Na arquibancada como na vida
23/01/2018 - 11:30

Em um mundo cada vez mais multicultural, o futebol se firma como um terreno fértil para a construção de “comunidades imaginadas” — locais e nacionais

Christian Schwartz

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Ilustrações: Caco Galhardo

Num clássico estudo publicado originalmente em 1990, Nações e nacionalismo desde 1780, o historiador britânico Eric Hobsbawm comentou a importância das seleções de futebol para o imaginário nacional: “A comunidade imaginada de milhões parece mais real como um time de 11 dos quais sabemos os nomes. O indivíduo, mesmo aquele que apenas torce, se torna ele próprio um símbolo de sua nação”. E em seguida, com o charme característico da prosa histórica que sabe dosar com precisão análise conceitual e anedotário pessoal, ilustrou:

“Este autor se lembra da sensação de nervosismo durante a primeira partida da História entre Inglaterra e Áustria, disputada em Viena em 1929, que escutou pelo rádio na casa de amigos, os quais prometeram descontar nele caso os ingleses derrotassem os austríacos, resultado muito provável, dado o histórico das duas seleções. Como único menino inglês presente, eu era a Inglaterra ali, e eles, a Áustria. (Por sorte o jogo terminou empatado.) É assim que crianças de 12 anos de idade estendem à nação a lealdade a um time”.

Às vésperas de mais uma Copa — palco para o qual os olhos do mundo se voltam, entre outras coisas, em busca da reafirmação de diferenças nacionais — pode ser bastante instrutivo recuar no tempo a essa cena em que o menino Hobsbawm sentiu que sua “inglesidade” (embora o autor tenha nascido no Egito, então parte do Império Britânico, em 1917) dependia, por alguma razão, da performance daquele “time de 11” contra a seleção austríaca no período entreguerras. Essa foi, aliás, uma época em que a nascente mídia de massa fomentava as mais variadas formas de expressão do pertencimento nacional — não mais apenas os velhos nacionalismos de chefes de Estado carismáticos ou heróis de guerra, mas outro tipo também, cultural, por assim dizer, da ordem de um indefinível “caráter” nacional, e certamente mais próximo do que outro pensador britânico, o antropólogo e historiador Benedict Anderson, chamou de “comunidades imaginadas”.

Não por acaso Hobsbawm abre com uma piscadela a Anderson a célebre passagem de seu livro sobre as identidades nacionais — “A comunidade imaginada de milhões parece mais real como um time de 11 dos quais sabemos os nomes” — e foi ela que me voltou à mente em novembro passado, sentado nas arquibancadas do não menos célebre estádio de Wembley, em Londres. Tinha ido assistir a um amistoso entre Brasil e Inglaterra na companhia de um amigo inglês e de seu filho de 8 anos, cuja mãe é brasileira. Ali estava, portanto, e quase 90 anos no futuro, um menino diante da mesma questão que Hobsbawm, aos 12, um dia enfrentara, a do pertencimento nacional conforme sua representação num campo de futebol — só que o menino ao meu lado na arquibancada encarava ainda um outro dilema: qual dos dois “times de 11” escolher?

Embora sua mãe brasileira não estivesse presente, e ainda que o pai inglês fizesse questão de o tempo todo ressaltar as qualidades da jovem equipe inglesa em campo, a primeira reação do menino, poucos minutos depois do apito inicial, foi uma pergunta ao mesmo tempo inocente e intrigante: “Por que o Brasil está jogando com 15 jogadores e a Inglaterra só com 11?”, ele quis saber. O pai riu alto e olhou para mim, como se buscasse a confirmação do que nós dois supostamente conhecíamos bem pela experiência de várias Copas passadas e meia-vida acompanhando futebol internacional. Então virou para o filho: “É, parece mesmo que tem mais jogadores do Brasil lá, mas é só por causa do jeito como eles jogam e do jeito como nós jogamos”, explicou.

No fim, conforme esclareceu o próprio menino, a pergunta nem era sobre quem jogava de um jeito ou de outro — uma questão que, para o pai, parecera oferecer a ilustração perfeita para a suposta diferença fundamental entre brasileiros e ingleses, nós e eles, e melhor ainda: com um deles (eu) ali mesmo para confirmar tudo. Ocorre que a atenção do menino desde o início estivera, não no campo e nos jogadores, mas nos telões do estádio que exibiam as escalações dos dois times; ocorre ainda que o menino prestava atenção, não nos nomes dos 11 (ou 22) listados lá como representantes de milhões, mas nos números dos jogadores: os do Brasil exibiam numeração fora de ordem nas camisas — Paulinho, com a 15, o último da lista brasileira — enquanto os ingleses usavam, do goleiro Hart ao atacante Rashford, a numeração crescente e regular de 1 a 11.

Um “time de 11” contra um “time de 15” — quem sabe a saída para o dilema não tivesse agora ficado mais fácil?

