplagem de um personalismo que se crê socialmente necessário — expresso na figura de um Jean Wyllys, por exemplo. Que se permite cuspir num par, Jair Bolsonaro, como “forma de resistência”. Ou, de certa forma, também no personalismo de um Lula, cujos pecadilhos de aceitar benesses de empreiteiras seriam um detalhe diante de sua importância simbólica.

Quanta esperança podemos, ou devemos ter, de que superaremos as armadilhas dessa polarização em um prazo breve? Que impeça, por exemplo, uma eleição presidencial com um segundo turno entre Lula e Bolsonaro — que seria a materialização dessa caricatura conflagrada e perigosa? É aí que chegamos a um terceiro fator de fundo — e que sugere uma leitura bastante pessimista, pelo menos no curto prazo.

Costumo usar o termo “yang do yang” para tratar da exaltação lógica da nossa civilização (que, no seu paroxismo, se torna ilógica). Assim como a celebridade é “a fama da fama”, estamos capturados em ciclos que nunca se cumprem saudavelmente, mas ficam polarizados pelo fetiche (pseudo) racional. É assim com o “dinheiro do dinheiro” (capital financeiro), com a “inteligência da inteligência” (conhecimento acadêmico), com o “poder do poder” (a eleição de figuras e políticas irracionais e populistas) e assim por diante. Creio que esse estágio “yang do yang” é o estágio agônico do patriarcado, e de sua noção desenraizada de autoridade.

Assim, as vozes do “Fla x Flu” delirante seriam apenas esse grito diante do vazio, do colapso das relações sociais, políticas e pessoais fetichizadas tal como as conhecemos e navegamos. E sem sabermos o que vem adiante. Digo fator pessimista porque é grandioso imaginarmos que estamos no fim de uma era — mas que nesse caso qualquer melhoria estaria atrelada à superação de toda a experiência patriarcal, e não de um mero ajuste de hábitos. Ou uma virada quântica, ou nada.

Para mim, parece bastante claro que o que costumamos pensar como direita e esquerda estão capturados nessa mesma armadilha dimensional. E digo isso não em um sentido tecnocrático, de que os conceitos de esquerda e direita estariam superados e seriam substituídos pela obviedade de alguma “gestão eficiente” (até porque essa é uma ideia de direita).

Ao contrário, a oposição (ou complementaridade) entre uma direita e uma esquerda permanecem. Mas temos de entender melhor que direita e que esquerda são essas — e entender em meio ao ruído, separando-se dele. Particularmente, o conceito de esquerda precisa ser reciclado, porque “nossa” esquerda virou uma paródia do autoritarismo trambiqueiro que essa esquerda atribuía à direita mais tosca.

 

O meio, e a mensagem

Voltando à fonte esotérica, ou espiritual, diria que a mão esquerda trata de movimento, de fluidez, de adaptabilidade, de inteligência coletiva (e não de uma outra rigidez, de uma outra certeza moral). Em termos alquímicos, direita seria o coagula (a ordem, a cristalização) e esquerda o solve (o derretimento conceitual). Portanto caberia à esquerda não a arrogância, não o paternalismo, não o olhar acusatório (esse que vê “fascistas” em todas as frestas).

Já em 1965, Eco lançou um de seus principais conceitos, o de apocalípticos e integrados. Dizia respeito à negação, e à aceitação, da cultura de massas. O apocalíptico era crítico à crescente mediocridade da produção cultural; o integrado era otimista em relação à democratização dela. Vivemos hoje uma espécie de fusão desses ex-opostos, em que os apocalípticos se consideram plenamente integrados, e os integrados vislumbram o apocalipse.

Recorramos a outro teórico da comunicação contemporâneo de Eco, Mashall McLuhan, que em 1964 cunhou a frase “O meio é a mensagem”, uma visão otimista da formação de uma “aldeia global”, determinada pelo avanço tecnológico. Ou seja, que o meio de transmissão era mais determinante no impacto da mensagem do que o próprio conteúdo. Desse ponto de vista, estaríamos assistindo a uma “revolta do conteúdo” — ou a uma trollagem maldosa dos meios, colocando a pretensão humana de criação de ordem de cabeça para baixo.

É curioso que as redes, que já têm esse caráter, essa natureza exuzística (a de dar passagem a todas as expressões) tenham se transformado em um veículo de opiniões engessadas, o seu oposto essencial. Talvez seja precisamente uma reação conservadora (e aí o meu uso do termo conservador abarca tanto quem se define como sendo de direita como o oposto) às possibilidades magníficas de uma inteligência coletiva caleidoscópica, não-preconceituosa, não-monoteísta (seja esse “deus único” qual for).

A boa notícia é a de que pesquisas de campo e de compartilhamento nas redes, no Brasil, têm dado conta do contrário da polarização. De que há fluxos contraintuitivos, em que as ideias não são tão alinhadas quanto parecem, em que o traço que separaria a ortodoxia de direita da de esquerda está cada vez mais borrado. Em São Paulo, os professores Pablo Ortellado, da USP, e Esther Solano, da Unifesp, têm conduzido pesquisas em manifestações e eventos, desde os atos anti-Dilma até a mais recente Marcha Para Jesus, que mostram que um suposto campo conservador não é coeso como se poderia supor, mostrando abertura para questões comportamentais e independência crítica em relação a lideranças políticas e religiosas.

Essa noção de que há fluxos não-alinhados correndo por baixo da camada mais óbvia da polarização tem se confirmado nos grafos, os gráficos produzidos pelo Labic, Laboratório de Estudos Sobre Imagem e Cibercultura, que permitem visualizar as teias de influência no meio virtual, onde já se enxerga um descolamento de uma zona de ativismo em relação ao polos de esquerda e direita. E também há a crescente tendência de compartilhamento de informação política porém sem identificação com algum desses polos por parte de quem compartilha — isso se enfatizou após a denúncia de Joesley Batista contra Michel Temer.

Ou seja, são demonstrações estatísticas — por enquanto à margem do ruído, mas já significativas — de que há uma grande quantidade de gente que se cansou, ou está se cansando, de posicionamentos e oposições automáticos. O sintoma dessa liberação seria reconhecer em rede o mal-estar, mas não ser mais um reprodutor dele. Esse é o aspecto otimista da coisa. Como você se sente?

 

Alex Antunes é jornalista, músico, escritor e curador. Editou as revistas Bizz e Set e colaborou com veículos como Yahoo Notícias, Rolling Stone e Folha de S.Paulo, entre outros. Foi vocalista e letrista da banda Akira S & As Garotas que Erraram. É autor do livro A estratégia de Lilith, que inspirou o filme Augustas (de Francisco César Filho).

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