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À parte o fato de que supostos estilos nacionais de jogo têm mais a ver com narrativas e conversas sobre o que acontece em campo (ou sobre nomes e números num telão...) do que com padrões técnicos e táticos consistentemente praticados por esta ou aquela seleção [1], o futebol é mesmo pródigo quando se trata de inventar ou afirmar identidades, tanto para quem joga quanto para quem torce.

Na Copa de 2014, por exemplo, dentre os convocados para as 32 seleções, cerca de cem jogadores — um a cada dez, aproximadamente — defendeu nos estádios brasileiros uma camisa que não era a de seu país de nascimento. Não mais do que cinco times tinham no elenco apenas jogadores nascidos em seu território nacional — o Brasil entre eles; todos os outros contavam com naturalizados.

O que se costuma esquecer com facilidade, inclusive numa discussão tão atual quanto a dos imigrantes e seu direito a uma nacionalidade “por adesão”, por assim dizer, é que simplesmente não existe algo como uma primeira nacionalidade “por natureza”. E, ainda que essa crença arraigada ganhe sobrevida pelo que resta dos nacionalismos à moda antiga, cada vez mais precisa se conformar a realidades multiculturais.

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Naquela célebre teoria das “comunidades imaginadas”, em que trata em particular do mundo pós-colonial, Benedict Anderson defendeu que as nações se consolidam a partir da emergência de um fenômeno próprio das modernas sociedades capitalistas: a leitura simultânea, numa língua comum, de jornais e romances por um número crescente de concidadãos. O gesto sincronizado da leitura de jornal — e veja-se a semelhança com o torcer por um time ou por uma seleção — os lançaria numa “realidade” imaginada que é a refração de acontecimentos de interesse comum no raio de alcance da língua de determinada comunidade.

A teoria de Anderson, originalmente pensada como explicação para a emancipação simbólica de territórios coloniais, no século XIX, encontra eco no fenômeno das narrativas pós-coloniais e imigrantes surgidas no final do século passado: o pós-colonialismo, movimento importante a partir dos anos 1980 na literatura e também no cinema, tipicamente encena a história do imigrante a vagar por subúrbios de metrópoles que ama e odeia, como Londres, Paris ou Berlim, as quais por sua vez o acolhem mas ao mesmo tempo hostilizam, negando-lhe visibilidade e identidade — não é mais paquistanês ou indiano ou norte-africano ou turco, e tampouco recebe o tratamento que um “autêntico” inglês, francês ou alemão mereceria. Mas pode, sim, ser personagem de romances e filmes — ou se projetar como protagonista das narrativas de clubes e seleções de futebol.

Na arena futebolística, a Inglaterra, por exemplo, na mesma década de 1980, assistia à novidade de jogadores de ascendência caribenha começando a chegar com mais frequência ao selecionado nacional; a França, por sua vez, encontrou o auge dessa narrativa na seleção campeã mundial em casa, em 1998; também a Holanda abraçou em campo sua herança como colonizadora; e há, por fim, o caso notável da Alemanha.

Ainda às vésperas da Copa de 2014, a luxuosa revista especializada The Blizzard — biscoito finíssimo para apreciadores de ensaios e grandes reportagens sobre o mundo da bola — trazia um texto de Uli Hesse tratando do quanto tem mudado, em anos recentes, o futebol dos atuais campeões mundiais. Hesse ouve inúmeras fontes profissionais e especialistas a esse respeito, entre as quais o ex-jogador Bastürk. Nascido na Alemanha e destaque em clubes do país, o meio-campista optou por defender a seleção da Turquia, com a qual chegou a uma semifinal de Copa do Mundo, em 2002. “Se a gente olha para 10 ou 15 anos atrás, era quase impensável que jogadores com background estrangeiro jogassem pela Alemanha. Agora tudo mudou, virou multicultural”, observa Bastürk.

Eis aí uma versão alemã recente da narrativa pós-colonial (ou simplesmente imigrante, já que não existe, nesse caso, uma relação direta colonizador-colonizado, como na Inglaterra ou na França, mesmo na Holanda): nas palavras de Hesse, a narrativa de um “novo futebol alemão — emocionante, divertido, moderno e multicultural”.

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Mas o futebol também é terreno fértil para a construção permanente de comunidades imaginadas locais. No dia a dia dessas comunidades, o futebol se expressa mais em termos de “comunitarismo” do que de “nacionalismo”, conforme observa o historiador Hilário Franco Júnior:“O nacionalismo futebolístico tem recuado à medida que cresce a percepção de que a emoção e a mobilização cotidianas estão nas comunidades [locais, regionais] mais do que no denominador comum a elas que é a nação”.

“Bom campo de observação das ambíguas relações comunitarismo/nacionalismo é a Espanha”, lembra Franco Júnior. “Na Espanha”, comenta por sua vez o sociólogo escocês Richard Giulianotti, “as ‘nacionalidades’ de Castela, da região da Catalunha e basca (sem falar da identidade cultural distinta na Andaluzia e na Galícia) são furiosamente expressas no âmbito do clube, mas mantidas em segredo para permitir que esses diferentes jogadores representem o país (ou excepcionalmente a França)”.

A Catalunha é, de fato, um caso já clássico de ambiguidade e sobreposição de pertencimentos e comunidades. Conforme observa Franklin Foer, em seu excelente Como o futebol explica o mundo: “Os estrangeiros podem se tornar catalães porque a ideologia catalã sustenta que a cidadania é adquirida, e não herdada. Para tornar-se catalão, deve-se apenas aprender a língua catalã, desprezar a Espanha castelhana e amar o Barça”. Pátria sem seleção e nação sem Estado, a Catalunha parece se sentir já muito bem representada por seu clube de maior sucesso, enquanto em Copas e Eurocopas assume a torcida pela Espanha — com maior ou menor fervor segundo o número de convocados do Barcelona.

Será interessante observar, nos estádios russos em 2018, como se encenará em campo a recente crise causada pelo referendo seguido de declaração de independência da região, ambos severamente reprimidos pelo governo central do país — e, mais importante, que reação virá da parte catalã na arquibancada espanhola aos destinos da Fúria no campeonato mundial.

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A questão de fundo nisso tudo é a preponderância, ou não, da etnia como fator de nacionalidade no mundo moderno — e Eric Hobsbawm, assim como Benedict Anderson, encara esse elemento como apenas protonacional. Vale reforçar, não se trata aqui de negar o frequente cunho racista de manifestações em defesa da exclusividade no pertencimento a nações — Mario Balotelli, um italiano de pleno direito, sempre pagou um alto preço por envergar a camisa da seleção de seu país, e, na observação do professor gaúcho Luís Augusto Fischer, “Talvez a Itália [como seleção de futebol] seja o último reduto da perversa fantasia da pureza racial”.

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Pode até haver aí algum exagero, mas não deixa de ser irônico que, das seleções europeias mais tradicionais, a única a jamais ter abraçado de fato a realidade multicultural do futebol de hoje seja aquela que, pela primeira vez em seis décadas, não conseguiu se classificar para a Copa.

Apesar de arena por excelência da chamada globalização, ou precisamente em reação a isso, o mundo da bola acolhe e estimula pertencimentos locais, comunitários; e, ao relegar o nacionalismo — discurso primordial na discriminação a imigrantes — a segundo plano, até pela presença maciça e fundamental de jogadores estrangeiros ou naturalizados nos elencos de clubes e seleções, essas comunidades futebolísticas, torcidas incluídas, se convertem em potenciais ilhas de tolerância no debate público das chamadas políticas de identidade. (O que, claro, não deve implicar que se feche os olhos às manifestações de racismo e perversões neonazistas abrigadas em algumas dessas mesmas torcidas.)

As comunidades futebolísticas ilustram, enfim, o que foi e, espera-se, continue a ser a boa nova fundamental da modernidade: que se acolham novos cidadãos pelo que são, por seus talentos e sua disposição a partilhar valores comuns. Afinal, modernamente, o que deveria definir uma identidade é menos o direito nato (ou quem sabe divino...) e mais a capacidade de imaginar-se como parte de uma comunidade — na arquibancada como na vida.

 

Christian Schwartz é jornalista, tradutor e doutor em História Social (Universidade de São Paulo/Cambridge) com tese sobre tradução cultural e futebol.

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[1] Tenho dedicado parte dos meus esforços intelectuais nos últimos anos, aí incluída uma tese de doutorado, ao que pretendo venha a ser uma história global dos estilos de jogo — um livro que pode levar anos ainda para ficar pronto. O leitor interessado poderá, enquanto isso, e dentre muitas opções disponíveis, deliciar-se com as seguintes obras: Invertendo a pirâmide, de Jonathan Wilson, uma história dos sistemas táticos que, pela erudição futebolística e geral do autor, não fica apenas em aspectos técnicos e toca muitas das questões culturais envolvidas; A rainha de chuteiras, relatos do antropólogo Marcos Alvito de um ano inteiro dedicado a acompanhar in loco o futebol das várias e muito organizadas divisões do futebol inglês, de campeonatos amadores à completamente “estrangeirizada” primeira divisão, a Premier League; Dando tratos à bola, de Hilário Franco Júnior, 60 ensaios curtos em que o historiador passa em revista todos os aspectos socioculturais do jogo; e, para quem estiver disposto, um estudo acadêmico — mas de leitura fluente — cujo autor foi literalmente a campo investigar os supostos estilos na origem de sua reprodução, seja como prática, seja como discurso: Do dom à profissão, extensa etnografia realizada por Arlei Damo em categorias de base no Brasil e na França.

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